
Por Fernanda Alcântara
Da Página do MST
Há muitos anos a crise ambiental e climática deixaram de ser uma ameaça distante, projetada para as próximas décadas. Hoje, basta apenas ligar um telejornal que podemos ver seus efeitos na roça que perde a lavoura por falta de chuva, na cidade onde a água invade casas, no posto de saúde lotado durante uma onda de calor e na comunidade que vê sua nascente desaparecer. Em 2026, com o país entrando em mais um ciclo de El Niño e o calendário eleitoral em curso, essa realidade deixou de ser pauta de especialista para virar decisão de voto.
Segundo levantamento do MapBiomas, entre 1985 e 2025 a vegetação nativa caiu de 79% para 65% do território brasileiro, enquanto a agropecuária avançou de 18% para 32% do país. Cerrado e Amazônia concentram boa parte dessa perda, e o Pantanal perdeu mais de 80% de sua savana alagada em quarenta anos.
Essa devastação não atinge todo mundo do mesmo jeito, e termos como racismo ambiental passam a ser mais comuns. Também são as mulheres que seguram a maior parte do peso, buscam água quando ela falta, reorganizam a comida quando a safra quebra, reconstroem a casa e a rotina depois da enchente ou da seca.
Meriely Oliveira, coordenadora estadual do Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis do MST na Bahia, parte exatamente desse ponto para explicar por que o debate ambiental não pode ficar restrito a acordos internacionais. “A crise ambiental agravada pelo avanço do capitalismo sobre os bens comuns da natureza impacta diretamente as condições de vida da classe trabalhadora, aprofundando as desigualdades sociais e comprometendo a soberania alimentar, hídrica e energética dos povos”, afirma.
A coordenadora cita um dado da ONU para dimensionar essa desigualdade: 80% das pessoas afetadas pelas mudanças climáticas no mundo são pobres, e a maioria delas são mulheres e crianças negras. É esse recorte de classe, raça e gênero que o MST cobra dos candidatos em 2026: não basta prometer sustentabilidade, é preciso dizer quem paga a conta da destruição e quem lucra com ela.
Bens comuns em disputa

É nesse ponto que o Movimento apresenta sua resposta organizativa, encaminhando aos candidatos um documento sobre a questão ambiental como tema central para as eleições de 2026 e como oportunidade de aproximar as agendas do campo e da cidade e ampliar o apoio da sociedade à Reforma Agrária Popular. Nesse contexto, orienta as candidaturas ligadas ao MST a apresentarem a Reforma Agrária Popular como alternativa para o enfrentamento da crise ambiental e social, incorporando propostas de cuidado ambiental, produção de alimentos saudáveis, gestão popular dos bens comuns, cooperação e adaptação climática aos planos de mandato.
O documento propõe, ainda, ações de debate e mobilização popular e um conjunto de políticas públicas relacionadas à adaptação climática, transição agroecológica, recuperação ambiental, educação, energia solar, redução de agrotóxicos, segurança alimentar, compras públicas, assistência técnica, proteção de territórios, financiamento climático, comercialização, comunicação popular e participação social na gestão das políticas ambientais.
Para Meriely, o plantio de árvores e a agroecologia são ferramentas concretas de autonomia, não apenas medidas ambientais isoladas. “Nosso projeto político de sociedade, a Reforma Agrária Popular, está baseado no enfrentamento às desigualdades sociais e depende da organização popular, pautando a produção de alimentos saudáveis e o cuidado permanente com os bens comuns da natureza”, diz a coordenadora.
“A agroecologia por nós é entendida como ciência, prática e movimento: exige compreender a natureza e os agroecossistemas para transformar essa compreensão em formas concretas de produzir e viver”, explica Meriely. Segundo ela, o caráter de movimento vem da luta política coletiva contra o modelo do agronegócio e pela construção de outra forma de organizar a agricultura e a sociedade.
Essa disputa também é uma disputa sobre quem detém o conhecimento da terra. Ao falar sobre o Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis, a coordenadora destaca o papel histórico das mulheres na conservação de sementes, no cultivo de plantas medicinais e no cuidado cotidiano com os territórios, conhecimento que o agronegócio químico e mecanizado simplesmente descarta.
“Plantar árvores e produzir alimentos saudáveis também significa fortalecer o protagonismo das mulheres na luta pela Reforma Agrária Popular, na defesa da natureza e na construção de territórios mais justos, saudáveis e socialmente emancipados”, resume Meriely. A frase sintetiza o método do MST: não separar pauta ambiental de pauta de gênero, nem separar as duas da luta pela terra.
Essa combinação também aparece nos números da produção agroecológica dentro dos assentamentos. Quintais produtivos, sistemas agroflorestais e sementes crioulas reduzem a dependência de insumo comprado, ampliam a diversidade na mesa e abrem espaço de renda para mulheres que, no modelo do agronegócio, ficam de fora da cadeia de decisão sobre a terra. É produção pensada para alimentar gente, não para abastecer bolsa de valores.
A ameaça do agronegócio
O relatório final do Observatório do Clima sobre a política ambiental entre 2019 e 2022, período em que Jair Bolsonaro foi presidente, registrou aumento de quase 60% no desmatamento da Amazônia em relação ao quadriênio anterior, enquanto o número de multas aplicadas pelo Ibama por crime contra a flora caiu praticamente 40%. Aquele era (e ainda é) projeto de governo, apresentado como defesa do desenvolvimento e executado como desmonte deliberado da fiscalização.
Esse modelo não morreu com a derrota eleitoral de 2022 e reaparece agora na campanha de Flávio Bolsonaro, que defende um licenciamento ambiental “ágil”, “moderno” e com “segurança jurídica”. Em Belém, o candidato prometeu modernizar a legislação para facilitar licença a quem quiser plantar, criar gado ou explorar subsolo. Em Cabo Frio, criticou a rigidez das normas ambientais para grandes empreendimentos. Em Angra dos Reis, defendeu revisar planos diretores para acelerar condomínio, resort e obra.


A partir de 2023, o governo Lula reabriu estruturas que o bolsonarismo havia desmontado. Recriou a coordenação interministerial de combate ao desmatamento, retomou planos específicos para os biomas e voltou a articular Ibama, ICMBio, Inpe, Polícia Federal e Funai numa mesma frente. O resultado aparece nos números do Prodes: a Amazônia registrou queda de 11% no desmatamento no último ano medido, e de 50% na comparação com 2022. No Cerrado, depois de cinco anos seguidos de alta, a curva também caiu.
A fiscalização voltou a pisar no território com autos de infração, multas e embargos por crime ambiental, que cresceram na Amazônia e no Cerrado entre 2023 e 2025. O Fundo Amazônia, praticamente paralisado no governo anterior, aprovou mais da metade de todo o recurso já contratado em sua história só nesse período recente, financiando fiscalização, prevenção de incêndio e restauração florestal.
O projeto de país apresentado pelos bolsonaristas transforma o licenciamento ambiental, que existe para prevenir dano, em obstáculo burocrático a ser removido. Quando esse instrumento é “destravado” sem participação social, sem estudo sério e sem consulta às comunidades, quem perde proteção não é uma abstração chamada natureza é a família que mora rio abaixo da mineradora, é a comunidade que depende daquela nascente, é quem vai conviver com a barragem ou com o agrotóxico pulverizado por avião.

Meriely aponta essa lógica de forma direta ao analisar quem historicamente destrói e quem historicamente cuida. “Se não temos acesso à terra, não temos acesso aos bens comuns da natureza. São os povos e camponeses que historicamente conservam e recuperam a natureza degradada pelo sistema capitalista, sendo o agronegócio, no contexto brasileiro, o modo de produção que causa a grande destruição ambiental”, afirma a coordenadora.
A eleição de 2026 coloca duas concepções em rota de colisão. De um lado, floresta, água e terra tratadas como bens comuns, ligados à vida e à soberania alimentar. Do outro, os mesmos bens tratados como ativo disponível para negócio, desde que algum órgão público carimbe a licença rápido o suficiente. Não é debate técnico sobre norma ambiental: é debate sobre quem manda no território.
Enquanto o agronegócio exportador se apresenta como sinônimo de modernidade e segurança alimentar, ele segue produzindo soja, milho e carne para mercado externo e recoloca o país em insegurança alimentar. Levantamento do MapBiomas mostra que a agropecuária brasileira já ocupa mais de 270 milhões de hectares, e a soja sozinha responde por dois terços de toda a área agrícola mapeada no país. É a defesa da concentração de terra, de água e de lucro em detrimento da segurança alimentar para o povo.
Candidaturas do campo popular

Diante desse quadro, o MST decidiu disputar a eleição com candidaturas próprias, articuladas ao programa da Reforma Agrária Popular. Meriely explica que essas candidaturas não nasceram de cima para baixo, mas do acúmulo de luta construído nos territórios. “Os nossos candidatos estão apresentando suas propostas de campanha baseadas no projeto popular que o MST construiu para o Brasil, dialogando sobre a Reforma Agrária Popular e suas estratégias”, diz.
Segundo a coordenadora, essas candidaturas cumprem um papel estratégico no enfrentamento à crise ambiental e climática justamente porque não dependem do calendário eleitoral para existir. “Estas candidaturas são importantes no enfrentamento à crise climática e seus efeitos, podendo desenvolver projetos de médio e longo prazo, apoiando iniciativas com papel social e ambiental, a exemplo do Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis”, afirma.
O Plano Nacional incentiva a produção e o plantio de mudas em todos os territórios de Reforma Agrária e também nas cidades, com meta de plantar 100 milhões de árvores em dez anos, entre 2020 e 2030. Não é gesto simbólico de arborização urbana: é estratégia de recomposição de nascente, de corredor ecológico, de sistema agroflorestal dentro do assentamento, e é também disputa de consciência sobre o papel da árvore na produção de alimento, na regulação do clima e na recuperação de ecossistemas que o latifúndio havia destruído.
As candidaturas do MST também levam para dentro das assembleias estaduais e do Congresso Nacional o combate à fome, a produção de alimento saudável acessível à população marginalizada, o fortalecimento de programa social que garanta esse acesso. Meriely detalha o método: “construir iniciativas de audiências públicas, proposição de legislação e iniciativas de políticas públicas, além de ações de reflorestamento em espaços públicos e hortas urbanas.”
De forma mais ampla, o MST discute com seus candidatos um roteiro comum da luta pela demarcação de terra indígena, território tradicional e reforma agrária; construir um plano popular estratégico de enfrentamento à mudança climática; formular plano de transição agroecológica para a agricultura; propor política pública de adaptação climática para campo e cidade; e combater o desmatamento recuperando área degradada, ao mesmo tempo que produz alimentos saudáveis através da agroecologia.
Cada candidatura adapta esse roteiro à realidade do seu mandato, mas o eixo se repete: a questão ambiental deixou de ser tema lateral e virou centro do projeto de sociedade que o MST apresenta. Meriely resume o momento como decisivo. “É de suma importância termos candidaturas próprias que pautem o projeto de sociedade que irá beneficiar os diversos sujeitos e melhore a qualidade de vida da classe trabalhadora”, afirma.
Entre 2020 e 2025, o MST plantou 45 milhões de árvores em todo o país, resultado de ação coletiva da base acampada e assentada, somada a parceria e mobilização da sociedade nos diversos estados. Meriely explica que essa meta numérica é, antes de tudo, um processo organizativo. “O plano nacional de plantio de árvores não é só uma meta numérica do MST, é um processo organizativo de nosso Movimento, que envolve planejamento, fortalecimento da nossa organicidade, das articulações e mobilizações locais, afirmando que a agroecologia é o caminho”, diz.
O que está em disputa

Esse processo passa também pela chamada batalha das ideias: formação política, ecológica e ideológica que envolve a base sem-terra, mas também o conjunto da sociedade. Não se trata só de plantar muda, mas de politizar o debate sobre por que a árvore importa, por que a agroecologia importa, por que a terra nas mãos de quem produz alimento é condição para enfrentar a crise ambiental e climática de forma real, não apenas retórica.
A reforma agrária popular funciona, nesse sentido, como terceira via diante da falsa escolha entre proteger a natureza e produzir riqueza. Assentamento que recompõe nascente, planta agrofloresta, diversifica cultivo e reduz veneno mostra, na prática, que dá para produzir alimento e cuidar do território ao mesmo tempo, sem depender da lógica de exportação que concentra terra e expulsa gente.
Um Fundo Climático Popular da Agricultura Familiar, proposto pelo MST no documento eleitoral, aponta na mesma direção: crédito e apoio não reembolsável para transição agroecológica, recuperação de nascente e quintal produtivo, com mulheres e juventude rural como prioridade. Junto com um marco legal para circuito curto de comercialização e percentual mínimo de compra pública para alimento agroecológico, essas propostas tentam transformar o poder de compra do Estado em instrumento de justiça alimentar.
Votar em 2026 é decidir quem vai controlar a água, a terra, a semente e o orçamento público nos próximos anos. Não é escolher só entre crescer ou não crescer: é escolher crescimento para quem, com que território e a que custo para quem vem depois. A resposta que o MST constrói nos territórios, e que Meriely Oliveira ajuda a formular na Bahia, parte de uma constatação simples: plantar árvores e produzir alimento saudável são a mesma luta. A justiça climática começa quando a terra deixa de ser mercadoria de poucos e volta a cumprir sua função social, alimentar e ecológica.
Confira os eixos do documento “As questões ambientais nas eleições de 2026”:
1. Debate amplo
a) Lutar pela demarcação de terras indígenas, territórios tradicionais e reforma agrária;
b) Pautar a construção de um plano popular estratégico de enfrentamento às mudanças climáticas;
c) Pautar a construção de um plano de transição agroecológica para agricultura;
d) Formular e propor políticas públicas de adaptação às mudanças climáticas para o campo e a cidade, sem mediação de ONGs;
e) Propor políticas de combate ao desmatamento e políticas de recuperação produtiva de áreas degradadas através da agroecologia.
2. Mobilização
a) Realização de assembleias populares sobre a questão ambiental e mudanças climáticas: espaço para ouvir o povo sobre as ações/projetos de lei necessários para a adaptação e o enfrentamento às mudanças climáticas;
b) Organizar atividades de cuidado com os bens comuns da natureza no campo e na cidade, a exemplo de nascentes, córregos, bosques e praças;
c) Plantar árvores em todas as atividades de campanha, distribuir mudas e mobilizar o plantio permanente de árvores;
d) Realizar mobilização ampla de plantio de árvores no dia 21 de setembro (dia da árvore);
e) Provocar atividades junto aos povos indígenas, povos e comunidades tradicionais para discutir estratégias de enfrentamento à crise ambiental e cuidado com a natureza;
f) Agitar permanentemente o tema nas redes, denunciando o agronegócio e anunciando nosso projeto.
3. Sugestões de propostas para os mandatos
a) Construção de planos estaduais de adaptação às mudanças climáticas: propor processo consultivo aos bairros e municípios para formulação desse plano estadual de adaptação.
b) Plano emergencial de enfrentamento ao El Niño: pautar a construção de planos estaduais de enfrentamento ao El Niño, envolvendo a secretaria de saúde do estado e municípios, juntamente com a secretaria de agricultura e organizações populares locais.
c) Planos estaduais de transição agroecológica: pautar a construção de planos estaduais de transição agroecológica com subsídios, assistência técnica e envolvimento dos movimentos sociais na implementação.
d) Política estadual de recuperação de bacias hidrográficas: propor programas estaduais de recuperação das microbacias hidrográficas, que gerem empregos e envolvam a comunidade local no processo.
e) Política de educação ambiental agroecológica: propor uma lei de educação ambiental agroecológica estadual, baseada nas experiências de diversos municípios do Brasil em que os movimentos construíram junto às secretarias de educação.
f) Programa popular para energia solar no campo e na cidade: para casas atendidas pelo Bolsa Família, com implantação de placas solares nas casas de famílias vulneráveis, reduzindo a conta de luz e contribuindo para a melhoria da renda dessas famílias.
g) Programa de Redução de Agrotóxicos local, inspirado no Pronara: taxação progressiva de venenos, proibição de pulverização aérea e criação de zonas livres de agrotóxicos e transgênicos em bacias e territórios de produção de água e alimentos.
h) Lei de Abastecimento e Segurança Alimentar alinhada ao PLANNAB: ampliação de sacolões populares, feiras da reforma agrária e da agroecologia, cozinhas solidárias, priorizando compra pública da agricultura familiar;
i) Política de compras públicas agroecológicas: merenda, hospitais e restaurantes populares, com percentuais mínimos de alimentos agroecológicos, da reforma agrária e de povos e comunidades tradicionais;
j) Programa municipal de ATER agroecológica: equipes públicas/populares com orçamento estável, voltadas a práticas sem veneno, manejo da água e da biodiversidade;
k) Plano de terra e território para o clima: apoio político a desapropriações para reforma agrária, regularização de territórios tradicionais e proteção de bens comuns, como água e florestas, reconhecendo-os como política climática;
l) Fundo Climático Popular da Agricultura Familiar: crédito e apoio não reembolsável para transição agroecológica, agroflorestas, recuperação de nascentes e quintais produtivos, priorizando mulheres e juventudes rurais;
m) Marco legal dos circuitos curtos de comercialização: desburocratizar feiras, venda direta, entregas solidárias e agroindústrias familiares, fortalecendo mercados justos para a agroecologia;
n) Programa de Educação e Comunicação Popular em Agroecologia e questão climática/ambiental: em escolas, rádios comunitárias e casas de sementes, valorizando saberes ancestrais e experiências dos movimentos;
o) Sistema participativo de monitoramento da política ambiental e climática: conselhos de soberania e segurança alimentar e nutricional com forte presença de movimentos do campo, das águas e das florestas, definindo prioridades e controlando a execução orçamentária.
O documento encerra reafirmando a construção da Reforma Agrária Popular e de um “projeto popular no Brasil” e é assinado pela Secretaria Nacional e pela Coordenação Nacional do Plano Plantar Árvores, produzir alimentos saudáveis.