As emergências oncológicas, complicações graves provocadas pelo câncer ou pelo próprio tratamento da doença, estão se tornando cada vez mais frequentes no Brasil. Entre 2008 e 2024, as internações de urgência relacionadas ao câncer cresceram, em média, 3,5% ao ano no Sistema Único de Saúde (SUS). No mesmo período, os óbitos hospitalares aumentaram 4,1% ao ano.
Os dados fazem parte de um estudo realizado por pesquisadores da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que analisou quase 5 milhões de internações de urgência registradas no SUS ao longo de 16 anos. A pesquisa teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e foi publicada na revista científica Cancer Epidemiology.
Mesmo depois de os pesquisadores ajustarem os resultados para considerar o envelhecimento da população brasileira, o crescimento das internações e das mortes permaneceu significativo. O resultado indica que fatores como diagnóstico tardio, demora para iniciar o tratamento e desigualdades no acesso aos serviços de saúde também podem estar contribuindo para o agravamento do cenário.
O estudo foi coordenado por Lucas Leite Cunha, professor da disciplina de Medicina de Urgência e Medicina Baseada em Evidências da Unifesp e orientador da pós-graduação em Saúde Baseada em Evidências. A pesquisa começou a partir de um projeto de iniciação científica desenvolvido por Guilherme Falcão Machado e também contou com a participação do doutorando Cassiano Pereira de Barros. O trabalho faz parte de uma linha de investigação mais ampla do grupo sobre emergências relacionadas ao câncer.
As emergências oncológicas acontecem quando o câncer deixa de provocar apenas alterações localizadas e passa a desencadear complicações agudas capazes de comprometer órgãos vitais. Entre os quadros estão a compressão da medula espinhal, que pode provocar paralisia; a insuficiência respiratória causada pela disseminação do tumor para os pulmões; a obstrução intestinal; infecções graves associadas à redução da imunidade; e alterações metabólicas, como a hipercalcemia relacionada à malignidade.
Nessa última condição, a concentração excessiva de cálcio no sangue pode provocar alterações neurológicas, arritmias cardíacas e, em casos graves, levar à morte.
Segundo Cunha, esses pacientes chegam aos serviços de emergência em estado crítico e precisam de atendimento imediato. As complicações podem comprometer sistemas respiratório, cardiovascular, renal, neurológico e hematológico, exigindo intervenções de alta complexidade.
A motivação para realizar a pesquisa surgiu da experiência do próprio professor no pronto-socorro do Hospital São Paulo, hospital universitário da Unifesp. Ao acompanhar diariamente pacientes, residentes e estudantes de medicina, Cunha percebeu que uma parcela expressiva dos casos graves envolvia pessoas com câncer.
A percepção levou o pesquisador a investigar se o fenômeno observado no hospital também se repetia em outras partes do país. A análise dos dados nacionais confirmou que as emergências oncológicas representam um problema crescente no sistema público de saúde.
Diagnóstico tardio agrava quadro
Para os pesquisadores, parte desse crescimento está relacionada à trajetória percorrida pelos pacientes até conseguirem diagnóstico e tratamento. O cenário observado nas unidades do SUS não corresponde ao que seria esperado quando o câncer é identificado precocemente.
Em condições ideais, a maioria dos tumores deveria ser diagnosticada em estágios iniciais, quando as possibilidades de tratamento e cura são maiores. No entanto, muitos pacientes chegam ao hospital somente quando a doença já provocou uma complicação grave. Há ainda casos em que o diagnóstico já foi realizado, mas o início do tratamento demora ou a doença apresenta progressão rápida.
Em algumas situações, a emergência é o primeiro contato do paciente com o sistema de saúde em razão do câncer. Em vez de procurar atendimento após identificar um sintoma inicial ou receber um diagnóstico, a pessoa chega ao pronto-socorro já com insuficiência respiratória, obstrução intestinal, compressão da medula ou outra complicação grave.
Quando o câncer é identificado nesse momento, a doença geralmente já está em estágio avançado.
A base de dados utilizada no estudo, porém, não permite determinar quantos pacientes internados por uma emergência oncológica ainda não tinham diagnóstico de câncer. Essa é uma das questões que os pesquisadores pretendem investigar em novas etapas do trabalho, com acompanhamento prospectivo de pacientes atendidos pela rede pública.
Mulheres, população negra e regiões Norte e Nordeste são mais afetadas
Os pesquisadores também encontraram diferenças importantes entre os grupos analisados. O crescimento das internações e dos óbitos foi mais intenso entre mulheres, pessoas pretas e pardas, idosos e moradores das regiões Norte e Nordeste.
Na avaliação da equipe, as diferenças podem estar relacionadas a desigualdades históricas no acesso ao rastreamento, ao diagnóstico precoce, aos tratamentos especializados e aos próprios serviços de emergência.
O envelhecimento da população também foi considerado na análise. Como a idade é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de câncer, os pesquisadores ajustaram os dados de acordo com a faixa etária da população brasileira.
Mesmo após esse procedimento, o aumento das internações e dos óbitos continuou elevado. Para Cunha, isso demonstra que o envelhecimento, sozinho, não explica a tendência observada no país.
Os resultados apontam para a influência de outros fatores, especialmente relacionados ao funcionamento do sistema de saúde e ao tempo necessário para que o paciente consiga percorrer todas as etapas entre a identificação dos primeiros sinais da doença, o diagnóstico e o início do tratamento.
Prevenção pode reduzir impacto sobre o SUS
Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar as estratégias de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce do câncer, além de garantir maior acesso ao tratamento especializado.
A identificação da doença em fases iniciais aumenta as possibilidades de cura e pode evitar que o paciente desenvolva complicações graves que demandem atendimento emergencial.
Além do impacto sobre a saúde e a qualidade de vida dos pacientes, as emergências oncológicas também representam uma demanda significativa para o SUS. Casos graves podem exigir internação em unidades de terapia intensiva, ventilação mecânica, hemodiálise e outros procedimentos de alta complexidade.
Por isso, segundo Cunha, o diagnóstico precoce tende a ser mais vantajoso tanto para o paciente quanto para o sistema público de saúde. Quando o câncer é descoberto apenas após o surgimento de uma emergência, as chances de recuperação podem ser menores e os custos do tratamento, significativamente maiores.
O artigo Trends and burden of oncologic emergencies in Brazil: A nationwide time series analysis (2008–2024) está disponível na revista Cancer Epidemiology.
*Com informações da Agência Brasil.
LEIA TAMBÉM: