O pleno emprego que fabrica juros altos, por Maurício Luperi

O pleno emprego que fabrica juros altos

Por Maurício Martinelli Luperi

O Brasil estaria próximo do pleno emprego.

A afirmação parece encontrar respaldo imediato nos números. A taxa de desemprego caiu para níveis historicamente baixos e o Banco Central do Brasil (BCB) identifica um mercado de trabalho aquecido. Em exercício divulgado em 2026, o próprio BCB estimou em 7,2% a taxa de desemprego que não aceleraria a inflação, conhecida pela sigla inglesa NAIRU, Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment. Como o desemprego observado estava significativamente abaixo desse nível, o diagnóstico foi de excesso de pressão no mercado de trabalho. Segundo o exercício, esse hiato explicaria aproximadamente metade do desvio da inflação subjacente de serviços em relação ao nível compatível com a meta.

Parece uma sequência lógica:

desemprego baixo → escassez de trabalhadores → salários pressionados → inflação de serviços → necessidade de juros elevados.

Mas há uma pergunta anterior que raramente recebe a mesma atenção:

o que significa estar empregado no Brasil de hoje?

E outra ainda mais importante:

uma taxa de desemprego baixa significa necessariamente que se esgotou a oferta de trabalhadores disponível para uma expansão da produção formal?

As duas perguntas parecem semelhantes. Não são.

  1. O desemprego mede quem não trabalha – não necessariamente quem poderia trabalhar melhor

A metodologia utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) está de acordo com os padrões internacionais. Uma pessoa que exerce atividade remunerada é considerada ocupada, ainda que trabalhe informalmente, por conta própria ou através de uma plataforma digital.

Isso significa que o motorista da Uber está ocupado.

O entregador do iFood está ocupado.

O motociclista que entrega mercadorias compradas pela internet está ocupado.

O camelô está ocupado.

O vendedor ambulante está ocupado.

O trabalhador por conta própria sem registro formal está ocupado.

E está correto classificá-los assim. Eles trabalham.

O problema começa quando uma estatística construída para medir desocupação passa a ser interpretada como se medisse integralmente a escassez de trabalho disponível para a expansão produtiva.

Imagine um trabalhador com ensino médio completo que passa dez horas por dia realizando entregas. Se amanhã uma indústria, uma transportadora ou uma empresa comercial lhe oferecer um emprego formal, com salário adequado, férias, décimo terceiro, previdência e maior estabilidade, ele pode abandonar imediatamente a plataforma.

Antes da contratação ele estava ocupado.

Depois da contratação continua ocupado.

A taxa de desemprego não se altera.

Mas a economia acaba de incorporar um trabalhador à produção formal sem precisar retirá-lo do estoque estatístico de desempregados.

Esse trabalhador não era desempregado.

Mas poderia constituir oferta de trabalho mobilizável.

Essa distinção é fundamental.

  1. O velho desemprego disfarçado encontrou o algoritmo

O problema não nasceu com Uber, iFood ou 99.

A tradição latino-americana de estudos sobre informalidade, particularmente aquela associada ao Programa Regional de Emprego para a América Latina e o Caribe (PREALC), da Organização Internacional do Trabalho (OIT), há décadas chama atenção para formas de ocupação que funcionam como estratégias de sobrevivência diante da insuficiente capacidade do setor moderno da economia de absorver trabalhadores.

Fernando Mattos e Sergiany Lima mostraram isso em artigo publicado em Economia e Sociedade em 2015. Mesmo depois da forte redução do desemprego e do crescimento da formalização ocorrido nos anos anteriores, concluíram que não se poderia afirmar que o Brasil tivesse alcançado pleno emprego enquanto permanecesse expressivo contingente de mão de obra precariamente inserida e potencialmente mobilizável pela expansão produtiva.

José Luis Oreiro e Stefan D’Amato retomaram recentemente o problema sob a expressão “desemprego disfarçado”. Para os autores, a baixa taxa de desemprego aberto convive com formas frágeis de ocupação relacionadas à própria transformação da estrutura produtiva brasileira.

A novidade contemporânea é que parte desse antigo excedente de trabalho ganhou um aplicativo no celular.

O camelô continua existindo.

O mascate continua existindo.

O trabalhador informal continua existindo.

Mas agora convivem com o motorista de aplicativo, o entregador de comida, o entregador de comércio eletrônico e diferentes modalidades de trabalho intermediadas digitalmente.

A tecnologia não necessariamente eliminou a informalidade. Em determinadas atividades, organizou-a, ampliou sua escala e passou a administrá-la por algoritmos.

Temos, assim, algo semelhante a um desemprego disfarçado digital: trabalhadores estatisticamente ocupados que podem continuar constituindo parte da oferta potencial de trabalho para empregos formais de maior produtividade.

  1. Dois milhões de trabalhadores que praticamente não aparecem no desemprego

O fenômeno deixou de ser marginal.

A nova pesquisa do IBGE sobre trabalho por plataformas encontrou 1,959 milhão de trabalhadores plataformizados em 2025, aproximadamente 1,9% da população ocupada. Cerca de 1,2 milhão utilizavam plataformas de transporte de passageiros e 376 mil exerciam especificamente a ocupação de entregadores. A nova investigação passou inclusive a captar trabalho secundário e plataformas de comércio eletrônico, ampliando nossa capacidade de observar esse universo.

Mas há uma constatação ainda mais interessante feita pelo próprio Banco Central.

Em estudo publicado no Relatório de Política Monetária de setembro de 2025, o BCB estimou que o contingente de trabalhadores de aplicativos de transporte e entrega teria aumentado de aproximadamente 770 mil em 2015 para 2,1 milhões no segundo trimestre de 2025, crescimento de 170%, enquanto a população ocupada cresceu cerca de 10%. O estudo construiu inclusive cenários contrafactuais para avaliar como teria evoluído o mercado de trabalho sem essa expansão extraordinária do trabalho por aplicativos.

Temos então duas constatações produzidas dentro da própria análise do Banco Central.

De um lado, o avanço dos aplicativos contribuiu para elevar a ocupação e reduzir o desemprego medido.

De outro, o desemprego excepcionalmente baixo é utilizado como uma das evidências de que o mercado de trabalho está excessivamente aquecido.

As duas afirmações não são contraditórias.

Mas sua combinação produz uma pergunta decisiva:

quando um desempregado passa a dirigir Uber ou entregar comida, ele desaparece apenas da estatística de desemprego ou desaparece também da oferta potencial de trabalho para o setor formal?

Essa segunda proposição não decorre automaticamente da primeira.

  1. Estar ocupado não significa estar plenamente utilizado

Considere três trabalhadores.

O primeiro está desempregado e procura emprego.

O segundo trabalha 50 horas semanais como motorista de aplicativo e aceitaria um emprego formal compatível com sua escolaridade.

O terceiro vende produtos informalmente nas ruas e também aceitaria uma oportunidade formal adequada.

Para a taxa convencional de desemprego, somente o primeiro representa trabalho disponível.

Para uma empresa procurando trabalhadores, porém, os três podem representar oferta de trabalho.

É essa diferença que pode ser especialmente importante em uma economia caracterizada por elevada informalidade, heterogeneidade produtiva e crescente plataformização.

Naturalmente, seria incorreto considerar todo trabalhador informal um “desempregado oculto”.

Há profissionais autônomos de alta renda que não desejam emprego assalariado. Há pequenos empresários genuínos. Há trabalhadores que escolheram suas atividades e não pretendem abandoná-las.

O problema precisa ser formulado de outra maneira:

qual parcela dos trabalhadores informais, por conta própria e plataformizados migraria para empregos formais diante de oportunidades adequadas?

Essa é uma questão empírica.

E é precisamente essa parcela que deveria interessar quando pretendemos avaliar se o país realmente chegou ao limite de sua capacidade de expandir emprego e produção.

  1. Escolaridade e mobilidade importam

Também não basta contar trabalhadores.

É preciso saber quem pode ocupar quais vagas.

Se a economia cria empregos para técnicos especializados e a reserva disponível possui qualificação incompatível, pode haver escassez localizada de trabalhadores mesmo convivendo com milhões de pessoas precariamente ocupadas.

Mas a proposição inversa também precisa ser investigada.

Quantos motoristas de aplicativos possuem ensino médio completo?

Quantos possuem ensino superior?

Quantos entregadores poderiam trabalhar em logística, comércio, indústria ou serviços formais?

Quantos camelôs e vendedores ambulantes possuem escolaridade semelhante à dos trabalhadores formalmente empregados nas mesmas faixas ocupacionais?

E, principalmente, quantos trabalhadores efetivamente fazem essas transições quando a economia cresce?

A questão relevante para o pleno emprego não é apenas o estoque de desempregados.

É a mobilidade do trabalho.

Enquanto uma economia em expansão continuar transformando:

informal → formal

plataforma → formal

trabalho por conta própria precário → formal

sem forte aceleração dos custos unitários do trabalho e dos preços, existe uma razão para investigar se a oferta efetiva de trabalho está realmente esgotada.

  1. Então o Brasil está em pleno emprego?

Não sabemos.

E essa é precisamente a questão.

O que sabemos é que uma taxa baixa de desemprego aberto não basta para responder à pergunta.

O próprio IBGE produz indicadores mais amplos de subutilização que incluem subocupação por insuficiência de horas e força de trabalho potencial. Mas mesmo esses indicadores têm dificuldade para captar o trabalhador que trabalha muitas horas numa atividade precária e que migraria para uma ocupação formal se tivesse oportunidade.

Um motorista trabalhando 50 horas não é subocupado por insuficiência de horas.

Um entregador trabalhando seis dias por semana tampouco.

Um camelô trabalhando diariamente não está desempregado.

Mas todos podem integrar uma reserva de trabalho ocupada.

Esse é o ponto cego.

  1. Por que salários maiores podem pressionar principalmente os preços dos serviços?

É justamente aqui que precisamos entender por que o Banco Central acompanha tão atentamente salários e inflação de serviços.

Em grande número de atividades de serviços, o trabalho representa parcela relativamente elevada dos custos de produção e há menor possibilidade de substituir rapidamente trabalhadores por máquinas ou de obter grandes ganhos de produtividade. Um restaurante, um salão de beleza, uma escola, uma clínica ou uma empresa de serviços pessoais dependem diretamente de horas de trabalho.

Quando o mercado de trabalho está efetivamente apertado, empresas podem precisar oferecer salários maiores para contratar ou manter trabalhadores. Se esses salários crescerem persistentemente acima da produtividade, aumenta o custo unitário do trabalho, isto é, o custo do trabalho necessário para produzir cada unidade de produto ou serviço. Parte desse aumento pode então ser repassada aos preços.

Mas isso é diferente de afirmar simplesmente:

salários maiores → inflação maior.

Imagine que os salários aumentem 6%. Se a produtividade aumentar 5%, o custo unitário do trabalho cresce muito menos do que se os mesmos salários aumentarem 6% enquanto a produtividade permanece estagnada.

A relação relevante é, portanto:

salários → produtividade → custo unitário do trabalho → margens e repasse → preços.

Essa distinção é particularmente importante para a discussão desenvolvida aqui.

Um trabalhador que deixa uma atividade informal ou plataformizada de baixa produtividade e passa para uma empresa formal pode receber salário maior, mas também passar a trabalhar com mais capital, tecnologia, escala, especialização e organização. Seu salário aumenta, mas sua produtividade também pode aumentar.

A formalização, portanto, não deve ser interpretada apenas como pressão salarial. Ela pode representar simultaneamente expansão da capacidade produtiva.

Além disso, salários não são a única fonte da inflação de serviços. Energia, alimentos, combustíveis, aluguéis, impostos, insumos, indexação, margens e choques anteriores também podem ser transmitidos aos preços dos serviços.

Observar simultaneamente desemprego baixo, salários crescentes e inflação de serviços elevada não demonstra, portanto, que toda a causalidade percorra necessariamente o caminho:

mercado de trabalho → salários → inflação.

É preciso identificar essa causalidade.

  1. O paradoxo da NAIRU brasileira

A questão torna-se particularmente importante quando entra na política monetária.

O Banco Central estima atualmente uma taxa de desemprego que não acelera a inflação (NAIRU) de 7,2%. A estimativa caiu significativamente: teria permanecido entre 9% e 10% até aproximadamente 2007, chegado a cerca de 11% até 2015 e recuado posteriormente. Mesmo assim, continua muito acima da taxa de desemprego efetivamente observada.

A própria incerteza é considerável. O intervalo de confiança de 95% divulgado pelo BCB para a NAIRU recente vai aproximadamente de 5,41% a 9,09%.

Compare-se isso aos Estados Unidos.

Nas projeções de junho de 2026 do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) do Federal Reserve, o banco central norte-americano, a mediana dos participantes para a taxa de desemprego no longo prazo era 4,2%, com projeções individuais entre 3,8% e 4,5%.

Essa projeção de longo prazo do Federal Reserve não é metodologicamente idêntica à NAIRU estimada pelo modelo do BCB. Seria incorreto colocar os dois números lado a lado como se fossem exatamente a mesma variável.

Mas ambos procuram informar a avaliação sobre quão baixo o desemprego pode permanecer de maneira sustentável, e o contraste é suficientemente grande para exigir explicação.

Surge então um paradoxo.

O Brasil possui informalidade muito maior, heterogeneidade produtiva maior e provavelmente uma reserva de trabalho precariamente ocupada proporcionalmente muito superior à norte-americana.

Por que nossa economia precisaria manter mais desemprego aberto, e não menos, para evitar inflação?

Há respostas possíveis.

Problemas educacionais, baixa qualificação, incompatibilidade entre as qualificações oferecidas pelos trabalhadores e aquelas exigidas pelas vagas — o chamado mismatch —, menor mobilidade geográfica, baixa produtividade e dificuldades de encontro entre trabalhadores e vagas podem efetivamente elevar a taxa de desemprego compatível com estabilidade inflacionária.

Mas existe outra possibilidade que precisa ser testada:

talvez parte da NAIRU elevada reflita não apenas características do mercado de trabalho, mas a maneira pela qual interpretamos a própria inflação brasileira.

  1. Quando a inflação determina a NAIRU que depois explica a inflação

A NAIRU não é observada.

Ninguém vai ao IBGE e encontra 7,2% numa pesquisa.

Ela é uma variável não diretamente observável, estimada a partir de um modelo.

No exercício recente do Banco Central, uma curva de Phillips procura explicar a inflação subjacente de serviços utilizando inflação passada, expectativas de inflação, hiato do desemprego e um indicador destinado a captar pressões nas cadeias de suprimentos durante a pandemia. A NAIRU é estimada dentro desse sistema. O próprio BCB ressalta a incerteza inerente ao exercício.

Isso significa que a identificação das causas da inflação importa enormemente.

Se uma parcela da inflação brasileira decorre de:

câmbio; alimentos; energia; commodities; preços administrados; indexação; mecanismos de propagação; choques externos; alterações de margens;

mas parte desses movimentos acaba se transmitindo à inflação de serviços, salários e expectativas, separar estatisticamente inflação de demanda de inflação propagada por choques de custos torna-se extremamente difícil.

E pode surgir uma circularidade.

Observa-se inflação de serviços elevada.

O modelo encontra desemprego abaixo da NAIRU.

Conclui-se que existe pressão excessiva de demanda proveniente do mercado de trabalho.

Essa conclusão reforça a necessidade de juros elevados.

Mas a própria NAIRU foi inferida a partir da relação entre desemprego e inflação.

Não significa que o exercício esteja errado.

Significa que a especificação precisa ser confrontada com medidas alternativas de disponibilidade de trabalho e com diferentes decomposições das causas da inflação.

  1. O Peru acaba de mostrar por que isso importa

Um estudo recente de César Carrera e Marko Razzo, pesquisadores do Banco Central de Reserva do Peru, oferece uma pista especialmente importante.

Os autores estimaram a NAIRU peruana de duas maneiras: primeiro utilizando o desemprego convencional; depois incorporando a informalidade à medida de ociosidade do mercado de trabalho.

O resultado mudou substancialmente.

Com o desemprego convencional, apareciam NAIRU crescente e pressão inflacionária persistente. Incorporando a informalidade, a NAIRU estimada diminuía e a curva de Phillips se tornava mais plana.

A conclusão é especialmente relevante para economias emergentes: ignorar a informalidade pode levar à superestimação dos riscos inflacionários e da potência atribuída à política monetária.

É difícil imaginar um teste mais pertinente para o Brasil.

Temos agora, além da informalidade histórica, quase dois milhões de pessoas trabalhando através de plataformas segundo a nova pesquisa do IBGE.

Precisamos saber quanto dessa população representa efetivamente trabalho mobilizável.

  1. Do entregador à Selic

Aparentemente, estamos falando de assuntos completamente diferentes.

De um lado está o entregador do iFood.

Do outro, a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que determina a taxa básica de juros, a Selic.

Mas existe uma cadeia que liga os dois:

trabalho precário → trabalhador classificado como ocupado → desemprego medido menor → menor ociosidade aparente → mercado considerado aquecido → maior pressão inflacionária atribuída ao trabalho → política monetária mais restritiva.

O ponto não é afirmar que toda a cadeia esteja errada.

É perguntar se ela foi suficientemente testada para uma economia com as características estruturais brasileiras.

Porque, se parte relevante dos trabalhadores atualmente classificados como ocupados puder migrar para empregos formais de maior produtividade, uma expansão da demanda pode produzir:

mais formalização → mais emprego produtivo → mais investimento → maior produtividade → maior renda → maior arrecadação

antes de se transformar predominantemente em inflação.

E aqui a relação entre salários e produtividade volta a ser fundamental. Salários maiores decorrentes da formalização não representam necessariamente inflação na mesma proporção se forem acompanhados por ganhos de produtividade.

Nesse caso, interpretar uma taxa de desemprego de 4%, 5% ou 6% como evidência automática de pleno emprego pode interromper prematuramente o processo de expansão.

  1. Quando o erro quase sempre aponta para o mesmo lado

A questão torna-se ainda mais importante porque a NAIRU não opera isoladamente.

Ela integra uma arquitetura monetária na qual várias escolhas parecem apresentar uma característica comum: diante da incerteza, o custo do erro tende a ser ponderado mais fortemente quando o risco é inflação do que quando é perda de produto, emprego ou investimento.

Temos uma NAIRU relativamente elevada.

Temos forte peso atribuído às expectativas de inflação.

Temos um regime que exige convergência da inflação à meta dentro de determinado horizonte.

Temos uma interpretação recorrente da expansão fiscal pela ótica de seu impacto sobre demanda e inflação.

E temos um mandato institucional assimétrico.

A Lei Complementar nº 179, de 2021, estabeleceu que assegurar a estabilidade de preços é o objetivo fundamental do Banco Central. Suavizar as flutuações da atividade e fomentar o pleno emprego devem ocorrer “sem prejuízo” daquele objetivo.

Não se trata, portanto, de um duplo mandato simétrico nos moldes institucionais norte-americanos.

Cada elemento pode ser defendido separadamente.

O problema aparece quando todos apontam sistematicamente na mesma direção:

NAIRU elevada → juros maiores.

Expectativas desancoradas → juros maiores.

Prazo de convergência exigente → juros maiores.

Déficit fiscal interpretado como pressão de demanda → juros maiores.

Mercado de trabalho considerado excessivamente aquecido → juros maiores.

Choques que contaminam expectativas → juros maiores.

A pergunta institucional relevante deixa então de ser se cada instrumento possui alguma justificativa teórica.

Passa a ser:

por que, diante de tantas incertezas, os erros de diagnóstico parecem produzir quase sempre a mesma recomendação?

  1. O déficit de 0,4% e o pleno emprego

Essa discussão ajuda também a recolocar o debate fiscal.

Quando um déficit primário relativamente pequeno, da ordem de 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB), é apresentado como evidência de um governo excessivamente expansionista, existe frequentemente uma premissa implícita: a economia já estaria próxima ou além do pleno emprego e, portanto, estímulos adicionais à demanda encontrariam pouca capacidade produtiva disponível.

Se essa premissa estiver errada, muda também a interpretação do impulso fiscal.

Não significa que déficits nunca produzam inflação.

Significa apenas que:

expansão da demanda não significa inflação automática.

O resultado depende da capacidade de resposta da oferta.

E trabalho é parte dessa capacidade.

Se existem milhões de trabalhadores desempregados, subutilizados ou precariamente ocupados capazes de migrar para atividades formais, a expansão da demanda pode simultaneamente aumentar produção, formalização e produtividade.

A pergunta correta, portanto, não é:

“o desemprego está baixo?”

É:

“quanto trabalho adicional, com qual escolaridade e qual qualificação, ainda pode ser mobilizado para ampliar a produção?”

  1. Dominação epistêmica: quando a maneira de formular o problema determina a resposta

É aqui que a discussão deixa de ser apenas econométrica.

Nenhuma conspiração é necessária.

Instituições operam através de conceitos, modelos, indicadores e linguagens que determinam quais fenômenos são considerados relevantes e quais permanecem fora do campo principal de observação.

Quando a economia passa a ser enxergada predominantemente através de:

NAIRU, hiato do produto, expectativas, resultado primário, regra fiscal e convergência da inflação, determinadas relações ganham enorme visibilidade.

Outras podem ficar na periferia:

heterogeneidade estrutural, desemprego disfarçado, informalidade mobilizável, uberização, subutilização de qualificação, mobilidade ocupacional, custo unitário do trabalho, efeitos dos juros sobre investimento e produtividade e transformação da própria capacidade produtiva.

É nesse sentido que se pode falar em dominação epistêmica.

Não significa falsificação de dados.

Não significa que economistas do Banco Central estejam deliberadamente produzindo juros altos.

Significa algo mais profundo: o próprio conjunto de categorias consideradas legítimas para interpretar a economia pode produzir uma visão sistematicamente inclinada para determinada resposta de política econômica.

  1. Autonomia de quem e em relação a quem?

A questão também dialoga com aquilo que tenho chamado de autonomia capturada.

A autonomia formal do Banco Central procura protegê-lo das pressões de curto prazo do governo.

Mas a independência institucional em relação ao Poder Executivo não responde a outra pergunta:

independência em relação a quais interesses, convenções intelectuais e estruturas financeiras?

Uma instituição pode ser juridicamente autônoma e, ao mesmo tempo, operar dentro de uma arquitetura cognitiva fortemente condicionada por determinada interpretação da inflação, do risco fiscal, das expectativas e do funcionamento do mercado de trabalho.

A captura não precisa ocorrer por telefone.

Pode ocorrer pela definição do que constitui uma pergunta econômica legítima.

  1. O risco de uma profecia institucional autorrealizável

Existe ainda um problema mais profundo.

Juros elevados reduzem investimento.

Menor investimento limita a expansão da capacidade produtiva.

Menor capacidade produtiva reduz o crescimento potencial.

Menor crescimento potencial faz o hiato do produto fechar mais rapidamente.

E um hiato que fecha rapidamente passa a justificar juros elevados.

A sequência pode tornar-se:

juros altos → investimento menor → capacidade produtiva menor → crescimento potencial menor → economia considerada aquecida mais cedo → juros altos.

Algo semelhante pode ocorrer no mercado de trabalho.

Se a política monetária interrompe sucessivamente os ciclos de expansão antes que trabalhadores informais sejam absorvidos pelo setor formal, a informalidade permanece estrutural.

Depois, justamente porque essa população está classificada como ocupada, sua existência pouco altera a taxa convencional de desemprego utilizada para diagnosticar pleno emprego.

A restrição ajuda, assim, a preservar a estrutura que posteriormente deixa de ser contabilizada como capacidade ociosa.

  1. Não precisamos abolir a NAIRU. Precisamos medi-la melhor

A conclusão não é que a NAIRU seja inútil.

Muito menos que o Brasil possa crescer indefinidamente sem encontrar restrições inflacionárias.

Toda economia possui limites.

A questão é onde estão esses limites.

Um trabalho recente do Banco Central de Reserva do Peru mostrou que incorporar informalidade modifica significativamente a estimativa da NAIRU.

Por que não realizar o mesmo exercício para o Brasil — acrescentando ainda a realidade contemporânea do trabalho por plataformas?

Precisamos comparar pelo menos três medidas:

taxa convencional de desemprego;

taxa ampliada de subutilização do trabalho;

reserva efetiva de trabalho, incorporando a parcela de trabalhadores informais e plataformizados com possibilidade real de transição para empregos formais.

Essa última medida teria de considerar escolaridade, idade, ocupação, rendimento, horas trabalhadas, qualificação, localização e, principalmente, as transições efetivamente observadas entre empregos.

Não basta dizer que existem camelôs.

Precisamos descobrir quantos migram para empregos formais quando estes aparecem.

Não basta contar motoristas de Uber.

Precisamos saber sua escolaridade e sua probabilidade de abandonar a plataforma diante de uma oportunidade formal.

Não basta contar entregadores.

Precisamos saber para quais ocupações eles efetivamente transitam quando a economia cresce.

Só então poderemos perguntar seriamente qual é a taxa de desemprego brasileira compatível com o verdadeiro pleno emprego.

  1. Talvez o pleno emprego esteja mais longe do que parece

O debate brasileiro costuma partir da taxa de desemprego para concluir que estamos próximos do pleno emprego.

Talvez devêssemos inverter a pergunta.

Antes de afirmar que chegamos ao pleno emprego, precisamos demonstrar que esgotamos a reserva de trabalho capaz de migrar para empregos formais e produtivos.

Enquanto milhões de brasileiros sobreviverem em atividades informais, precárias ou plataformizadas, essa demonstração não pode ser substituída simplesmente por uma taxa de desemprego baixa.

Pode ser que, depois de realizarmos todas essas contas, descubramos que o Banco Central está correto e que o mercado de trabalho brasileiro realmente se encontra extremamente apertado.

Mas também podemos descobrir outra coisa.

Podemos descobrir que parte da queda do desemprego não representou o desaparecimento da reserva de trabalho, mas sua transformação em ocupação precária.

Nesse caso, o erro não seria do IBGE.

O entregador está corretamente classificado como ocupado.

O erro estaria em outro lugar: confundir ocupação estatística com plena utilização econômica da força de trabalho.

E essa confusão não seria inocente em suas consequências.

Quando uma NAIRU elevada se combina com diagnóstico insuficiente das causas da inflação, forte dependência das expectativas, horizonte exigente de convergência e um mandato que coloca a estabilidade de preços hierarquicamente à frente do pleno emprego, forma-se uma arquitetura institucional em que diferentes caminhos analíticos acabam conduzindo frequentemente ao mesmo destino:

juros mais altos.

Talvez uma das maiores taxas de juros do mundo não seja apenas resultado das circunstâncias econômicas brasileiras.

Talvez seja também produto da maneira pela qual aprendemos institucionalmente a enxergá-las.

Leitura recomendada

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Efeitos do trabalho por aplicativos no mercado de trabalho. Relatório de Política Monetária, setembro de 2025. Estudo sobre a expansão do trabalho por aplicativos e seus efeitos nos indicadores de ocupação e desemprego.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Inflação de serviços à luz da curva de Phillips: uma atualização. BC Blog, 2026. Apresenta a estimativa atualizada da NAIRU brasileira em 7,2% e sua utilização na interpretação da inflação de serviços.

CARRERA, César; RAZZO, Marko. Seen and Unseen: NAIRU, Informal Labor Market and Talking Points for Monetary Policy. Working Paper 2026-001, Banco Central de Reserva del Perú, 2026. Investiga como a incorporação da informalidade modifica a estimativa da NAIRU e a interpretação das pressões inflacionárias.

MATTOS, Fernando Augusto Mansor de; LIMA, Sergiany da Silva. “Apontamentos para o debate sobre o pleno emprego no Brasil”. Economia e Sociedade, v. 24, n. 2, p. 293–328, 2015. Discute pleno emprego, informalidade, subutilização do trabalho e a tradição latino-americana do PREALC.

OREIRO, José Luis; D’AMATO, Stefan Wilson. “Desemprego disfarçado e precarização do trabalho”. Universidade de Brasília, 18 maio 2026. Retoma a noção de desemprego disfarçado para interpretar a coexistência entre baixas taxas de desemprego aberto e precarização do mercado de trabalho brasileiro.

FEDERAL RESERVE. Summary of Economic Projections, junho de 2026. Apresenta a mediana de 4,2% para a taxa de desemprego de longo prazo nos Estados Unidos, referência útil — embora metodologicamente distinta da NAIRU estimada pelo BCB — para a comparação entre os dois países.

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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