Sakamoto: Fachin age como bedel, mas constrói blindagem para Mendonça

Ministros Edson Fachin e André Mendonça durante sessão da Primeira Turma do STF Imagem: Victor Piemonte/STF

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

A imagem é perfeita para quem acha que as coisas operam em perfeito equilíbrio: o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, assumindo o papel de bedel do colégio para puxar a orelha do ministro André Mendonça. Ao avocar para si a relatoria da petição que trata das mensagens promíscuas de Daniel Vorcaro, hoje o bandido-Master do país, para o ministro Alexandre de Moraes, Fachin pareceu dar um enquadro público em Mendonça.

Mas o que, à primeira vista, parece uma canetada dura para colocar ordem no recreio do STF, onde ministros trocam estocadas enquanto o país assiste preocupado, um freio de arrumação, pode se revelar, na prática, a mais eficiente tábua de salvação dos objetivos do próprio Mendonça.

Ao tirar o sigilo de um relatório que ele mesmo havia pedido sobre o Moraes, enquanto sentou-se gostosamente por sete meses nos indícios contra Dias Toffoli, entre outros ministros, e afastar a cúpula da Polícia Federal, enquanto blindava a apuração sobre os R$ 134 milhões que Flávio Bolsonaro pediu ao banqueiro, o ministro indicado por Jair Bolsonaro acabou usando a toga para interferir no xadrez eleitoral de 2026 e pavimentar o caminho do primogênito do ex-presidente.

Com essa pecha colada à capa de magistrado (e com um julgamento por abuso de autoridade já batendo à sua porta no próprio tribunal para o dia 23 de setembro), atos defendidos por Mendonça teriam menos chances de prosperar. Seriam mais facilmente desqualificados como vingança partidária, chicana bolsonarista ou puro cálculo eleitoral.

André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal
André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal. Foto: Reprodução

É aí que a mão pesada de Fachin opera o milagre da blindagem.

Ao evocar o regimento interno para puxar o caso para a Presidência da Corte e pautar a decisão do plenário ao vivo para esta terça (15), o presidente do Supremo retira o processo da linha de tiro político. É mais difícil carimbar Fachin, visto como um magistrado metódico e avesso ao palanque, como operador eleitoral.

Ao agir como bedel severo, Fachin não salvou o tribunal de um sangramento descontrolado nas mãos de um relator sob suspeita, mas garantiu mais chances às teses defendidas por Mendonça. Se o plenário decidir abrir investigação contra Moraes, a decisão virá sob a chancela institucional da chefia do STF.

Isto não significa que Moraes não deva ser investigado por tudo o que aconteceu, inclusive pelo contrato de R$ 130 milhões de sua esposa com o próprio Vorcaro. Mas há duas questões preocupantes: o uso da corte para corrupção, de um lado, e instrumentalização da corte para manipulação das eleições, do outro — sendo que parece que só a primeira comove muita gente.

Tampouco significa que Fachin tenha lado na disputa eleitoral, não acredito que tenha. O que estou fazendo aqui é analisar a consequência do ato.

E contra o carimbo do presidente da Casa, fica muito mais difícil gritar que há uma interferência eleitoral com a ajuda de atores do Poder Judiciário, apesar de ela estar em curso.

Artigo Anterior

Conexão Empresarial de setembro

Próximo Artigo

Perícia recusa mais de 15 aparelhos ligados à produtora de “Dark Horse” por falhas em lacres

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!