
Da Página do MST
Quando se fala em participação política, muita gente pensa logo em eleição, partido, vereador, deputada ou presidente. Mas nós, mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entendemos que a política começa muito antes da urna. Ela está na reunião do acampamento, na assembleia, na ocupação, na organização da produção, na escola, na cozinha coletiva e na luta por saúde, moradia, água e transporte, por exemplo.
Participar da política é também tomar a palavra, ajudar a decidir os caminhos da comunidade e não aceitar que outras pessoas decidam tudo no lugar das mulheres, é ser sujeito da nossa própria história. Por isso que a participação das mulheres Sem Terra não pode ser vista como algo secundário, ou paralelo. Somos parte da história do Movimento e da luta pela terra desde a sua origem. E fomos, ao longo dos anos, fazendo lutas, inclusive por dentro do Movimento, para que pudéssemos ser ouvidas e para ocupar os espaços de decisão.
A concentração da terra e a pobreza atingem as famílias camponesas, mas não atingem homens e mulheres exatamente da mesma maneira. Muitas mulheres trabalham na roça, cuidam da casa, acompanham os filhos, participam das atividades do Movimento e ainda têm seu trabalho pouco reconhecido.
Durante muito tempo, algumas tarefas foram vistas como “coisa de mulher”, como cuidar da alimentação, da saúde e da educação. Já os espaços de negociação, direção e representação pública ficaram mais associados aos homens. Essa sobrecarga de trabalho e responsabilidades sobre as mulheres dificulta a participação em reuniões, cursos, mobilizações, principalmente quando essas exigem deslocamento, e dias fora de casa e passa o mesmo em relação a assumir tarefas nos espaços de coordenação e direção da organização.
Por isso, as mulheres Sem Terra passaram a organizar espaços próprios para discutir sua realidade e fortalecer sua participação. O Setor de Gênero do MST foi construído no início dos anos 2000 e oficializado em 2003. A criação desse setor mostrou que não bastava lutar contra a concentração da terra: também era preciso enfrentar a desigualdade entre homens e mulheres dentro das famílias, das comunidades e do próprio Movimento.
A organização das mulheres ajudou a questionar ideias antigas. Uma delas é a de que o homem deve falar pela família ou ser sempre o responsável pela terra. Outra é a de que o trabalho doméstico e o cuidado não são trabalho. Ao colocar essas questões em debate, buscamos politizar homens e mulheres, e construir a autonomia das companheiras, ajudando a construir relações mais igualitárias para todos.
E o que as eleições têm a ver com a luta das mulheres Sem Terra?
Para além da participação política dentro do MST, sabemos que outros espaços manifestam essa participação, ao mesmo tempo. A luta política institucional é um exemplo disso. A eleição é uma ferramenta importante para o avanço e fortalecimento da democracia representativa, ainda que não seja a única forma de fazer política. Uma comunidade organizada pode pressionar a prefeitura, cobrar serviços, denunciar violências, defender a escola do campo e lutar por políticas para a agricultura familiar.
Por sua vez, votar e participar das eleições tem sentido quando isso está ligado a um projeto de sociedade. Não se trata apenas de escolher qualquer candidato. Trata-se de perguntar: essa candidatura defende a Reforma Agrária? Apoia a agricultura familiar e a agroecologia? Defende a educação do campo, a saúde pública, a moradia e a proteção da natureza? Combate o racismo, o machismo e a violência contra as mulheres? Luta por um Brasil justo e soberano, para e com o povo brasileiro?
As mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros, mas ainda são minoria nos espaços de poder. Ao longo dos anos, importantes medidas e campanhas vêm sendo adotadas para fortalecer o papel e a participação das mulheres nessa disputa. Essas medidas são importantes, mas não resolvem tudo. Muitas mulheres continuam enfrentando falta de dinheiro para fazer campanha, dificuldade para conciliar a política com o trabalho e o cuidado da família, preconceito, ameaças e violência política.
Candidatar-se é uma forma de ocupar espaços que durante muito tempo foram negados às mulheres. Quando uma mulher Sem Terra disputa uma eleição, leva consigo a experiência das lutas, das reuniões e da organização coletiva. Ela pode transformar em propostas aquilo que as comunidades vivem e reivindicam todos os dias. Temos exemplos bonitos de Mulheres Sem Terra que se tornaram vereadoras em seus municípios, deputadas estaduais e esperamos em breve também ter deputadas federais assentadas e acampadas nos representando no parlamento brasileiro.
Ao mesmo tempo, sabemos e reafirmamos que a eleição não poderá nunca substituir a organização popular. Um mandato pode ajudar a abrir portas e aprovar políticas, mas a força principal continua sendo a mobilização das pessoas. Sem pressão da sociedade organizada, a maioria das promessas não saem do papel. Por isso, a participação eleitoral deve caminhar junto com a luta nos territórios.
A experiência histórica do MST mostra que democracia não é apenas votar de quatro em quatro anos. Democracia se faz no dia a dia, participando das decisões que afetam nossas vidas, a vida das nossas famílias e da nossa comunidade. É ter terra, trabalho, escola, atendimento de saúde, segurança e condições para falar e ser respeitada. É também poder discordar, organizar-se e cobrar quem nos representa.
Quando uma mulher participa de uma assembleia, assume uma coordenação, ajuda a organizar uma cooperativa ou fala em uma manifestação, ela está fazendo política. Quando reivindica que o trabalho de cuidado seja dividido, que a terra também esteja em seu nome ou que sua comunidade tenha acesso a políticas públicas, ela está enfrentando uma estrutura que muitas vezes tenta mantê-la em silêncio.
Para as mulheres do MST, participar da política é muito mais do que votar ou ocupar um cargo. É organizar a comunidade, lutar pela terra, produzir alimentos saudáveis, defender a natureza, formar crianças e jovens, enfrentar o machismo e construir decisões coletivas. É transformar a vida de hoje enquanto se luta por uma sociedade diferente.
E em tempo, é importante lembrar que não existe uma única experiência de ser mulher. Mulheres negras, jovens, indígenas, quilombolas, lésbicas, mulheres com deficiência e mulheres de diferentes regiões e biomas, e suas especificidades. A luta das mulheres precisa reconhecer essas diferenças e garantir espaço para que todas possam participar.
Assim, dizemos: não basta que falem sobre as mulheres; é preciso que elas estejam presentes, decidindo e conduzindo os rumos da luta. A Reforma Agrária popular só será completa se vier acompanhada da igualdade entre homens e mulheres. E a democracia só será verdadeira quando as mulheres do campo puderem participar plenamente, com voz, autonomia e poder de decisão. Sem medo de ser feliz…
*Editado por Fernanda Alcântara