
A Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão contra editoras, empresários e entidades ligadas ao deputado federal Mário Frias (PL-SP) e à produtora do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A Operação Make Up investiga suspeitas de desvios de recursos de emendas parlamentares destinados a projetos executados pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB).
O ICB é presidido por Karina Ferreira da Gama, também responsável pela Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”. A investigação apura contratos da entidade com órgãos públicos e a posterior subcontratação de empresas, em procedimentos que a PF descreveu como suspeitos ou fraudulentos.
Em 2025, o instituto recebeu R$ 2 milhões de duas emendas indicadas por Frias para projetos de educação digital e esportes de combate em Pirassununga, no interior paulista. Os investigadores apontam que os valores circularam por empresas investigadas em um “circuito fechado”, com fragmentação de repasses que dificultaria a rastreabilidade do dinheiro.
Entre os alvos estão o empresário Dayvid Moreira Medeiros e suas empresas, HD Cultural e Dinâmica Editora, sediadas em Rio Claro (SP). Dos 49 mandados cumpridos, sete ocorreram em Fortaleza e Aquiraz, no Ceará, em endereços relacionados a editoras e sócios, vários deles familiares de Dayvid.
PF apura licitações suspeitas em projeto de R$ 1 milhão

Um dos focos da apuração é o projeto Jovem Empreendedor, que recebeu R$ 1 milhão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, por emenda de Frias. O plano previa materiais educativos para 2.250 alunos de escolas públicas e capacitação de 250 multiplicadores, mas a PF afirma que a iniciativa não teve execução completa.
O ICB contratou a Dinâmica Editora por R$ 400 mil para fornecer 2.500 kits com três livros didáticos. Para a PF, a seleção ocorreu em uma licitação simulada: as empresas apresentadas como concorrentes — Dinâmica, HD Cultural, Cometa Livraria e NTT Editora — teriam vínculos entre si. “São fortes, portanto, os indícios de que houve montagem na pesquisa de preço”, escreveu a corporação em documento levado ao processo.
Embora uma nota fiscal tenha sido emitida em fevereiro de 2025, os livros só chegaram em junho de 2026, depois de cobrança do ministério. O prazo do projeto havia terminado em janeiro de 2026 e o público previsto não recebeu o material, conforme a investigação. Em outra contratação, de R$ 300 mil para um kit digital, o Instituto Super Poder Educacional entregou dez videoaulas que somavam sete visualizações.
A PF também examinou uma transferência de R$ 750 mil da NTT Brasil, administrada por Heric Fabiano Dias, para a Go Up Entertainment no período das filmagens de “Dark Horse”. Heric foi sócio de Dayvid e é irmão de Pamella Cristiane Dias, dona do Instituto Super Poder Educacional; os investigadores ressaltaram que os elementos disponíveis não permitem afirmar que o repasse à produtora tenha saído diretamente dos recursos recebidos pelo ICB.
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), proibiu HD Cultural, Dinâmica Editora, Cometa Livraria, Mecla Soluções Educacionais, Instituto Super Poder Educacional e NTT Brasil de participar de licitações com o poder público. A PF destacou ainda movimentações da Cometa Livraria, que recebeu e transferiu mais de R$ 28 milhões entre maio de 2025 e abril de 2026, e 11 saques em espécie que totalizaram R$ 549 mil em março de 2026.