A ex-primeira-dama e candidata ao Senado pelo PL, Michelle Bolsonaro, fez um movimento político estratégico de carga simbólica em meio à crise que divide o Supremo Tribunal Federal (STF). Ela publicou uma mensagem nas redes sociais, em tom de apoio e intimidade com o ministro André Mendonça, relator das investigações contra Daniel Vorcaro e o Banco Master, e direcionando-se ao eleitorado evangélico o apresentou como “escolhido e ungido do Senhor”, um “verdadeiro homem de Deus”.
O gesto ocorre justamente quando Mendonça se tornou um dos personagens centrais da crise no STF, após retirar o sigilo de relatório da Polícia Federal com mensagens entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Em plena campanha eleitoral, a mensagem de Michelle associa publicamente Mendonça à frente religiosa do bolsonarismo.
Na publicação, Michelle debruça detalhes de sua participação na trajetória de Mendonça até o Supremo. Afirma que ela e seus “intercessores” oraram por sua indicação, relata ter recebido em uma “salinha de consagração” uma visão sobre sua chegada ao tribunal e diz ter testemunhado o cumprimento de uma “Palavra” divina quando ele foi nomeado. “Saiba que você é um ESCOLHIDO e UNGIDO DO SENHOR!”, escreveu.
Mendonça chegou ao STF indicado por Jair Bolsonaro, em 2021, depois de ter ocupado o cargo de advogado-geral da União e de ministro da Justiça de Bolsonaro. Pastor presbiteriano, ele mantém forte identificação com segmentos evangélicos conservadores.
Agora, em meio à crise da Corte, a identidade religiosa volta a ocupar o centro da comunicação pública do ministro e da campanha eleitoral dos Bolsonaro.
Na sexta-feira (04), o próprio Mendonça agradeceu às orações e manifestações de apoio recebidas de fiéis da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo, onde atua como pastor auxiliar. “Minhas palavras se dirigem a vocês essencialmente para agradecer tantas mensagens de oração e de carinho”, afirmou, dizendo que as preces têm sido fundamentais para sustentar ele e sua família.
A dicotomia Moraes-Lula x Mendonça-Bolsonaro
De um simples apoio emocional direto, a mensagem de Michelle Bolsonaro objetiva efeitos de prospecção maiores na comunicação política, ao associar a imagem de Mendonça aos Bolsonaro, em paralelo à crise de imagem de Alexandre de Moraes no mesmo caso Banco Master mas, do outro lado, associado a Lula.
As mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular do banqueiro Vorcaro e tornadas públicas por Mendonça colocaram Moraes sob forte pressão política. O episódio passou a produzir efeitos sobre a imagem do governo Lula, especialmente porque setores da oposição associam o presidente ao ministro do STF (entenda mais aqui).
Ao transformar Mendonça em “ungido do Senhor” e recuperar sua participação pessoal na indicação do ministro ao STF, ela oferece ao eleitorado bolsonarista a narrativa de Moraes, o ministro que supostamente cometeu algum crime nas investigações de Vorcaro, como símbolo do campo associado a Lula; versus Mendonça, o ministro que estaria fazendo justiça, como pessoa de fé, de valores cristãos e integrante da própria trajetória política da família Bolsonaro.
Michelle sai fortalecida da crise com Flávio
O movimento também ocorre depois de Michelle ter atravessado uma crise pública com o enteado Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência.
Após semanas de confronto, Flávio pediu desculpas publicamente à ex-primeira-dama em julho. A reconciliação foi articulada pela cúpula do PL, diante da avaliação de que o conflito poderia prejudicar a campanha presidencial. Michelle aceitou o pedido e afirmou que os dois deveriam “reunir um grande exército de pessoas de bem” para reconstruir o país.
Em avaliações internas da cúpula do PL, o atrito com Flávio não tirou o espaço político de Michelle Bolsonaro. Junto aos eleitores, ela ainda teria preservado o seu capital político.