Da Redação
A promessa de retaliação iraniana não demorou a se materializar. Depois do bombardeio norte-americano contra a ilha de Larak, no Estreito de Hormuz, a Guarda Revolucionária lançou uma operação combinada de mísseis e drones contra instalações militares utilizadas pelos Estados Unidos na Jordânia. Amã confirmou a interceptação de oito mísseis que entraram em seu espaço aéreo, enquanto Teerã afirma ter atingido infraestrutura militar. O confronto também alcançou Hormuz, onde o Irã diz ter abatido um drone MQ-9 Reaper norte-americano e onde um superpetroleiro teria sido atingido por minas. O petróleo reagiu imediatamente: Brent e WTI subiram mais de 2%.
A escalada que se desenhava desde o ataque dos Estados Unidos contra a ilha iraniana de Larak transformou-se, em poucas horas, numa nova troca direta de golpes entre Washington e Teerã. A Guarda Revolucionária cumpriu a ameaça feita logo depois do bombardeio norte-americano e lançou mísseis e drones contra instalações militares na Jordânia utilizadas por forças dos Estados Unidos, reabrindo de maneira inequívoca a fase militar de um conflito que havia atravessado aproximadamente um mês sem ataques diretos norte-americanos dentro do território iraniano.
A operação iraniana recebeu o nome de “Punição do Agressor”. Segundo a Guarda Revolucionária, os alvos incluíram as bases King Hussein e Al-Azraq. Teerã afirma ter provocado danos significativos em instalações técnicas, estruturas de manutenção, hangares e posições utilizadas por aeronaves de combate. Essa avaliação iraniana ainda não possui confirmação independente. Uma fonte norte-americana citada pela Fox News apresentou uma versão muito diferente, afirmando que não haviam sido registrados impactos significativos.
Há, entretanto, uma confirmação importante por parte da própria Jordânia: suas forças armadas informaram que oito mísseis foram interceptados depois de entrarem no espaço aéreo jordaniano. Isso confirma que a resposta iraniana deixou rapidamente de ser uma ameaça retórica e passou ao terreno militar.
O encadeamento dos acontecimentos é fundamental para compreender a gravidade do momento. Os Estados Unidos atacaram Larak alegando que integrantes da Guarda Revolucionária preparavam dois lançadores capazes de disparar foguetes carregando minas marítimas em direção ao Estreito de Hormuz. O CENTCOM descreveu a operação como “limitada” e “precisa” e afirmou ter agido diante de uma ameaça iminente à navegação. Até agora, entretanto, não apresentou publicamente imagens que comprovem a alegação específica de que uma operação de minagem estava prestes a ser realizada. O ataque norte-americano deixou militares e civis iranianos mortos ou feridos, segundo Teerã.
A Guarda Revolucionária respondeu anunciando que os responsáveis receberiam “punição” e que novos ataques contra o país provocariam respostas ainda mais severas. Pouco depois, começaram os lançamentos.
O que ontem ainda podia ser descrito como risco de retaliação, portanto, já mudou de natureza. A retaliação aconteceu.
E a partir desse ponto o problema deixa de ser apenas saber como o Irã responderia. A questão passa a ser outra: o que os Estados Unidos farão depois da resposta iraniana e se Washington e Teerã conseguirão interromper novamente o ciclo antes que uma nova rodada de ataques produza baixas suficientes para tornar politicamente muito mais difícil qualquer contenção.
Hormuz volta ao centro da guerra
O ponto mais perigoso continua sendo o Estreito de Hormuz.
Larak está localizada justamente numa das áreas mais sensíveis dessa passagem marítima, e a decisão norte-americana de atacar lançadores iranianos ali atingiu diretamente a disputa sobre quem conseguirá impor as condições de navegação no estreito.
Nas horas seguintes, a Guarda Revolucionária afirmou ter abatido um MQ-9 Reaper norte-americano sobre Hormuz. Segundo a versão iraniana, o aparelho foi atingido pela defesa aérea e caiu nas águas do Golfo Pérsico. Até a atualização consultada, os Estados Unidos ainda não haviam confirmado a perda desse drone específico. Portanto, o abate deve permanecer atribuído à versão iraniana enquanto não houver confirmação independente ou norte-americana.
Se confirmado, porém, não seria um episódio economicamente irrelevante. Um MQ-9 equipado com seus sistemas de sensores e armamentos pode custar dezenas de milhões de dólares. A própria reportagem lembra que o Washington Post havia informado anteriormente que os militares norte-americanos perderam pelo menos 45 MQ-9 durante a guerra com o Irã, embora nem todos necessariamente abatidos pelo inimigo.
Mais grave para a economia internacional é o que aconteceu com a navegação comercial.
A Guarda Revolucionária afirma que um superpetroleiro que tentou atravessar Hormuz por uma rota meridional designada pelos Estados Unidos foi atingido por duas minas navais e pegou fogo. Segundo Teerã, navios deveriam utilizar a passagem supervisionada pelo Irã em vez da rota defendida por Washington.
Essa afirmação também exige verificação independente antes que se possa estabelecer definitivamente a responsabilidade pelo incidente. Mas a mensagem estratégica transmitida pelo Irã é evidente: Washington pode possuir uma superioridade militar incomparavelmente maior, porém Teerã continua tentando demonstrar que os Estados Unidos não conseguem garantir unilateralmente a normalização do tráfego em Hormuz.
É aí que a guerra deixa de ser apenas militar.
Hormuz é uma artéria da economia mundial. Uma parcela enorme das exportações de petróleo e gás do Golfo depende dessa passagem estreita entre o Irã e a Península Arábica. Qualquer percepção de que petroleiros podem encontrar minas, drones ou mísseis altera imediatamente o cálculo das companhias marítimas, das seguradoras, dos importadores e dos mercados financeiros.
A reação já apareceu nos preços.
Depois da nova troca de ataques, os futuros do petróleo WTI avançaram 2,47%, para US$ 85,46 por barril, enquanto o Brent subiu 2,71%, para US$ 90,49 nas negociações asiáticas.
O mercado não está precificando apenas os danos produzidos nas últimas horas. Está precificando o risco do que poderá acontecer nas próximas.
A guerra alcança novamente os países árabes
A decisão iraniana de atacar instalações utilizadas pelos Estados Unidos na Jordânia mostra novamente um dos principais problemas estratégicos da presença militar norte-americana no Oriente Médio.
Washington espalhou suas forças por uma extensa rede regional. Essa arquitetura permite aos Estados Unidos projetar poder muito além de seu território, operar aeronaves, instalar sistemas de defesa, manter inteligência e sustentar operações militares. Mas, numa guerra direta com o Irã, essa mesma rede oferece a Teerã um conjunto muito maior de possíveis alvos.
O resultado é que países árabes que não necessariamente desejam participar diretamente da guerra acabam submetidos aos riscos produzidos pelo confronto.
A Jordânia teve de empregar suas próprias defesas para interceptar os oito mísseis que entraram em seu espaço aéreo. Nos Emirados Árabes Unidos, a Força Aérea informou ter reagido a um drone que se aproximava do país sobre suas águas territoriais. Ao mesmo tempo, o Ministério da Defesa emiradense precisou desmentir informações de que a base de Al Minhad, que hospeda forças norte-americanas, teria sido atingida por mísseis.
Essa correção é importante. Circularam durante a madrugada relatos sobre ataques contra diferentes instalações norte-americanas no Golfo, mas nem todos foram confirmados. O ataque contra Al Minhad foi expressamente negado pelos Emirados Árabes Unidos.
A própria reação política de Abu Dhabi demonstra o nível de preocupação. Anwar Gargash, assessor presidencial dos Emirados, pediu desescalada e afirmou que a situação de “nem guerra nem paz” não pode continuar indefinidamente. Defendeu uma solução política sustentável e a normalização da navegação pelo Estreito de Hormuz.
É precisamente esse o risco de uma escalada prolongada: ela transforma Estados que funcionam como plataformas da presença militar norte-americana em espaços potencialmente atingidos pela resposta iraniana.
Pezeshkian: Irã não quer guerra, mas responderá
O presidente iraniano Masoud Pezeshkian fez sua primeira manifestação pública depois do ataque norte-americano deixando duas mensagens simultâneas.
A primeira foi que o Irã “não está procurando guerra”.
A segunda foi que o país não permanecerá passivo diante de ataques.
Pezeshkian declarou que Teerã dará uma resposta decisiva aos agressores e advertiu que a instabilidade regional acabará desafiando todos os países. A declaração foi feita antes de sua viagem a Bishkek, no Quirguistão, para participar de uma cúpula da Organização para Cooperação de Xangai.
A posição é politicamente calculada. O governo iraniano procura apresentar sua ação militar como resposta a um ataque anterior, e não como início de uma nova rodada de hostilidades. Washington faz raciocínio semelhante no sentido inverso: descreve o ataque a Larak como operação preventiva contra uma ameaça iminente.
Esse é justamente um dos mecanismos mais perigosos das guerras de escalada.
Cada lado apresenta sua ação como resposta defensiva à ação anterior do adversário.
Washington afirma que atacou porque o Irã preparava minas.
Teerã afirma que lançou mísseis porque Washington bombardeou território iraniano.
Se os Estados Unidos atacarem novamente, poderão afirmar que estão respondendo aos mísseis iranianos.
E o Irã poderá responder novamente dizendo que reage ao novo ataque norte-americano.
É assim que a cadeia se torna progressivamente mais difícil de interromper.
Até militares norte-americanos alertam para o risco
Um dos elementos mais importantes desta nova fase está surgindo dentro do próprio aparato militar dos Estados Unidos.
Segundo relato do Washington Post reproduzido pela RT, altos comandantes militares teriam advertido o secretário de Guerra Pete Hegseth contra a continuação de operações de grande escala contra o Irã. Chefes do Exército, Marinha e Força Aérea, além de comandantes responsáveis por contingentes norte-americanos em diferentes regiões do mundo, estariam preocupados com a dispersão excessiva das forças dos Estados Unidos.
A reportagem afirma que cerca de 50 mil militares norte-americanos estão em estado de alerta diante da possibilidade de Trump ordenar novas operações no Oriente Médio.
Se confirmado integralmente, esse debate interno expõe um aspecto estratégico frequentemente ignorado quando se observa apenas o enorme orçamento militar norte-americano: poder global exige dispersão global.
Os Estados Unidos precisam simultaneamente manter forças e capacidade de dissuasão na Europa, Indo-Pacífico, Oriente Médio e outras regiões. Uma guerra prolongada contra um Estado com as dimensões territoriais, demográficas e militares do Irã consome munições, sistemas antimísseis, horas de voo, inteligência, logística e disponibilidade naval em escala muito maior do que operações limitadas contra atores não estatais.
É por isso que a possibilidade de uma nova grande campanha não envolve apenas a pergunta sobre quanto dano os Estados Unidos conseguem causar ao Irã. Envolve também quanto tempo Washington consegue sustentar essa intensidade sem comprometer outras prioridades estratégicas.
O ex-assessor presidencial de contraterrorismo Joe Kent, que recentemente deixou o governo Trump, fez uma advertência ainda mais direta depois do ataque a Larak. Ele afirmou que, se a retaliação iraniana conseguir matar militares norte-americanos, os Estados Unidos poderão ser novamente puxados para uma escalada nos termos de Teerã. Kent defendeu a retirada das tropas norte-americanas da região e uma concentração em pressão econômica e diplomacia.
A declaração ganha relevância porque vem de alguém que participou do próprio governo e que, poucos dias antes, havia alertado que uma escalada extrema poderia deixar Washington diante de alternativas muito mais perigosas, inclusive uma invasão terrestre ou, em sua avaliação, o uso de armas nucleares.
O risco agora é a próxima resposta de Washington
A situação entrou numa fase mais delicada do que aquela existente imediatamente depois do ataque a Larak.
Naquele momento, havia uma certeza: o Irã prometia retaliar.
Agora essa etapa já foi ultrapassada.
A Guarda Revolucionária lançou mísseis e drones contra instalações utilizadas pelos Estados Unidos. A Jordânia confirmou interceptações. Teerã afirma ter provocado danos militares, enquanto uma fonte norte-americana sustenta que não houve impactos significativos. O Irã diz ainda ter abatido um MQ-9 e afirma que um superpetroleiro foi atingido por minas em Hormuz. Os mercados reagiram elevando o preço do petróleo.
A variável decisiva passa a ser Donald Trump.
Se Washington considerar que a retaliação iraniana foi suficientemente contida e não provocou baixas relevantes, existe espaço para interromper o ciclo.
Se, entretanto, surgirem mortes de militares norte-americanos ou danos relevantes a instalações dos Estados Unidos, a pressão por uma nova resposta poderá aumentar dramaticamente.
E qualquer nova resposta volta a colocar Teerã diante da mesma escolha.
O problema estratégico é que os dois lados possuem razões internas e externas para demonstrar que não foram intimidados.
Trump não deseja parecer vulnerável depois de ordenar um ataque.
A liderança iraniana não pode aceitar que território do país seja bombardeado sem resposta, sobretudo depois de ter prometido publicamente “punição”.
É exatamente essa combinação que transforma incidentes militares relativamente delimitados em guerras maiores.
O que aconteceu desde o ataque a Larak demonstra que a capacidade iraniana de retaliar permanece viva. Também demonstra os limites de imaginar que a enorme superioridade militar dos Estados Unidos permita controlar todas as consequências depois que as bombas são lançadas.
Washington conseguiu destruir os alvos que escolheu em Larak.
Mas não conseguiu decidir sozinho o que aconteceria depois.
Teerã respondeu.
A Jordânia precisou interceptar mísseis.
Os Emirados colocaram suas forças em ação diante de um drone.
Hormuz voltou a registrar incidentes perigosos.
O petróleo ultrapassou novamente a marca dos US$ 90 no Brent.
E dezenas de milhares de militares norte-americanos permanecem espalhados pela região enquanto Washington calcula se responderá à resposta.
Essa é a realidade mais importante desta manhã: o ataque dos Estados Unidos não encerrou uma ameaça — reabriu um ciclo de confrontação direta cuja próxima etapa já não depende exclusivamente de Washington.
A retaliação iraniana que ontem era uma promessa agora é fato. A pergunta que definirá as próximas horas é se Donald Trump aceitará interromper a sequência ou ordenará outro ataque, empurrando Estados Unidos, Irã e todo o Golfo para uma rodada ainda mais perigosa da guerra.