Em marcha, 3 mil Sem Terra ocupam as ruas da capital mineira por soberania e democracia

(Foto: MST)

Por Comunicação do MST em Minas Gerais

Na manhã desta sexta-feira (11), cerca de 3 mil trabalhadores e trabalhadoras Sem Terra, vindos de diferentes regiões de Minas Gerais, ocuparam as ruas de Belo Horizonte. Em marcha, o Movimento pautou a defesa da soberania, da democracia e dos direitos do povo do campo e da cidade.

A concentração para o ato ocorreu na Praça da Assembleia e a mobilização percorreu diferentes pontos da capital mineira com faixas, bandeiras e palavras de ordem. A Marcha caminhou até a sede da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), onde o Movimento cobra a instalação de energia elétrica em assentamentos de todo o estado.

Isso porque, de acordo com dados levantados pelo MST, há milhares de pedidos de ligação de energia represados na Cemig. A pauta se estende ainda à não adesão de Minas Gerais ao programa federal Luz para Todos, interrompido, há anos, pela gestão de Romeu Zema (Novo).

A marcha que ocupa Belo Horizonte também integra uma mobilização política mais ampla do MST em defesa da soberania e da democracia. A presença de milhares de trabalhadores de diferentes territórios de Minas Gerais em Belo Horizonte reafirma a força da organização popular como instrumento de transformação social e de disputa pelos rumos do estado e do país.

Para Silvio Netto, da coordenação do MST, “a nossa marcha não se inicia aqui. Ela vem de cada acampamento, de cada assentamento, de cada território onde o povo se organiza e luta por seus direitos. Estamos nas ruas porque soberania e democracia não são palavras abstratas: elas precisam existir na vida concreta do povo.”

A mobilização também resgata a memória de lutas históricas do MST em Minas Gerais, entre elas o Massacre de Felisburgo, ocorrido em 20 de novembro de 2004, no Vale do Jequitinhonha. Na ocasião, cinco trabalhadores rurais Sem Terra – Miguel Jorge dos Santos, Iraguiar Ferreira da Silva, Francisco Nascimento Rocha, Juvenal Jorge da Silva e Joaquim José dos Santos – foram assassinados durante um ataque ao acampamento Terra Prometida, em Felisburgo. Mesmo diante da violência, as famílias reconstruíram o acampamento e mantiveram a organização, a produção e a luta pela terra.

Mais de duas décadas depois, em janeiro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o Decreto nº 12.829, declarando de interesse social, para fins de Reforma Agrária, a área da antiga Fazenda Nova Alegria. Em abril, mais de 60 famílias do acampamento Terra Prometida participaram de um ato político-cultural em Felisburgo para celebrar a conquista.

(Foto: MST)

Para o Movimento, a efetivação da Reforma Agrária no território representa também uma resposta histórica às famílias que resistiram à violência e permaneceram organizadas. Luana Oliveira, da coordenação nacional do MST, salienta que “a nossa história mostra que a luta do povo organizado é capaz de transformar aquilo que parecia impossível. A memória dos nossos mártires segue presente e nos dá força para continuar.”

MST cobra respostas da Cemig e do governo estadual

Ao chegar à Cemig, o MST foi recebido por Luciano Cavalcante, diretor de inovação e sustentabilidade da empresa, e apresentou suas reivindicações e cobrou uma resposta da mesma e do governo de Minas Gerais.

A relação entre o MST e a Cemig é marcada por mobilizações anteriores. Em 2014, durante as manifestações realizadas em agências da companhia, a empresa afirmou que somente dialogaria após a desocupação dos espaços.

A principal reivindicação do MST é o atendimento de centenas de famílias que aguardam a ligação de energia e a efetiva implementação do programa federal Luz para Todos em Minas Gerais. Segundo levantamento do Movimento, mais de 4 mil pedidos de ligação estão represados na Cemig, sendo 762 de famílias assentadas.

O Movimento afirma que a falta de energia compromete a qualidade de vida, a produção de alimentos e a permanência das famílias no campo. Também denuncia obstáculos do governo Romeu Zema (Novo) à implementação do programa no estado e cobra transparência na execução das ações.

A retomada do Luz para Todos em Minas Gerais foi anunciada em novembro de 2024, com previsão inicial de atendimento a 192 famílias de comunidades rurais e quilombolas, 440 famílias em assentamentos do Incra e mais de 2 mil famílias ribeirinhas e vazanteiras. Cerca de 4 mil demandas apresentadas em audiência pública na Assembleia Legislativa também deveriam ser cadastradas e certificadas. Para o MST, os números contrastam com a afirmação da Cemig de que o estado possui 100% de universalização do serviço.

Memória, soberania e direitos

A marcha atual também recupera a memória de uma das grandes mobilizações nacionais do MST em Belo Horizonte. Em uma ação histórica, uma das 22 marchas que chegaram simultaneamente a 22 capitais brasileiras passou pela cidade. Na ocasião, o então prefeito Patrus Ananias (PT) recebeu os manifestantes na Avenida Afonso Pena e entregou simbolicamente as chaves da cidade ao MST.

Para o Movimento, essa história expressa uma relação construída ao longo de décadas entre a organização popular e a luta por políticas públicas voltadas à maioria da população.

A mobilização desta sexta-feira também retoma outras lutas do MST em Minas Gerais, como a resistência de 27 anos no Quilombo Campo Grande, em Campo do Meio, reconhecido como assentamento em 2025. E a luta por reparação diante dos crimes provocados pela mineração em Mariana e Brumadinho. São experiências que, segundo Kelly Gomes, da coordenação do MST, conectam a luta pela terra à defesa dos territórios, da soberania alimentar, dos recursos naturais e dos direitos sociais.

(Foto: MST)

“Defender a soberania é defender o direito do povo de decidir sobre seu território, sua produção, sua energia e seu futuro. É por isso que a luta pela Reforma Agrária, pela democracia e contra a exploração predatória dos territórios caminham juntas”, afirmou.

Para o Movimento, a marcha demonstra que a defesa da democracia e da soberania passa pela garantia de direitos básicos e pela capacidade do povo organizado de ocupar as ruas para cobrar políticas públicas.

Ao marcharem pelas ruas de Belo Horizonte, os Sem Terra reafirmam que a luta pela Reforma Agrária Popular está diretamente ligada à defesa da dignidade, da soberania alimentar, da justiça social e da democracia. “Enquanto houver uma família sem energia, sem terra, sem moradia ou sem condições de produzir, haverá luta. A democracia se fortalece quando o povo participa, se organiza e ocupa as ruas para defender seus direitos”, afirmou Luana.

(Foto: MST)

Editado por: Vítor Peruch

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