
O Super El Niño em curso no Oceano Pacífico pode atingir entre novembro e dezembro um pico sem precedentes nas medições históricas, com anomalia superior a 4°C na temperatura da superfície do mar. A projeção dos modelos do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas colocaria o episódio acima de todos os eventos observados em cerca de 170 anos.
O índice ONI, usado para acompanhar o aquecimento das águas do Pacífico tropical, já classificava o fenômeno como Super El Niño em julho, quando a anomalia alcançou 2°C. No boletim semanal mais recente da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos, a marca estava em 2,7°C.
O avanço ocorreu mais cedo do que nos grandes episódios recentes. Em 2015-2016, a anomalia semanal chegou a 3°C apenas em novembro; em 1982-1983, o patamar de Super El Niño só apareceu em dezembro.
No início de setembro, as anomalias eram de 1,6°C em 2023, 1,7°C em 2015, 2,1°C em 1997 e 0,6°C em 1982. Os níveis de 2026 superam essas referências e alimentam a expectativa de um aquecimento ainda maior nos últimos meses do ano.

ONU prevê permanência do fenômeno até fevereiro de 2027
A Organização Meteorológica Mundial, agência climática da ONU, estima uma probabilidade próxima de 100% de que o atual El Niño persista até fevereiro de 2027. A entidade também prevê que seus efeitos sobre o clima se prolonguem ao longo do próximo ano.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que “o El Niño está se tornando gigantesco diante de nossos olhos”. Em comunicado, ele afirmou que “a ciência não deixa margem para dúvidas: o planeta se encontra em águas desconhecidas, e essas águas estão esquentando”.
O El Niño surge quando os ventos que empurram águas quentes para oeste no Pacífico enfraquecem ou mudam de direção, elevando a temperatura da superfície no centro e no leste do oceano tropical. O fenômeno costuma ocorrer a cada dois a sete anos e pode durar até 12 meses.
Em um planeta aquecido pela queima de combustíveis fósseis, o evento tende a intensificar extremos climáticos. No Brasil, pode provocar secas prolongadas no Nordeste e tempestades e enchentes no Sul; no Panamá e em El Salvador, a seca já levou governos a decretar emergência, enquanto o baixo nível de água reduziu o tráfego de navios pelo Canal do Panamá.