Embarcaram na conversa de que Flávio Bolsonaro não é golpista. Por Moisés Mendes

Flávio Bolsonaro Jornal Nacional
O candidato a presidência, Flávio Bolsonaro (PL), em sabatina do Jornal Nacional. Foto: Reprodução/Globo

Se a alma de Adriano da Nóbrega sobrevoasse o estúdio do Jornal Nacional e pairasse sobre a cabeça de Flávio Bolsonaro, muitas pessoas passariam a acreditar em almas. Mas a cena não iria agravar os danos já provocados pelas relações dos Bolsonaros com milicianos.

Não há mais nada que danifique, pelo ponto de vista de valores básicos, a imagem de Flávio, dos irmãos e do pai deles. Está tudo precificado, como diz a Faria Lima. Sabe-se tudo dos Bolsonaros, e metade do Brasil finge que não sabe.

Foi assim que os jornalões, com exceção de uma ressalva do Globo em chamada de capa, embarcaram na conversa de que Flávio é um democrata e que respeitará o resultado da eleição.

Qualquer editor mais atento não embarcaria nessa encenação. Porque dizer que respeita o processo e vacilar quanto ao respeito ao resultado da eleição, se derrotado, são coisas bem diferentes. São conflitantes.

Flávio disse que respeita o processo eleitoral e o resultado da eleição porque “vou ser presidente da República”. Não afrontou a Justiça Eleitoral e jogou para a vasta torcida dos que se dizem democratas.

Se eu for o eleito, o resultado será respeitado. Foi o que ele disse. Não precisa explicar em powerpoint. Mas, quando foi perguntado por Renata Vasconcellos se respeitaria o resultado mesmo derrotado, saltou fora. E aqui está o apito para os cachorros.

O Globo foi o único a chamar na capa para o detalhe da “dubiedade sobre as urnas”. Os outros embarcaram no novo democrata da família de golpistas. Mas a questão vai além da dubiedade sobre as urnas e o sistema eleitoral, que ele abordou com recuos e explicações nada convincentes. É sobre a aceitação de qualquer resultado.

Flávio mandou dizer aos golpistas: fiquem atentos porque eu já questionei as urnas e o sistema eleitoral, hoje fiz uma revisão enrolativa do que penso, mas talvez tenhamos que repetir o que aconteceu no final de 2022 e início de 2023.

O candidato da extrema direita comportou-se como mágico de festa de aniversário, dispersando a atenção com respostas sem sentido para fugir das pautas que o vinculam a matadores, a um banqueiro mafioso, a rachadores de rachadinhas, a negacionistas e a golpistas.

Até o truque da cola de palavras na mão funcionou. Boa parte do Brasil queria saber não as bobagens que ele dizia na entrevista, mas o truque escolar que levou para o JN para desviar a atenção inclusive de telespectadores das esquerdas e dizer que copia o pai.

Flávio jogou para o bolsonarismo raiz e pouco se esforçou para alargar sua base. O que importava na entrevista era passar mensagens que diluíssem a desconfiança da própria extrema direita na sua capacidade não só de enfrentar Lula, mas de governar.

O candidato conseguiu o que mais queria: aparecer em manchetes como respeitador do sistema eleitoral e como democrata, enquanto mandava recados ao golpismo. A antiga direita pré-Bolsonaro, apesar de engolida pelo bolsonarismo, merecia coisa melhor.

Mas o eleitor olha para os lados e vê Caiado e Zema, e esses também não transmitem confiança. Os três podem escrever na testa as palavras “mudança, futuro e 7 de setembro”, que Flávio levou para o JN, e nada fará sentido.

Pela primeira vez desde a primeira eleição depois da ditadura, em 1989, o único candidato a presidente testado e aprovado como democrata é Lula.

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