
Laura Sabino
Do portal do MST
Entre alimentos, debates e manifestações culturais, a Culinária da Terra mostrou, durante a 6ª Feira Estadual da Reforma Agrária de Minas Gerais, que a luta pela terra também passa pela cozinha. O espaço reuniu sabores, histórias e conhecimentos transmitidos entre gerações, transformando a produção dos assentamentos e acampamentos do MST em comida de verdade.
Cada prato servido carrega um pouco da trajetória das famílias que preparam a terra, plantam, colhem, organizam cooperativas e enfrentam inúmeras dificuldades para fazer o alimento chegar à mesa da população. Carrega também o trabalho de cozinheiras e cozinheiros que preservam receitas, temperos e modos de preparo ligados às culturas camponesa e popular.
Para Aguinaldo Batista, militante do MST no Triângulo Mineiro, a Culinária da Terra é um espaço de cultura, tradição e orgulho. “A gente encontra as pessoas, conversa, explica o nosso trabalho e fortalece relações. Também apresenta o resultado da luta pela terra”, explica.
Por isso, a Culinária da Terra não pode ser reduzida a uma praça de alimentação. Ela faz parte da proposta política e cultural da Feira. Ao aproximar a produção do campo dos saberes da cozinha, o espaço torna visível um percurso que muitas vezes é apagado: antes de chegar ao prato, o alimento passou pelas mãos de quem preparou a terra, plantou, cuidou, colheu, transportou e cozinhou.
Rosângela, militante do MST na Zona da Mata, destaca que esse contato também ajuda a população a conhecer melhor o Movimento. “Já participei de várias feiras estaduais e, para mim, esse espaço é muito importante porque é um lugar onde as pessoas conhecem melhor o Movimento. Tem muita gente curiosa, que pergunta e quer saber sobre o MST e sobre a origem da comida”, relata.
Com pratos preparados por famílias de diferentes regiões de Minas Gerais, a Culinária da Terra também se transformou em um espaço de preservação da memória e das tradições populares. Milho, mandioca, feijão, hortaliças, queijos, doces e outros produtos da agricultura familiar carregam muito mais do que sabor: expressam modos de vida, relações comunitárias e conhecimentos construídos ao longo do tempo.
As receitas revelam características dos territórios, preservam soluções desenvolvidas pelas comunidades e mantêm vivos conhecimentos ameaçados por um sistema alimentar cada vez mais padronizado. Em vez de uma comida sem origem e sem história, a Culinária da Terra oferece pratos que permitem reconhecer quem produziu os ingredientes e quais relações tornaram aquela refeição possível.
É também por meio da comida que muitas pessoas se aproximam da Reforma Agrária pela primeira vez. Quem visita a Feira pode conhecer a produção dos assentamentos não apenas nos debates políticos, mas também pelo cheiro, pelo sabor e pelo cuidado presente em cada prato. Assim, a Reforma Agrária deixa de parecer uma ideia distante e passa a ser vivenciada concretamente.
Resistência ao agronegócio e aos ultraprocessados
A Culinária da Terra também questiona o modelo do agronegócio, sustentado pela concentração fundiária, pelo uso intensivo de agrotóxicos e pela produção de commodities destinadas principalmente ao mercado externo. Enquanto esse modelo transforma a terra e a comida em mercadorias, as famílias do MST demonstram que é possível produzir de outra maneira: com diversidade, cooperação, respeito à natureza e compromisso com a alimentação da população.
Essa disputa também está presente nas cidades. A falta de tempo, a diminuição dos espaços destinados às cozinhas e o avanço dos alimentos ultraprocessados afastam as pessoas da origem do que comem e dos próprios hábitos alimentares. Aos poucos, sabores, receitas e conhecimentos tradicionais são substituídos por produtos padronizados, fabricados para durar nas prateleiras e ampliar os lucros das grandes empresas.
Dega Barbosa, feirante e militante do MST na Região Metropolitana de Belo Horizonte, afirma que a Feira ajuda as pessoas a perceberem que poderiam se alimentar melhor.
“A gente faz comida caseira, que exige tempo, com alimentos produzidos sem veneno. Às vezes, na correria, as pessoas esquecem que comida não serve apenas para encher a barriga, mas também para fornecer os nutrientes de que precisamos”, afirma.
Ao valorizar ingredientes reconhecíveis, temperos cultivados pelas próprias famílias e refeições preparadas por quem conhece a terra e respeita seus ciclos, a Culinária da Terra demonstra que a comida saudável também pode ter identidade, história e sabor.
Esse trabalho evidencia a capacidade de organização das famílias Sem Terra e reforça a importância das políticas públicas destinadas à agricultura familiar e camponesa. A produção de alimentos saudáveis não depende apenas do esforço individual de cada agricultor. Exige acesso à terra, crédito, assistência técnica, infraestrutura, cooperativas e condições adequadas de transporte e comercialização.
Ao promover o encontro direto entre quem produz e quem consome, a Feira também contribui para romper preconceitos construídos contra o MST. Muitas pessoas chegam conhecendo apenas as versões difundidas por aqueles que historicamente atacam o Movimento. No espaço da Feira, encontram-se famílias trabalhando, cozinhas em funcionamento e uma grande diversidade de alimentos produzidos nos territórios da Reforma Agrária.
A Culinária da Terra mostra, na prática, o que nasce quando a terra cumpre sua função social. Onde havia concentração e improdutividade, a Reforma Agrária faz nascer trabalho, renda, cultura, comunidade e alimento.
Mais do que matar a fome, a Culinária da Terra alimenta os vínculos entre o campo e a cidade. Em cada panela estão a memória das comunidades, a força da organização coletiva e a defesa de um sistema alimentar comprometido com a vida. Porque lutar pela terra também é lutar pelo direito de saber de onde vem a comida, quem a produz e quais histórias queremos manter vivas em nossas mesas.