
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Após ser aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, a proposta que acaba com a escala 6×1 de trabalho foi colocada na gaveta pelo presidente Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) até o final das eleições. Acatou a defesa do senador Flávio Bolsonaro e aliados de que a votação da matéria agora iria desequilibrar o pleito. Contudo, é exatamente o contrário.
De acordo com a última pesquisa disponível, a do Instituto Locomotiva, divulgada na semana que passou, 78% dos brasileiros são a favor do fim da escala 6×1, com a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas e sem redução de salário, conforme prevê a proposta. Desses, 61% se consideram de direita, ou seja, a pauta está acima de ideologias — o que é raro por aqui.
O senador poderia, desde o começo, ter abraçado a proposta, tornando-a um ponto de união nacional. Preferiu a posição de parte dos empresários. E, agora, para defender a escolha que Flávio fez, a presidência do Senado ignora o desejo de quase 80% da população.
🇧🇷 URGENTE: Davi Alcolumbre, presidente do Senado, anuncia que votação da PEC do Fim da Escala 6×1 será após as eleições. pic.twitter.com/OSp1fM2Eew
— Eixo Político (@eixopolitico) September 3, 2026
A manobra de Alcolumbre põe em risco a aprovação da proposta de emenda à Constituição, uma vez que o fato de que dois terços do Senado estão em disputa nesta eleição é o maior incentivo para que parlamentares apoiem a proposta. O mesmo processo ocorreu na Câmara, onde 472 dos 513 deputados deram aval à mudança, apoiada mesmo entre aqueles que a criticaram por meses.
Após a eleição, a pressão dos trabalhadores sobre os senadores desaba e volta a reinar a influência do cascalho grosso.
Os que são contra o fim da escala perfazem 9%, enquanto outros 13% dizem não ser a favor nem contra. Entre as mulheres, o apoio é de 83%. E, na geração Z (com jovens até 29 anos), 86%.
Adiar a votação, portanto, não é proteger o processo eleitoral de uma pauta oportunista. É proteger uma escolha política do julgamento das urnas. Se o Congresso representa a população, poucas matérias chegam ao plenário com tamanho respaldo social.
Ao engavetar a proposta justamente quando os senadores estão mais expostos à cobrança popular, Alcolumbre não retira a influência da escala 6×1 da eleição. Faz o contrário: transforma sua manutenção em decisão eleitoral.
E deixa ainda mais nítido quem, diante de uma escolha entre o desejo de oito em cada dez brasileiros e a pressão de grupos econômicos, manda de verdade no Brasil.