Quem sabe o que pode abalar Flávio Bolsonaro? Por Moisés Mendes

Flávio Bolsonaro. Foto: EFE/Isaac Fontana

Se o ministro Flávio Dino fizesse um misturado de ingredientes de ideias de Aristóteles, que ele tanto cita, de Platão, Sócrates, Confúcio, Nietzsche, Sartre e Neném Prancha, poderia bater bem e dizer o seguinte: não estão com nenhum deles, mas talvez com o filósofo Augusto Cury, as explicações para os dias que vivemos.

Eles até conseguem nos ajudar a entender por que Flávio Bolsonaro é o autor do prefácio de uma das edições de ‘A arte da guerra’, de Sun Tzu. Mas não explicam tudo, hoje não mais.

Há muito tempo citam Sun Tzu em qualquer situação, até quando falam de um jogo de tênis. Mas quem imaginaria que o filho ungido um dia iria apresentar, com soberba e sabedoria, os ensinamentos do general chinês.

Se Dino descobrir, mais adiante, que Flávio Bolsonaro também prepara o prefácio para uma nova edição de ‘Ética a Nicômaco’, do seu preferido e tão citado Aristóteles, tratando das virtudes morais do fascismo, não haverá o que fazer.

Flávio pode estar escrevendo a apresentação de uma edição condensada de ‘O mito de Sísifo’, de Albert Camus, e o absurdo que a ambição iria expor é muito mais do que o absurdo que a obra tenta entender. Não há absurdo contido no mito de Sísifo que abarque o absurdo do que vivemos no Brasil hoje.

Se Flávio Bolsonaro aparecer na propaganda eleitoral com dólares dependurados no pescoço, e disser que ganhou as notas de Daniel Vorcaro, tudo continuará como está. Porque, se Flávio Bolsonaro escreve prefácios para livros sobre a guerra, pode aparecer com dólares dependurados no pescoço.

Pode aparecer com um colar de melancias. Todas as ferramentas que poderiam nos ajudar a entender o que estamos vivendo são inúteis, das mais complexas às mais utilitárias. Como as pesquisas eleitorais, como essa agora do Datafolha em que Lula aparece de novo com 46% e Flávio continua com os 44%, no segundo turno.

Não há pensamento complexo capaz de ajudar a entender a tenebrosa simplicidade do que nos desafia. A situação de Flávio Bolsonaro afronta e embaralha tudo o que tentamos entender como demandas, sonhos e valores básicos numa democracia.

Há pelo menos duas semanas a sequência de notícias sobre os rolos de gente do bolsonarismo seria, sob qualquer ponto de vista, negativa para o candidato da extrema direita. Mas pesquisas recentes apontam que Lula, e não Flávio, é o político mais corrupto.

Não é Flávio, que recebeu dinheiro de Vorcaro, mas Lula quem a grande imprensa tenta conectar ao banqueiro mafioso. E Lula teria sido o padrinho de Alexandre de Moraes, que o puxaria junto para a cova, depois da sessão do STF na terça-feira. Podem até voltar a cercar o filho de Lula, já que a crise do Supremo não abalou o presidente, e esquecer os filhos ricos de Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.

Ministro Nunes Marques durante sessão solene de posse no STF. Foto: Fellipe Sampaio/SCO/STF

É divertido ver Flávio Dino citando Aristóteles, porque nos distensiona e nos mantém acordados. Mas grande parte desse eleitor considerado independente, que só diz decidir sobre seu escolhido na última hora, já decidiu: agarrou-se de novo à extrema direita.

Esse eleitor em maioria maduro (não são os jovens), muito mais perigoso do que o tio do zap assumidamente de direita absorvido pelo fascismo, nos mantém na dúvida sobre a chance de repetir repetir no limite, este ano, o que aconteceu em 2022.

É o eleitor branco, macho, de classe média, de meia idade, que aceita o que lhe oferecerem para derrotar Lula e lê editorial da Folha com o alerta de que Flávio “é inexperiente e tem relações com personagens envolvidos em atividades criminosas”.

Inexperiente e próximo de personagens envolvidos com crimes. Vale para o currículo de qualquer político metido em rolos. Mas é candura demais, é platitude em excesso com Flávio Bolsonaro.

As corporações de mídia tratam Flávio com certa delicadeza, porque não podem provocar o eleitor independente e suas escolhas difíceis, diante da descoberta de que o bolsonarismo fraudou até a exploração dos negócios com mortos nos cemitérios privatizados de São Paulo.

No segundo turno esse cenário pode mudar? Pode, mas em que medida? Não se espere que a índole desse eleitor aparentemente sempre em dúvida se altere muito. Pode mudar, na hora do voto, por instinto de sobrevivência.

Talvez mude, se ele perceber que Flávio será um traidor da pátria muito mais vingativo e cruel do que o pai dele e que Trump irá governar o Brasil, se o bolsonarismo retornar ao poder em nome dos antissistema, do cansaço com a política e do que ainda definem genericamente como desalento.

O problema é saber quais são os limites para as concessões ao fascismo desse eleitor que o filósofos Cury e Neném Prancha talvez decifrem melhor do que Aristóteles.

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