A advogada Nadia Beller deve prestar depoimento nesta semana como testemunha protegida à Promotoria de La Paz, na Bolívia, em uma investigação por suposto enriquecimento ilícito envolvendo o consultor argentino Fernando Cerimedo, ex-assessor do presidente argentino Javier Milei.
Segundo informações divulgadas pelo jornal argentino Página/12, Beller pretende apresentar aos investigadores detalhes sobre o patrimônio de Cerimedo e seus supostos vínculos com integrantes do governo do presidente boliviano Rodrigo Paz Pereira. Entre as acusações estão possíveis esquemas envolvendo a comercialização clandestina de combustível, uma tentativa de envio de ouro para Dubai e operações relacionadas ao tráfico de drogas.
As acusações ainda precisam ser comprovadas pelas autoridades bolivianas. Cerimedo está preso preventivamente e é alvo de investigações distintas no país.
Suposto esquema com combustível
De acordo com o relato que Beller pretende apresentar à Promotoria, Cerimedo teria participado, em parceria com Bibi Urquidi, esposa do presidente Rodrigo Paz, de um esquema envolvendo a retirada de aproximadamente 2 milhões de litros de combustível por dia do fluxo regular da estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB).
O combustível seria posteriormente vendido no mercado clandestino. Segundo a advogada, a operação acrescentaria cerca de 1 boliviano ao preço de cada litro, o que representaria aproximadamente 2 milhões de bolivianos por dia, ou cerca de US$ 150 mil.
A denúncia ganha relevância diante da crise de abastecimento enfrentada pela Bolívia, que tem provocado longas filas nos postos de combustíveis.
O presidente Rodrigo Paz saiu publicamente em defesa da esposa e afirmou que ela é uma pessoa “intocável”, além de declarar que sua família é cristã. Caberá à investigação avaliar as acusações e os elementos apresentados por Beller.
Cerimedo é investigado por enriquecimento ilícito
A investigação por enriquecimento ilícito é conduzida em La Paz pelo promotor Carlos Torrez. Ao todo, foram realizadas cinco operações de busca relacionadas ao caso.
Segundo fontes da Promotoria citadas pelo Página/12, os investigadores encontraram US$ 100 mil em diferentes moedas durante as buscas. Também teriam sido localizados comprovantes de transferências de aproximadamente US$ 400 mil para o exterior.
Durante um interrogatório realizado na penitenciária de Palmasola, Cerimedo teria sido submetido a 219 perguntas por uma comissão liderada pelo promotor anticorrupção Miguel Cardozo. Segundo o jornal argentino, em 159 delas o consultor respondeu que o questionamento “não tinha relação com o caso”.
Nas respostas dadas, Cerimedo afirmou inicialmente que recebia US$ 1 milhão por mês, embora dissesse não possuir atividades na Bolívia que gerassem renda. Posteriormente, teria corrigido a informação e declarado que o valor correspondia a US$ 1 milhão por ano.
O consultor também teria negado prestar assessoria ou receber instruções do presidente boliviano e classificou sua prisão como uma tentativa de golpe de Estado.
A defesa de Cerimedo, representada pela advogada Margarita Arce, afirmou que ele teria levado US$ 200 mil próprios para a Bolívia, com entrada legal no país, e negou a existência de outros negócios ou contratos.
Fotos e mensagens contradizem versão sobre relação com governo
Beller afirma possuir fotografias e mensagens que, segundo ela, demonstrariam uma relação próxima entre Cerimedo e integrantes do governo boliviano.
Entre as imagens mencionadas estão registros do consultor ao lado do presidente Rodrigo Paz, inclusive em Miami e em um encontro com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. Também haveria fotografias de Cerimedo no avião presidencial e dentro da sede do governo boliviano.
Em uma das mensagens, segundo o relato publicado pelo Página/12, Cerimedo teria escrito que estava preparando um discurso para o presidente. Também foram citadas imagens ao lado da primeira-dama e da filha do presidente, Catalina Paz.
A investigação ainda deverá verificar a autenticidade, o contexto e o significado desses registros.
Ouro avaliado em US$ 25 milhões
Outro episódio que pode entrar no depoimento de Beller envolve a apreensão de 189 quilos de ouro no aeroporto internacional de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra.
O carregamento foi apreendido na madrugada de 23 de julho. O jovem Adrián Lema Roca, de 22 anos, foi detido quando se preparava para embarcar em um avião particular com destino a Dubai. Segundo a reportagem, o ouro estava distribuído em quatro malas e teria valor estimado em US$ 25 milhões.
Lema Roca apresentou documentos relacionados ao embarque, mas as autoridades teriam constatado que a documentação era falsa. As duas empresas mencionadas nos papéis também levantaram suspeitas. Uma delas, chamada Emporio Dorado, teria sido criada em junho de 2026 e estaria registrada em um endereço onde não funcionaria nenhuma empresa. A outra, Infinity Tradelink, de Dubai, teria proprietários desconhecidos.
O jovem chegou a ser enviado para a penitenciária de Palmasola por seis meses, mas obteve prisão domiciliar quatro semanas depois, decisão que provocou questionamentos.
Beller afirma que Lema Roca teria ligação com Catalina Paz, filha do presidente boliviano. Segundo a advogada, os dois teriam estudado no mesmo centro educacional. A reportagem ressalva, porém, que as informações obtidas indicariam que eles frequentavam níveis diferentes e que um irmão de Lema Roca teria sido colega de Catalina.
Ainda de acordo com o relato, a proximidade entre Catalina e Cerimedo, que seria anterior ao episódio, teria servido como elo para a operação com o ouro.
O senador Leonardo Roca e o site DataClave também teriam apontado uma possível relação societária que ligaria Cerimedo ao carregamento. Até o momento, segundo a reportagem, a Promotoria não conseguiu confirmar essas informações.
Investigação também apura suspeita de tráfico de drogas
Cerimedo também passou a ser investigado em uma nova frente relacionada ao tráfico de drogas. O procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, confirmou a existência de uma investigação no departamento de Beni, no norte do país, região próxima à fronteira com o Brasil.
Segundo as suspeitas, uma propriedade localizada em Santa Ana del Yacuma teria sido utilizada para pousos e decolagens de pequenas aeronaves que, supostamente, transportariam cocaína.
A versão que Beller pretende apresentar é de que Cerimedo teria participado de uma operação para impedir o rastreamento das aeronaves e facilitar sua liberação.
Segundo essa hipótese, os aviões não seriam apreendidos caso recebessem um transponder, equipamento eletrônico utilizado para identificar aeronaves perante sistemas de radar. A suspeita, no entanto, é de que os dispositivos sequer teriam sido instalados e que as aeronaves e seus ocupantes acabavam não sendo detidos.
Até o momento, a Promotoria de Beni não teria esclarecido se a propriedade utilizada nas operações pertenceria a Cerimedo ou a alguma pessoa ligada ao consultor.
Testemunha está sob proteção
Beller recebeu o status de testemunha protegida após um acordo entre a Promotoria e seu advogado, Jerjes Justiniano. Ela está mantida em local não divulgado, sob proteção, e seu depoimento não deverá ser divulgado oficialmente.
A advogada também é vítima de uma tentativa de feminicídio investigada separadamente. Três cidadãos colombianos são considerados foragidos no caso. Dois deles seriam os responsáveis pela tentativa de assassinato, enquanto um terceiro teria dirigido o veículo utilizado na fuga.
Segundo informações da investigação, a ação teria sido marcada por improvisos. Os suspeitos teriam utilizado uma arma emprestada e uma motocicleta que apresentou problemas e não funcionou após o ataque.
O caso também envolve o chefe de Inteligência Erik Correa González. Ele teria declarado que recebeu uma ligação de Cerimedo antes do ataque, quando o consultor teria pedido que ele fosse até o local onde Beller estava. Apesar disso, mensagens encontradas no celular de Cerimedo mostrariam conversas entre os dois, incluindo fotografias feitas no momento da tentativa de feminicídio.
Cerimedo nega envolvimento
As acusações apresentadas por Beller ainda dependem de comprovação pelas autoridades. Cerimedo nega as acusações e, segundo a reportagem, tem apresentado versões que entram em conflito com informações reunidas pelos investigadores.
O consultor também teria negado manter relações relevantes com o governo boliviano e afirmou não possuir atividades empresariais no país.
Ao mesmo tempo, imagens, mensagens e registros citados pela testemunha apontariam para uma relação mais próxima com o presidente Rodrigo Paz e sua família. A investigação deverá determinar se esses contatos tinham natureza profissional, política ou empresarial e se houve participação de Cerimedo nos supostos esquemas investigados.
O caso ocorre em meio a outras acusações envolvendo a atuação do consultor argentino na América Latina. Segundo o Página/12, Cerimedo teria desempenhado funções políticas e de comunicação em países como Brasil, Peru, Honduras, Colômbia e México.
A Promotoria boliviana agora deverá analisar as informações que Beller pretende apresentar e confrontá-las com os documentos, mensagens e demais elementos já reunidos nas diferentes investigações.
*Com informações da Página 12.
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