Venezuela: protegido de Trump, empresário acusado de lavar dinheiro vira chefão do petróleo

Alejandro Betancourt López. Imagem: reprodução

O governo de Donald Trump fechou um acordo incomum para assumir uma posição central na exploração das gigantescas reservas de petróleo da Venezuela — e decidiu fazê-lo em parceria com um empresário suspeito.

Pelo acordo anunciado por Trump na sexta-feira (28), o governo americano trabalhará com Alejandro Betancourt López, empresário de 46 anos cuja família controla a North American Blue Energy Partners (NABEP), apontada como a segunda maior produtora privada de petróleo da Venezuela.

O governo dos Estados Unidos deverá financiar o desenvolvimento de uma parcela significativa das reservas comprovadas de petróleo venezuelanas por meio do Office of Strategic Capital, órgão ligado ao Pentágono. A NABEP, por sua vez, ficaria responsável pela operação dos campos.

O projeto abrange 17 campos de petróleo espalhados pela Venezuela.

A presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, apoiou o acordo e afirmou que ele terá um “impacto significativo na recuperação da nossa nação”. Segundo ela, a iniciativa poderá gerar mais de US$ 200 bilhões em receitas tributárias para o governo venezuelano.

Trump apresentou o acordo como uma forma de dar aos Estados Unidos “controle majoritário” sobre uma parcela expressiva das reservas venezuelanas. Os detalhes, porém, ainda permaneciam pouco claros no sábado e podem sofrer alterações à medida que o projeto avance.

EUA querem reduzir influência do Oriente Médio sobre o petróleo

O acordo representa a incursão mais direta de Trump na indústria petrolífera venezuelana desde que forças especiais americanas capturaram Nicolás Maduro, em janeiro, e Washington passou a trabalhar diretamente com Delcy Rodríguez, que assumiu o comando do governo.

Para Trump, a estratégia faz parte de uma tentativa de redesenhar o mercado mundial de energia e ampliar a segurança energética dos Estados Unidos.

Trump acredita que a entrada de petróleo venezuelano no mercado internacional poderá reduzir o poder de mercado dos países do Oriente Médio e contribuir para estabilizar os preços da energia.

O movimento ocorre em meio à forte alta do petróleo provocada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã desde fevereiro.

Mas o impacto não será imediato. A recuperação da indústria venezuelana e a expansão significativa da produção deverão levar anos. Portanto, o acordo dificilmente terá efeitos relevantes, no curto prazo, sobre os preços internacionais do petróleo ou sobre o valor pago pelos consumidores americanos nos postos de gasolina.

A Chevron, segunda maior petroleira dos Estados Unidos, também está em negociações avançadas para ampliar sua produção na Venezuela, apurou o New York Times. A operação aumentaria ainda mais a presença americana no setor energético venezuelano.

Chevron, segunda maior petroleira dos Estados Unidos. Imagem: reprodução

Washington ficará com 55% da produção

A Venezuela possui algumas das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, mas sua indústria foi devastada por décadas de má gestão, corrupção e pelas sanções impostas pelos Estados Unidos.

O país atualmente produz pouco mais de 1 milhão de barris por dia, cerca de 1% da produção mundial — praticamente a mesma participação registrada durante o governo Maduro.

Em linhas gerais, o acordo permitirá aos Estados Unidos obter acesso preferencial ao petróleo venezuelano a baixo custo, um dos principais objetivos de Washington ao tentar ampliar sua influência sobre a produção energética nas Américas.

A NABEP, sediada em Barbados, segundo seu próprio site, produz atualmente cerca de 200 mil barris por dia. A empresa pretende contrair até US$ 5 bilhões em dívidas para elevar a produção para 1 milhão de barris diários nos próximos cinco anos.

Além do acesso ao petróleo, o acordo prevê uma estrutura financeira que poderá colocar o governo americano diretamente no capital da empresa.

Os Estados Unidos terão o direito de adquirir ações da NABEP ou de uma empresa relacionada por meio de um instrumento financeiro que permite comprar ações futuramente por um preço previamente estabelecido.

Na prática, o governo americano poderá se beneficiar da valorização da empresa caso a operação petrolífera seja bem-sucedida.

Quem é Alejandro Betancourt

Betancourt ganhou notoriedade na Venezuela durante a década de 2010, quando o governo venezuelano concedeu a ele e seus parceiros contratos para construir diversas usinas de energia, apesar da falta de experiência anterior do grupo nesse setor.

Os negócios renderam aos empresários o apelido de “bolichicos”, uma referência aos jovens empresários que enriqueceram durante a Revolução Bolivariana de Hugo Chávez.

Mais tarde, Betancourt adquiriu participação na Petrozamora, empresa que operava campos de petróleo maduros no Lago de Maracaibo, no oeste da Venezuela.

Esses campos se tornaram a base da NABEP, que posteriormente incorporou novas áreas e conseguiu aumentar significativamente sua produção desde 2024.

A ascensão de Betancourt, porém, veio acompanhada de controvérsias.

Suas contas bancárias pessoais são investigadas há mais de uma década por promotores em Zurique, na Suíça.

A relação entre Betancourt e Washington teria se aprofundado desde a queda de Maduro.

O governo Trump passou a recorrer ao empresário para ajudar a estruturar negócios e parcerias comerciais na Venezuela.

Os EUA já haviam começado a analisar o histórico de Betancourt no ano passado, enquanto procurava empresários que pudessem ajudar a promover os interesses dos Estados Unidos após a remoção de Maduro.

Integrantes do governo, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, teriam avaliado positivamente a capacidade de Betancourt de aumentar a produção de petróleo — algo considerado raro em meio ao colapso da indústria venezuelana, dominada pela estatal PDVSA.

Esse desempenho operacional levou integrantes da administração Trump a relativizar as acusações de corrupção que cercam o empresário há anos.

Mais do que isso: funcionários do Departamento de Estado teriam pressionado neste ano o governo suíço para reduzir a intensidade das investigações contra Betancourt.

Washington também pediu ao governo britânico que suspendesse restrições de viagem impostas ao empresário.

O Departamento de Estado ainda concedeu a Betancourt um visto americano de múltiplas entradas, permitindo que ele viajasse aos Estados Unidos para se reunir com integrantes da administração Trump.

O Washington Post já havia publicado anteriormente detalhes sobre os esforços do governo americano para ajudar o empresário.

A NABEP afirmou ao New York Times que espera trabalhar com o governo americano para reconstruir a indústria energética venezuelana, mas declarou que seria “prematuro comentar exatamente qual será o papel da empresa”.

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