Professor Nelson Campos analisa a polarização eleitoral, recupera a formação dos partidos brasileiros e alerta para o uso do ódio e da desinformação como instrumentos políticos
A polarização que marca as eleições brasileiras não surgiu agora, mas ganhou novas características com o crescimento da extrema direita e a transformação das redes sociais em um espaço permanente de disputa política. A avaliação é do professor Nelson Campos, mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará, que participou do programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular.
Durante a entrevista, Campos relacionou os conflitos eleitorais atuais à formação política do Brasil, marcada durante séculos pela restrição do direito ao voto, pela concentração do poder econômico e pela exclusão de parcelas expressivas da população. Para ele, compreender esse percurso ajuda a explicar por que a democracia brasileira permanece submetida a pressões autoritárias.
No período monárquico, lembrou o professor, as eleições eram indiretas e o direito ao voto dependia da renda. Mulheres, pessoas escravizadas, trabalhadores pobres e grande parte da população estavam afastados das decisões políticas. Mesmo depois da Proclamação da República, em 1889, o sistema eleitoral permaneceu limitado.
As mulheres conquistaram o direito ao voto com o Código Eleitoral de 1932, posteriormente incorporado à Constituição de 1934. Já o voto das pessoas analfabetas foi reconhecido em 1985 e assegurado pela Constituição de 1988.
Na Primeira República, os partidos mais influentes eram estaduais e estavam ligados às oligarquias regionais. Entre eles apareciam o Partido Republicano Paulista, o Partido Republicano Mineiro e o Partido Republicano Rio-grandense. Segundo Campos, a composição dessas organizações refletia um país no qual o poder político estava concentrado nas mãos dos grupos economicamente dominantes.
Partidos extintos durante períodos autoritários
O professor também percorreu os diferentes momentos em que governos autoritários limitaram ou eliminaram a organização partidária. Após a Revolução de 1930, Getúlio Vargas assumiu o governo, dissolveu o Congresso e restringiu o funcionamento das instituições políticas existentes.
Na década de 1930, surgiram organizações nacionais como a Ação Integralista Brasileira, liderada por Plínio Salgado e inspirada no fascismo europeu, e a Aliança Nacional Libertadora, uma frente que reunia comunistas, socialistas e outros setores contrários ao integralismo.
Com o golpe do Estado Novo, em 1937, os partidos foram novamente extintos. O pluripartidarismo retornou em 1945, depois da deposição de Vargas. Dois anos mais tarde, o Tribunal Superior Eleitoral cancelou o registro do Partido Comunista Brasileiro, fundado em 1922.
A ditadura instalada após o golpe de 1964 voltou a intervir diretamente no sistema partidário. O Ato Institucional nº 2, editado em 1965, extinguiu os partidos existentes e abriu caminho para o bipartidarismo. A Aliança Renovadora Nacional, a Arena, sustentava o regime. O Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, reunia a oposição consentida.
Com a abertura política, novas siglas foram criadas. Leonel Brizola fundou o Partido Democrático Trabalhista depois de perder a disputa pelo controle do Partido Trabalhista Brasileiro. Em 1980, sindicalistas, militantes de movimentos sociais, intelectuais e lideranças religiosas participaram da fundação do Partido dos Trabalhadores.
Campos destacou que o próprio nome do PT explicita a classe social que o partido buscava representar.
“Eles odeiam essa palavra: trabalhadores. Tudo aquilo que favorece a classe trabalhadora, eles são contra.”
Na avaliação do entrevistado, a perseguição enfrentada pelo trabalhismo em diferentes períodos mostra como a disputa partidária brasileira também envolve interesses econômicos e conflitos entre classes sociais.
Polarização ganhou dimensão mais agressiva
Nelson Campos afirmou que divergências políticas sempre existiram, mas considera que a ascensão de Jair Bolsonaro ampliou a circulação de discursos agressivos, racistas, misóginos e autoritários.
“Essa situação já existia há muito tempo. Apenas com a ascensão do Bolsonaro ao poder, isso se tornou um projeto político para banalizar a política e dominar o país dessa forma.”
Para o professor, a polarização atual não pode ser reduzida à existência de dois candidatos ou de dois grupos eleitorais. Ela envolve projetos distintos sobre direitos trabalhistas, políticas de inclusão, educação pública, ações afirmativas e funcionamento das instituições democráticas.
De um lado, segundo ele, estão setores que defendem políticas sociais e a participação do Estado na redução das desigualdades. Do outro, aparecem candidaturas e grupos que propõem enfraquecer a Consolidação das Leis do Trabalho, reduzir direitos sociais e rever políticas de cotas.
O professor também criticou a substituição do debate sobre propostas por provocações destinadas a produzir vídeos curtos e mobilizar seguidores nas redes sociais. Segundo Campos, alguns candidatos usam os debates apenas para atacar adversários, abandonando o espaço antes de ouvir as respostas.
Nesse ambiente, acrescentou, o adversário deixa de ser tratado como alguém que apresenta outro projeto político e passa a ser descrito como uma ameaça que precisa ser eliminada. A criação permanente de inimigos, associada à propagação do medo, aproxima parte da extrema direita de métodos usados historicamente por movimentos fascistas.
Desinformação dificulta o debate público
Outro ponto abordado na entrevista foi a disseminação de informações falsas. Campos afirmou que redes organizadas conseguem distribuir conteúdos manipulados para públicos específicos, favorecendo determinadas candidaturas e dificultando qualquer discussão baseada em fatos verificáveis.
“Você pode propagar uma mentira sem que seja você o mentiroso. Basta ser iludido, ser enganado.”
O professor explicou que existe uma diferença entre desconhecer um acontecimento e negar deliberadamente um fato conhecido. Como exemplo, citou as tentativas de apagar a existência da ditadura militar brasileira e de retirar dos livros didáticos referências às prisões, à tortura, aos assassinatos e aos desaparecimentos ocorridos entre 1964 e 1985.
Campos relatou que foi preso durante a ditadura quando estava em sala de aula. Segundo ele, não havia mandado judicial e, durante o período em que permaneceu detido, ficou incomunicável.
“Eu estava dando aula e, ainda assim, fui levado preso. Fui acusado de ser subversivo. Eu me manifestava claramente contra o governo ditatorial.”
A experiência pessoal foi usada pelo professor para contestar discursos que negam o caráter autoritário do regime. Para Campos, a preservação da memória não depende de interpretações partidárias, mas do reconhecimento de acontecimentos documentados.
“Se eu digo que não houve ditadura no Brasil, ou isso é ignorância ou é má-fé.”
Educação e capacidade crítica
Ao comentar propostas de intervenção nos currículos escolares e nas universidades federais, Nelson Campos defendeu a educação como espaço de desenvolvimento da autonomia intelectual. Segundo ele, o trabalho do professor não consiste em fornecer respostas prontas nem adaptar o ensino à superficialidade das redes sociais.
“O trabalho do professor é esclarecer, mostrar a realidade e desenvolver a capacidade crítica de seus alunos.”
Campos também criticou a infantilização das campanhas eleitorais. Em sua avaliação, o uso de dancinhas e provocações pode fazer parte da comunicação política, mas se torna um problema quando substitui a apresentação de propostas e a discussão sobre os problemas enfrentados pela população.
Para o entrevistado, a educação política exige a análise dos acontecimentos, a comparação entre governos e o conhecimento das posições defendidas por cada candidatura.
Desigualdade também aparece na representação política
A concentração de renda e a composição do Congresso Nacional foram outros assuntos tratados durante o programa. Campos observou que a maioria da população brasileira é formada por trabalhadores, enquanto parte significativa dos parlamentares pertence às faixas de renda mais altas.
Essa diferença, segundo ele, influencia votações sobre tributação, direitos trabalhistas e políticas de redistribuição de renda. O professor questionou por que eleitores que dependem de serviços públicos e garantias previstas na legislação trabalhista apoiam candidatos que propõem reduzir essas proteções.
A entrevista também abordou a estrutura tributária brasileira, na qual famílias de baixa renda destinam proporcionalmente uma parcela maior de seus rendimentos ao pagamento de impostos sobre o consumo. Já contribuintes de renda elevada contam com maior participação de rendimentos patrimoniais e financeiros, submetidos a regras diferentes.
Campos relacionou essa desigualdade a um processo histórico iniciado ainda no período colonial. Para ele, a Independência de 1822 não alterou imediatamente a estrutura agrária, escravista e concentradora existente no país.
“A independência do Brasil não foi para gerar uma mudança. Foi para impedir que acontecesse uma mudança.”
O professor explicou que a elite agrária apoiou a permanência de Dom Pedro no Brasil por temer a recolonização pretendida pelas Cortes portuguesas. Depois da separação de Portugal, porém, permaneceram a concentração fundiária, a escravidão e a dependência econômica em relação ao mercado externo.
Eleição e ameaça autoritária
Ao falar sobre a disputa presidencial, Campos afirmou que a quantidade de candidaturas pode levar a eleição ao segundo turno. Para ele, o ponto principal não é apenas saber em qual etapa a disputa será decidida, mas avaliar o compromisso dos concorrentes com as regras democráticas.
“É um risco muito grande para a nossa democracia colocar um sujeito que é claramente golpista.”
O professor defendeu que propostas, trajetórias e declarações públicas sejam examinadas antes do voto. Também alertou para o risco de normalizar candidaturas que relativizam a ditadura, atacam as instituições ou tratam adversários políticos como inimigos internos.
Na avaliação de Campos, a polarização não será enfrentada com o abandono das divergências. O caminho passa pela recuperação do debate baseado em fatos, pela apresentação de propostas e pela formação de eleitores capazes de identificar manipulações.
Para ele, defender a democracia exige mais do que comparecer às urnas. Exige conhecer os conflitos que atravessam a formação política do Brasil e compreender quem será beneficiado pelas medidas apresentadas durante a campanha.
Referências citadas
Karl Marx e Friedrich Engels: pensadores alemães mencionados pelo entrevistado ao explicar a origem teórica do comunismo e a interpretação da sociedade a partir das relações de trabalho e das classes sociais.
Jessé Souza: sociólogo brasileiro citado por seus estudos sobre desigualdade, formação social e adesão de trabalhadores a projetos políticos contrários aos próprios interesses econômicos.
Benito Mussolini: dirigente fascista italiano mencionado no contexto da formação da Ação Integralista Brasileira e da expansão dos regimes totalitários europeus no século XX.
Adolf Hitler: ditador nazista citado durante a análise sobre o uso político do ódio, a criação de inimigos e a perseguição de grupos sociais.
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