Pix: protecionismo americano com perfume de livre mercado 

Wagner Gomes 

A ofensiva dos Estados Unidos contra o Pix não nasce do nada, mas tampouco se sustenta de pé sem bengala política. Washington alega que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos favorece um “campeão nacional”, reduz espaço para empresas americanas de cartões e meios de pagamento, cria vantagem estatal indevida e pode afetar interesses estratégicos ligados ao comércio digital e à circulação internacional de dinheiro. Há um ponto real nessa queixa: o Pix mudou a economia dos pagamentos. Ao permitir transferências imediatas, baratas e massivas, ele tirou gordura de um setor acostumado a cobrar caro por intermediar operações simples. Bandeiras de cartão, adquirentes, bancos e fintechs perderam parte da renda que antes vinha de tarifas, antecipações e pedágios invisíveis. O dinheiro passou a circular mais rápido e com menos atravessador. Para quem vivia do pedágio, estrada livre parece sabotagem. Mas isso não significa fechamento de mercado. O Pix não proibiu empresas estrangeiras de operar no Brasil. Ao contrário: bancos, fintechs e plataformas internacionais podem integrar-se ao sistema, oferecer serviços sobre ele e ganhar escala num mercado mais digitalizado. O que diminuiu não foi a concorrência; foi a margem fácil. E margem fácil, convenhamos, não é direito adquirido — é jabuti em árvore: alguém colocou lá. A alegação americana tem, portanto, uma casca técnica e um miolo político. Pode-se discutir governança, segurança, interoperabilidade, privacidade de dados e efeitos concorrenciais de uma infraestrutura pública comandada pelo Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo ( (foto: Washington Costa/Ministério da Fazenda). Essas são questões legítimas. Um sistema dominante precisa de regras transparentes, fiscalização firme e neutralidade absoluta. O Pix não deve virar instrumento de governo, nem trincheira ideológica. O problema é transformar inovação pública bem-sucedida em prática comercial desleal apenas porque ela reduziu a renda de intermediários privados. Isso confunde competição com prejuízo a competidores. O Pix ampliou inclusão financeira, reduziu custos para consumidores e pequenos negócios e forçou o setor a inovar. Se uma solução pública entrega eficiência, não cabe chamá-la de protecionismo só porque ela desmonta um modelo caro e confortável. No fundo, os EUA não combatem o Pix por capricho puro. Combatem porque ele ameaça interesses econômicos concretos e, em alguma medida, a arquitetura financeira dominada por empresas e padrões ocidentais. Mas suas alegações são frágeis quando tratam eficiência como barreira e soberania tecnológica como afronta. O Pix merece escrutínio, sim. Punição comercial, não. Defender concorrência é uma coisa; proteger pedágio é outra bem diferente. 

Wagner Gomes – Articuilista 

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