
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, negou ser amigo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e afirmou não ter “interesse pessoal” nos processos que envolvem o Banco Master. Em defesa de 37 páginas apresentada ao Conselho Superior do Ministério Público Federal, ele classificou como “leviandades” as sugestões da Polícia Federal sobre uma relação imprópria com o empresário.
O colegiado do MPF analisará o caso no próximo dia 25, após deputados do Partido Novo pedirem a abertura do procedimento. Gonet também repetiu sua posição em sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) que avaliou o relatório da PF sobre 52 mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes.
Nas conversas reunidas pela investigação, Vorcaro perguntou a Moraes se seria possível “reverter isso com Paulo ou Andrei” e reclamou de sofrer “muita sacanagem”. Gonet sustentou que não possuía o telefone de Vorcaro em sua agenda e que seu número também não constava entre os contatos do ex-banqueiro.
“Se houvesse essa facilidade de contato pessoal, ele não precisaria enviar mensagens para terceiros, rogando que falassem comigo”, escreveu o procurador-geral. Para Gonet, as referências a pedidos de socorro por intermédio de outras pessoas demonstram justamente a falta de uma relação direta entre os dois.
PGR Paulo Gonet confirma que participou de evento com Vorcaro e que participou de ligação telefônica com o banqueiro.
Gonet, no entanto, negou “proximidade” pic.twitter.com/9Z2m0v2kgg
— Sam Pancher (@SamPancher) September 15, 2026
Encontro em Londres e mensagens com advogado
Gonet disse ter encontrado Vorcaro uma única vez, no I Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres em abril de 2024. Ele afirmou que desconhecia o patrocínio do Banco Master ao evento e que, até então, considerava a instituição uma empresa financeira “em atividade aparentemente regular”.
O fórum ofereceu degustação de uísque e charutos a magistrados do STF, do Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal Superior Eleitoral, além dos ministros Ricardo Lewandowski, da Justiça, e Jorge Messias, da Advocacia-Geral da União. Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, participaram do encontro; materiais apreendidos na investigação apontam que Vorcaro pagou R$ 640 mil pelo evento, valor equivalente a R$ 3,3 milhões no câmbio da época.
O relatório policial também reuniu conversas envolvendo o advogado Ciro Soares, que trabalhava para Vorcaro, e uma mensagem atribuída a Gonet: “Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan”. O procurador-geral declarou que só recordou a interação depois de ler o documento da PF e relatou que Soares telefonou para Vorcaro, em março de 2025, para uma “breve saudação” quando ambos estavam juntos.
Na ocasião, Soares comentou que o Master estava perto de concluir uma transação com o BRB. Gonet disse ter respondido com parabéns por gentileza, sem conhecer o que chamou de “quadro real”, e mais tarde escreveu: “Que bom! Na torcida por vocês!” após receber nova atualização do advogado. Ele afirmou que a frase “saudade de você”, citada no relatório, foi dirigida apenas a Soares, e não a Vorcaro.
Na defesa, o chefe da PGR também negou ter pedido que seu filho, Pedro Gonet, viajasse a Londres para uma segunda edição do fórum em 2025, que não ocorreu. Embora o relatório traga uma mensagem em que Soares pergunta a Vorcaro se Pedro poderia ir e recebe a resposta “Óbvio”, Gonet afirmou que não houve convite nem conversa sobre a viagem.
Sobre a apuração do caso Master, Gonet declarou que encaminhou o procedimento ao procurador responsável logo após receber informações do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e prestou apoio à equipe. Ele disse que não interferiu nas investigações, não buscou dados sigilosos e não recebeu pedido para atuar em favor de Vorcaro.
Gonet criticou ainda o ministro André Mendonça, relator do caso Master, por conceder 72 horas para a PGR examinar o segundo pedido de prisão de Vorcaro. A PGR se manifestou contra a cautelar, mas Mendonça decretou a prisão; o procurador-geral alegou que não havia “indicação de perigo iminente, imediato” que justificasse uma análise tão rápida.