
O livro “Repressão Sociedade Anônima – Como banqueiros, fabricantes de veículos e metalúrgicas agiram para reprimir trabalhadores na ditadura militar” reúne documentos e depoimentos sobre a presença de chefes militares em empresas, bancos e indústrias durante o regime iniciado em 1964. A obra, dos jornalistas Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, também descreve formas de colaboração empresarial com o aparato repressivo.
Em pré-venda pela Alameda Casa Editorial, o livro apresenta uma lista inédita do Serviço Nacional de Informações (SNI) com nomes de militares que atuavam em setores de segurança de empresas do ABC Paulista e da capital paulista, incluindo bancos. A pesquisa cobre o período entre 1964 e 1985 e recorre a arquivos nacionais e internacionais, entrevistas e reportagens.
Os autores relatam que havia uma unidade do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em São Bernardo do Campo, nas proximidades do Sindicato dos Metalúrgicos. Conhecido como Dopinho do ABC, o local teria sido usado para prender e torturar trabalhadores.

A publicação também apresenta um orçamento para um “Plano de Mobilização Anti-Insurrecional” ligado à criação da Operação Bandeirante (Oban). Atualizado, o valor indicado supera R$ 83 milhões.
Montadoras e bancos aparecem em documentos sobre a repressão
“Repressão Sociedade Anônima” detalha documentos sobre Ford, GM, Volkswagen, Scania e Mercedes-Benz e sua relação com o pagamento de ações de repressão e militares. O livro ainda aborda o Clube Paulista, grupo que reunia empresários e banqueiros para arrecadar recursos destinados à estrutura repressiva.
Entre os episódios narrados está o de um bilhete que a segurança da Scania teria encontrado no armário de um operário. O caso levou à abertura de inquérito policial e administrativo contra o trabalhador, segundo a obra.
Os relatos reunidos pelos jornalistas incluem vigilância sobre empregados, envio de dados pessoais de trabalhadores aos órgãos de repressão e episódios de prisão e violência dentro dos locais de trabalho. A investigação também trata das condições de produção nas multinacionais instaladas no ABC, marcadas por baixos salários, acidentes, mutilações e mortes de operários.
O advogado de direitos humanos Luiz Eduardo Greenhalgh, responsável pelo prefácio, afirma que o livro é “um verdadeiro torpedo na engrenagem da ditadura militar e suas ramificações nas maiores montadoras de veículos do ABC paulista”. Para ele, “esse conúbio entre empresários e repressão fica escancarado a não mais poder, e sem cerimônia”.