
Três ministros do Supremo olharam ao redor e avisaram seus colegas, cada um com seu jeito de dar recados alarmistas: outros que aqui estão podem entrar na fila das investigações nos próximos dias. Já estão ali Alexandre de Moraes e André Mendonça, mas eles são apenas os primeiros.
As advertências foram feitas na sessão desta terça-feira pelo próprio Moraes, por Gilmar Mendes e por Flávio Dino. Mendes disse, olhando na direção de Luiz Fux: “O relacionamento de Daniel Vorcaro alcançava número expressivo de autoridades e também de parentes de autoridades”.
Logo depois, Moraes também se referiu a Fux, dizendo que ele era citado em mensagens de Vorcaro. Eu não, respondeu Fux. E Flávio Dino olhou de lado quando disse, dirigindo-se a Edson Fachin: “É o momento mais corrupto da história do Judiciário”.
E alertou que, se os pedidos de julgamento fossem julgados em separado, o Supremo teria uma crise por semana. Dino está certo de que outros ministros serão convocados. Por que tantos alertas? Porque Mendes, Dino, Moraes e Cristiano Zanin tentavam puxar Mendonça para o mesmo brete.
E porque, enquanto o plenário decidia se empurrava ou não Moraes para um inquérito, os filhos de Kassio Nunes Marques e Luiz Fux apareciam nas capas dos jornais. Não nas manchetes dos jornalões, mas na parte de baixo das prateleiras dos sites.
O filho de Kassio, Kevin, porque pode ter recebido mesadas de R$ 500 mil do banqueiro. E o filho de Fux, Rodrigo, por troca de mensagens em que chama o mafioso de irmão e informa que ele merece “tapete vermelho”. Ambos são prósperos advogados.
Kassio não ouviu os alertas porque já havia ido embora, depois de se declarar impedido para votar. Tinha a melhor desculpa para saltar fora: é presidente do TSE e deve se preservar, porque os casos em pauta têm implicações políticas e eleitorais.
Uma desculpa que, se valesse para qualquer votação, tornaria inviáveis as deliberações das altas Cortes. Kassio tinha um pretexto que Dias Toffoli não teve para também se apresentar impedido, por questão de foro íntimo. Na verdade, por envolvimento com Vorcaro.
E assim Mendonça e Fux se viravam do jeito que dava em meio ao tiroteio de Dino e Mendes. Mendonça teria, e não se sabe se ainda tem, encontro marcado com um ambiente parecido ao dessa terça-feira. Deveria ser julgado dia 23, também para que seus colegas decidam se deve ser investigado.
Não se sabe se será, depois do adiamento da decisão sobre a abertura de inquérito contra Moraes. Agora, o que haverá com certeza é o clamor público esperado por Cármen Lúcia e Dino. Leia-se alarido da nova extrema direita, dos tios do zap da velha direita, dos jornalões, dos disseminadores do terror americano e de quase todos os que, como diz Mendes, falam em nome de Deus.
Mendonça falava. Num dos momentos em que mais era humilhado por Mendes, suspirou: “Meu Deus do céu”. Parecia o estagiário religioso em meio a veteranos espertos e cruéis. Fux era insuficiente, sem Nunes Marques e Toffoli, para oferecer toda a ajuda que Mendonça precisava.
O que ficou foi a sensação de cansaço demonstrada por Cármen Lúcia, que pediu desculpas ao povo por não ter feito o que acha que deveria para ajudar a conter a crise. A ministra falou de consternação, tristeza e mal-estar cívico. Disse que o poder judiciário existe para tranquilizar o povo e que hoje gera intranquilidade.
Agora, é esperar para medir daqui a alguns dias os estragos do clamor público, que a direita sabe acionar melhor do que as esquerdas, depois do que aconteceu no STF. Com o pedido de vista de Dino, Moraes empaca a fila. Mas até quando?