O que está sob o tapete [Diálogos com o cinema]
por Daniel Gorte-Dalmoro
À primeira vista, O Convite, de Olivia Wilde, é uma comédia sobre relacionamentos – tanto relacionamento monogâmico quanto relacionamento aberto -, e todas as dificuldades que a convivência entre duas pessoas traz, independentemente do formato estabelecido. Se desentendimentos e brigas são mais comuns no casal monogâmico da história, Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen), as desavenças aparecem também no casal heterodoxo, convidado para o jantar e conhecer o apartamento, Piña (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton).
Entretanto, remake de um filme espanhol (Sentimental, 2020, de Cesc Gay), o filme traz também uma camada de fracasso da promessa capitalista neoliberal, o fracasso de uma classe média tradicional, branca, cis-hetero. Essa chave é dada pela profissão de cada um dos personagens e sua relação com o trabalho.
Piña é sexóloga, aparentemente gosta do que faz, mas não consegue instituir uma separação entre momento de trabalho e momento da vida, atuando em certo momento, durante o encontro, como terapeuta do casal anfitrião.
Hawk se tornou massagista, porém antes era bombeiro e abandonou a profissão quando notou que a utilizava como uma válvula de escape inconsequente, pondo não somente a si como a outras pessoas em risco, após a morte da esposa.
Angela fez graduação em artes, mas se dedica às atividades do lar, sem conseguir a contento fazer o que se espera de sua ocupação – o suflê que dá errado, a cozinha suja, o marido que não ajuda com os calçados. Presa à rotina, Angela tenta a partir da própria casa “criar” algo novo – o tapete da sala, que seja. Contudo, como o casamento, como sua própria vida, uma reforma maior do apartamento está estagnada, travada na sua incapacidade de decidir uma cor para as paredes – e na recusa do marido em ajudar em tal escolha. Mais: o próprio marido desdenha dessas suas tentativas e questiona o que ela faz (“de útil”, poderíamos completar) durante o dia.
Já Joe vive a frustração e o ressentimento de sua banda ter tido um efêmero sucesso, em 2008, e nada mais, sendo agora professor de música num pequeno conservatório; ademais, sua “conquista”, o apartamento onde moram, não é fruto do seu trabalho, mas herança dos pais – ele que sequer tem carro, volta de bicicleta por pressão da esposa.
Essas dinâmicas externas acabam por interferir, é claro, na dinâmica de cada casal.
No caso de Piña e Hawk, por um bom momento, o filme sustenta a imagem de um casal amoroso, erótico (com suas festas sexuais e suas fantasias abertamente trazidas sem preconceito) e sem fraturas, já que estão sempre abertos ao diálogo. Isso até a discussão entre ambos, quando ela, que é espanhola, estoura ao ser corrigida no seu inglês (mostrando feridas na sua integração como migrante) e o acusa de acelerar o momento do convite aos vizinhos de baixo para uma das suas festas. Nesse momento, fica evidenciada uma pressa de Hawk nesses eventos, de onde é possível perceber neles algo de fuga, uma tentativa de tamponar uma ausência, deslocada dos riscos que assumia quando bombeiro; enquanto Piña cede ao companheiro e depois se ressente – afinal, é ela a pessoa experiente nesse tipo de ocasião, não somente por sua profissão, mas por tê-la apresentado a Hawk.
Entre Angela e Joe, o diagnóstico é mais evidente: como esperar momentos leves, uma libido acesa, se o dia a dia é baço, sem perspectivas, sem sonhos, feito de remoer os planos de juventude que fracassaram? Mais que manter o casamento por causa da filha, como eles atestam, antes é a filha quem mantém nos pais algum interesse pela vida sem jogar tudo pelos ares – não por acaso Angela lamenta que ela irá para a faculdade e sairá de casa… daqui seis anos.
Contudo, cabem as perguntas: que abismo é esse que se vislumbra e se teme quando se evita assumir as coisas como estão (o casamento falido, nesse caso) e encarar o que se pode fazer a partir disso? O quanto das nossas apostas fracassadas (a graduação em artes, a banda que quase fez sucesso) não servem como álibi para não alterar esse estado de coisas, deixando a responsabilidade no passado e evitando um comprometimento presente com o desejo e o devir?
Daniel Gorte-Dalmoro é psicanalista, filósofo, sociólogo e escritor. Autor, dentre outros, de “Linha de produção/Linha de descartes” (Editora Urutau)
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