São Paulo precisa acelerar a adaptação de sua infraestrutura aos eventos climáticos extremos, combinando obras de drenagem, sistemas de alerta, arborização e soluções baseadas na natureza. A avaliação foi apresentada durante um painel sobre mudanças climáticas na Convenção Secovi, que reuniu representantes do poder público, especialistas em sustentabilidade, setor imobiliário e um representante de Copenhague, na Dinamarca.
O debate mostrou que a adaptação climática já deixou de ser uma preocupação exclusivamente ambiental e passou a envolver também planejamento urbano, saúde pública, investimentos e valorização dos imóveis.
Chuvas intensas desafiam infraestrutura
O gerente do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE), Hassan Barakat, afirmou que as chuvas intensas estão entre os principais riscos enfrentados atualmente pela capital paulista. Segundo ele, São Paulo possui características que aumentam a vulnerabilidade aos temporais, especialmente a elevada impermeabilização do solo.
De acordo com os dados apresentados durante a palestra, cerca de 70% da cidade é impermeabilizada. Com menos áreas capazes de absorver a água, volumes elevados de chuva em períodos curtos podem provocar alagamentos, transbordamentos de rios e córregos, deslizamentos e quedas de árvores.
O CGE monitora as condições meteorológicas durante todo o ano e utiliza radares para acompanhar a formação e o deslocamento das áreas de instabilidade. As informações são usadas para emissão de alertas à população e para orientar a atuação das equipes de emergência.
Barakat também chamou atenção para a influência de fenômenos climáticos de grande escala, como o El Niño, que pode favorecer temperaturas mais elevadas e episódios de chuva mais concentrados durante o verão.
Prefeitura prevê obras para os próximos 16 anos
O secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, Marcos Monteiro, apresentou as ações da Prefeitura para ampliar a capacidade de drenagem da capital. Segundo ele, o município vem utilizando estudos por bacias hidrográficas para identificar os pontos mais vulneráveis e definir as intervenções prioritárias.
A administração pretende elaborar 58 cadernos de drenagem para mapear as diferentes bacias da cidade. Os estudos consideram não apenas as condições atuais, mas também o avanço da impermeabilização e os impactos projetados de eventos climáticos extremos.
O planejamento inclui 174 obras previstas para os próximos 16 anos, com custo estimado em cerca de R$ 16 bilhões. Desde 2021, segundo os dados apresentados no evento, foram investidos R$ 10,4 bilhões em obras de drenagem.
Entre as intervenções realizadas estão obras de canalização, construção de reservatórios e outras medidas para aumentar a capacidade de escoamento e reduzir áreas sujeitas a alagamentos.
A estratégia municipal também prevê priorizar regiões de maior vulnerabilidade social e locais onde as intervenções possam beneficiar um número maior de pessoas.
Copenhague combina parques e drenagem
A experiência de Copenhague foi apresentada como exemplo de como as cidades podem utilizar a própria infraestrutura urbana para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.
O diretor de projetos do Centro de Adaptação Climática de Copenhague, Ian Rasmussen, explicou que a capital dinamarquesa começou a estruturar uma política específica de adaptação em 2009. O processo ganhou força após uma chuva excepcional em 2011, quando mais de 150 milímetros de precipitação caíram em apenas duas horas e provocaram prejuízos superiores a US$ 1 bilhão.
A resposta adotada pela cidade combinou obras tradicionais de drenagem com intervenções na superfície. Praças e parques passaram a ser projetados também para receber temporariamente a água das chuvas.
Mais de 250 projetos foram identificados com esse objetivo. A estratégia permite que espaços urbanos tenham diferentes funções: durante períodos secos, funcionam como áreas de convivência e lazer; durante tempestades, ajudam a armazenar e controlar o excesso de água.
Para Rasmussen, a adaptação precisa fazer parte do planejamento urbano de forma permanente, e não ser tratada como um projeto isolado. A cooperação entre municípios e a troca de experiências também são consideradas fundamentais.
São Paulo e Copenhague mantêm uma parceria institucional voltada a temas como adaptação climática, natureza urbana, resíduos e eficiência energética.
Arborização pode ajudar a reduzir calor e alagamentos
Outro ponto central do debate foi a necessidade de ampliar a arborização de São Paulo. O botânico Ricardo Cardim defendeu que as árvores sejam tratadas como infraestrutura climática e não apenas como elementos paisagísticos.
Segundo ele, a concentração de concreto e asfalto, combinada à falta de áreas permeáveis e de arborização adequada, contribui para a formação de ilhas de calor. Nesse cenário, a cidade pode registrar temperaturas mais elevadas e ficar mais vulnerável aos efeitos de eventos extremos.
Cardim defendeu o plantio de árvores nativas de grande porte, capazes de produzir mais sombra e contribuir para o ciclo da água. De acordo com o especialista, uma árvore adulta de grande porte pode liberar cerca de 400 litros de água na atmosfera e também ajudar a retardar o escoamento da chuva.
Ele apresentou projetos de recuperação ambiental realizados em diferentes pontos da capital, incluindo áreas de empreendimentos imobiliários. Um dos exemplos utiliza mais de 400 ipês-roxos nativos plantados em sequência para formar uma cobertura contínua de sombra.
Outro projeto citado foi uma floresta de bolso implantada no Brás, em uma região marcada por indústrias e áreas impermeabilizadas. Para Cardim, experiências desse tipo mostram que é possível recuperar parte dos ecossistemas mesmo em regiões densamente urbanizadas.
Mercado imobiliário começa a incorporar risco climático
A adaptação às mudanças climáticas também passou a ser vista como uma questão financeira para o setor imobiliário. A diretora de sustentabilidade do Secovi-SP, Patrícia Bittencourt, afirmou que fatores climáticos precisam ser considerados desde a escolha do terreno até a operação dos empreendimentos.
Entre os aspectos que devem entrar no planejamento estão permeabilidade do solo, eficiência energética, ventilação, isolamento térmico, escolha de materiais e infraestrutura para mobilidade elétrica.
Segundo ela, o setor também precisa ampliar a produção de conhecimento e a cooperação entre empresas, poder público e especialistas para antecipar riscos e desenvolver soluções aplicáveis aos diferentes tipos de empreendimento.
O setor imobiliário já participa de iniciativas relacionadas à redução das emissões de gases de efeito estufa, eficiência energética, gestão de resíduos e adoção de soluções baseadas na natureza.
Imóveis mais eficientes podem ganhar valor
O especialista em estratégia ESG e sustentabilidade do Itaú Unibanco, Lucas Vasconcelos, destacou que a adaptação climática também pode afetar diretamente o valor dos imóveis.
De acordo com ele, propriedades mais eficientes tendem a apresentar custos operacionais menores, o que pode contribuir para sua valorização e para a geração de receita. No sentido contrário, imóveis incapazes de responder às novas condições climáticas podem perder atratividade e até se transformar em ativos difíceis de comercializar.
Como exemplo, Vasconcelos citou edifícios antigos de Londres que enfrentam dificuldades para se adaptar às ondas de calor e, em alguns casos, não conseguem instalar sistemas de ar-condicionado por restrições locais ou limitações estruturais.
O Itaú também apresentou programas de financiamento voltados a empreendimentos que adotam medidas de sustentabilidade. Entre as iniciativas estão o Plano Empresário Verde e uma certificação própria, chamada BBA ESG Partner, que reúne opções de medidas para reduzir impactos ambientais e melhorar a eficiência dos imóveis.
Alertas e prevenção ganham importância
Na parte final do encontro, os participantes discutiram a percepção de que eventos climáticos severos estão mais frequentes e de que a população estaria mais exposta a situações de risco.
Barakat afirmou que parte do aumento dos registros pode estar relacionada à maior facilidade de comunicação. Com celulares, redes sociais e outros canais digitais, os moradores conseguem informar ocorrências com mais rapidez.
Ao mesmo tempo, segundo ele, houve redução dos pontos fixos de alagamento na cidade. O número, que já chegou a cerca de 600, estaria atualmente na faixa de 420 a 430 pontos.
O especialista recomendou que a população acompanhe as previsões meteorológicas antes de sair de casa. Segundo os dados apresentados durante a palestra, os modelos de previsão utilizados no país alcançam índices de acerto de aproximadamente 95% a 96%.
Para Ricardo Cardim, porém, a cidade precisa avançar ainda mais na prevenção. Ele defendeu a criação de uma estrutura municipal específica para a arborização urbana, com recursos e equipamentos suficientes para ampliar o plantio e garantir a manutenção das árvores.
O consenso entre os participantes foi de que São Paulo terá de combinar grandes obras de infraestrutura com soluções naturais e mudanças na forma de construir e ocupar o território. A adaptação climática, nesse cenário, passa a ser uma agenda permanente para o poder público e para o setor privado.
A experiência de Copenhague apresentada no encontro reforçou a possibilidade de transformar parques, praças e áreas verdes em estruturas capazes de cumprir simultaneamente funções ambientais, sociais e de drenagem. Em São Paulo, a aposta dos especialistas é que a integração dessas soluções possa reduzir os impactos de futuras ondas de calor, tempestades e alagamentos.
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