
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) realizará, em 31 de agosto, o Congresso Fiesp de Segurança Pública, com a participação do ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro.
Responsável por parte da política de segurança do governo Nayib Bukele, Villatoro falará às 9h40 na conferência “El Salvador e a Recuperação do Controle Territorial do Estado”. Ele apresentará estratégias de combate ao crime organizado e à violência, incluindo operações policiais de larga escala, prisões em massa e mudanças no sistema penitenciário. O evento terá tradução simultânea.
A presença de Villatoro ocorre em meio ao interesse internacional pelo chamado “modelo Bukele” de prende e arrebenta.
O resultado mais citado pelo governo salvadorenho é a queda dos homicídios. A taxa, que chegou a 106 mortes por 100 mil habitantes em 2015, caiu para 1,9 por 100 mil em 2024, segundo dados reunidos pelo governo britânico. A redução é atribuída principalmente à ofensiva contra gangues como MS-13 e Barrio 18.
Desde março de 2022, quando o governo decretou o chamado regime de exceção, mais de 90 mil pessoas foram presas. A medida restringiu garantias constitucionais e ampliou os poderes das forças de segurança.
Organizações como Human Rights Watch e Freedom House relatam denúncias de detenções arbitrárias, tortura, mortes sob custódia e enfraquecimento da independência judicial. O governo de Bukele afirma que a política permitiu desmontar as estruturas das gangues e recuperar territórios anteriormente controlados por organizações criminosas.
O governo reconheceu que milhares de pessoas detidas eram inocentes e acabaram libertadas. A discussão internacional envolve, portanto, não apenas a redução da criminalidade, mas também os critérios utilizados para identificar suspeitos e as garantias oferecidas aos presos.
Em 2026, um grupo internacional de especialistas afirmou haver fundamentos razoáveis para investigar a possibilidade de crimes contra a humanidade relacionados à política de segurança adotada durante o regime de exceção. A conclusão não representa uma condenação judicial de Bukele ou Villatoro, mas elevou o nível das críticas internacionais à estratégia salvadorenha.
Também há questionamentos sobre o impacto da política de segurança sobre as instituições do país. Organizações internacionais apontam concentração de poder no Executivo, enfraquecimento dos mecanismos de controle e redução da independência de instituições responsáveis pela fiscalização do governo.
O papel de Villatoro
Villatoro, que ocupa um dos principais cargos na implementação e defesa da política de segurança de Bukele, tem uma trajetória cercada de controvérsias.
Reportagens e investigações internacionais levantaram questionamentos sobre seu passado e sobre relações com pessoas envolvidas em esquemas de corrupção. O site especializado InSight Crime publicou, em 2021, uma investigação sobre a trajetória do atual ministro e alegadas conexões com figuras relacionadas à corrupção.
O site salvadorenho Interferencia também associou Villatoro a acusações envolvendo assassinatos, corrupção, violações de direitos humanos e narcotráfico. Essas alegações, contudo, não equivalem a condenações judiciais e devem ser apresentadas como acusações e questionamentos feitos contra o ministro.
A programação começa às 8h30, com credenciamento e café de boas-vindas. Após a abertura institucional, às 9h30, o senador Sergio Moro, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública entre 2019 e 2020 e presidente do Conselho Superior de Segurança (COSEG) da Fiesp, fará a contextualização do encontro.
Moro também moderará o primeiro painel, sobre crime organizado, territorialidade e economia formal. Participarão Guilherme Derrite, deputado federal e ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo; Rodrigo Pimentel, escritor e integrante do COSEG; e Emerson Kapaz, CEO do Instituto Combustível Legal e integrante do conselho.
A presença de Villatoro ao lado de nomes como Moro e Derrite coloca a experiência salvadorenha dentro de uma discussão brasileira sobre crime organizado, controle territorial, sistema prisional e políticas de encarceramento.