Da Redação
Em entrevista conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli, presidente enfrenta perguntas sobre Lulinha, Banco Master, INSS, contas públicas e Lava Jato, rejeita blindagem ao próprio filho e cobra responsabilidade da imprensa. Em vários momentos, Lula deixa de aceitar o enquadramento das perguntas e passa a questionar as premissas colocadas pelos entrevistadores.
Luiz Inácio Lula da Silva chegou aos Estúdios Globo na noite desta quinta-feira (27) para uma sabatina eleitoral e encontrou, sobretudo em sua primeira parte, uma sucessão de perguntas sobre investigações, suspeitas e personagens próximos ao governo. A entrevista, conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli, rapidamente deixou de ser apenas uma exposição de propostas para a eleição presidencial de 2026 e se transformou em um confronto sobre responsabilidade política, presunção de inocência, Polícia Federal, Lava Jato, imprensa e o próprio modo como fatos e acusações são apresentados ao público.
Lula não se limitou a responder. Em diferentes momentos, contestou o enquadramento das perguntas, devolveu questionamentos aos jornalistas e recuperou episódios de sua própria trajetória para acusar setores da imprensa de terem tratado acusações como verdades antes de decisões definitivas da Justiça. A tensão ficou explícita quando o presidente afirmou que estava “parecendo que estava no Ministério Público”, em referência à sequência inicial de questionamentos.
A sabatina começou às 21h05 e foi transmitida ao vivo pela TV Globo, GloboNews e g1. Renata Vasconcellos e César Tralli foram destacados pela emissora para conduzir a série especial de entrevistas com os presidenciáveis, realizada fora da bancada tradicional do Jornal Nacional. Lula foi o quarto candidato da rodada, depois de Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos. Flávio Bolsonaro será entrevistado nesta sexta-feira (28).
O primeiro grande confronto ocorreu em torno das investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Diante das perguntas sobre o filho, Lula adotou simultaneamente duas linhas de defesa: rejeitou que ilações sejam apresentadas como fatos consumados, mas deixou claro que não pretende oferecer qualquer proteção institucional a Fábio Luís caso as autoridades encontrem provas de irregularidades.
A posição expressa pelo presidente foi politicamente direta: se seu filho tiver cometido crime, terá de responder como qualquer outro cidadão. Lula afirmou que Fábio Luís deve prestar todos os esclarecimentos necessários e insistiu que o governo não interferirá nas investigações. Ao mesmo tempo, questionou informações que, segundo ele, vêm sendo construídas a partir de associações, telefonemas e vazamentos sem comprovação suficiente.
Essa resposta é importante porque toca no centro de uma das principais estratégias da oposição nesta campanha. As investigações relacionadas a pessoas próximas de Fábio Luís passaram a ser utilizadas para tentar transportar para Lula o desgaste político produzido pelas suspeitas. O presidente procurou estabelecer uma fronteira: parentesco não significa responsabilidade criminal compartilhada.
Mas Lula não poupou pessoas de seu próprio círculo.
Ao falar de Marco Aurélio Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete ligado ao presidente, Lula afirmou que ele errou ao manter determinadas relações com a lobista Roberta Luchsinger e ao aceitar pagamentos apresentados como empréstimos. Lula também declarou não conhecer pessoalmente a lobista e utilizou linguagem dura ao comentar sua atuação.
Essa foi uma característica relevante da entrevista. Lula não procurou simplesmente negar tudo o que lhe era apresentado. Em alguns casos, distinguiu responsabilidades, criticou condutas de pessoas próximas e sustentou que as investigações devem prosseguir.
“Ninguém está acima da lei”
A linha adotada na Globo foi coerente com aquilo que Lula já havia defendido publicamente nos últimos dias: nem aliados nem familiares devem receber proteção quando houver indícios concretos de crime.
No caso do filho, a posição é particularmente sensível porque Lula conhece pessoalmente o impacto político produzido quando investigação criminal, cobertura jornalística e disputa eleitoral passam a operar simultaneamente.
Foi justamente essa experiência que levou a entrevista ao momento mais tenso da noite.
Ao ser confrontado com as suspeitas atuais, Lula recuperou a Operação Lava Jato e o célebre PowerPoint apresentado pelo então procurador Deltan Dallagnol em 2016. Para o presidente, aquele episódio permanece como símbolo de um processo em que uma acusação foi convertida em espetáculo público antes que as provas fossem submetidas plenamente ao contraditório.
Lula disse não ter esquecido o “PowerPoint mentiroso” e afirmou que foi vítima de uma operação destinada a inviabilizar sua candidatura presidencial em 2018. Também voltou a responsabilizar Sergio Moro, Dallagnol e setores da imprensa pelo ambiente político que acompanhou sua condenação e prisão.
Foi então que a entrevista deixou de ser simplesmente Lula respondendo à Globo.
A Globo passou também a responder a Lula.
Renata Vasconcellos defendeu a atuação jornalística da emissora, enquanto César Tralli mencionou uma retratação feita pela Globo em outro episódio recente envolvendo um PowerPoint exibido pela GloboNews sobre o caso Banco Master. Nesse caso, a própria emissora reconheceu posteriormente que a apresentação continha informações erradas e incompletas e pediu desculpas.
A troca expôs uma discussão muito maior do que a campanha eleitoral de 2026.
Até onde vai o dever da imprensa de divulgar uma investigação em andamento? Em que momento a repetição de uma suspeita começa a produzir no público a percepção de culpa? E como reparar o dano quando uma acusação recebe enorme exposição, mas sua correção posterior alcança uma audiência muito menor?
Lula utilizou sua própria história para sustentar que essa assimetria existe.
Presidente confronta Renata sobre as contas públicas
Outro momento de atrito aconteceu quando Renata Vasconcellos questionou Lula sobre dívida pública e trajetória fiscal do governo.
O presidente reagiu à formulação da pergunta e disse que esperava uma abordagem diferente. A troca chamou atenção justamente porque Lula não aceitou passivamente a premissa de que a situação fiscal pudesse ser apresentada isoladamente das escolhas econômicas, dos investimentos e da situação geral do país.
A economia é um terreno decisivo da eleição.
Lula chega à campanha procurando transformar emprego, renda, investimentos, políticas sociais e desenvolvimento em argumentos para um quarto mandato. A oposição, por sua vez, procura deslocar o debate para dívida, inflação, preços, gastos públicos e sustentabilidade fiscal.
A pergunta da Globo atingiu exatamente esse conflito de narrativas.
O presidente sustentou que não trata a dívida pública da maneira alarmista que seus adversários apresentam e defendeu sua política econômica. Também afirmou que pretende recuperar os Correios, outro tema que vem sendo explorado durante a campanha.
Independentemente da avaliação política sobre a resposta, o episódio mostrou a estratégia adotada por Lula para as próximas semanas: ele não pretende disputar a eleição aceitando automaticamente o vocabulário econômico utilizado pelos adversários.
INSS: Lula diz que governo descobriu esquema e ressarciu aposentados
O escândalo envolvendo descontos indevidos de aposentados e pensionistas também ocupou espaço central.
Lula argumentou que foi durante sua própria administração que o esquema foi identificado e combatido e afirmou que aposentados prejudicados foram ressarcidos. O presidente procurou inverter a responsabilização política: em vez de aceitar que o episódio seja apresentado simplesmente como um escândalo “do governo Lula”, sustentou que sua gestão foi responsável por descobrir e desmontar a estrutura criminosa.
Essa distinção será uma das batalhas narrativas mais importantes da campanha.
A oposição procura associar personagens investigados e eventuais relações políticas ao Palácio do Planalto. Lula procura separar três coisas: a existência de um crime, a responsabilidade individual dos envolvidos e a ação institucional do Estado para investigar o esquema.
A questão relevante para o jornalismo é justamente determinar, caso a caso, quem sabia, quando soube, quais providências tomou e quais relações podem ser comprovadas documentalmente.
Associação política não substitui prova. Da mesma forma, a descoberta de um esquema pelo próprio Estado não elimina automaticamente a necessidade de investigar eventuais responsabilidades dentro dele.
Foi esse terreno complexo que marcou grande parte da entrevista.
Jaques Wagner e Banco Master
Lula também foi questionado sobre o senador Jaques Wagner e o Banco Master.
Mais uma vez, adotou a presunção de inocência como princípio. O presidente afirmou que não conhece prova capaz de demonstrar envolvimento ilícito de Wagner e sustentou que ninguém deve ser considerado culpado antes que as evidências sejam apresentadas.
A resposta se encaixa no argumento maior que Lula procurou construir ao longo da noite: investigação precisa acontecer, pessoas precisam responder por seus atos, mas a existência de uma apuração não pode funcionar automaticamente como sentença.
Esse princípio aparentemente elementar adquiriu enorme importância política no Brasil depois da Lava Jato.
E Lula sabe disso melhor do que qualquer outro candidato desta eleição.
A Lava Jato entrou novamente na eleição
Talvez o elemento politicamente mais importante da entrevista tenha sido justamente a volta da Lava Jato ao centro da televisão brasileira.
Lula poderia ter evitado o assunto. Fez o contrário.
Recuperou a denúncia do triplex, o PowerPoint de Dallagnol, sua prisão e a eleição de 2018. Ao fazer isso, procurou ligar a discussão atual sobre Fábio Luís a uma experiência anterior em que acusações criminais tiveram consequências eleitorais gigantescas.
Há um dado concreto que dá peso adicional à lembrança: Dallagnol foi condenado a indenizar Lula por danos morais relacionados à apresentação do PowerPoint.
Isso não significa que investigações atuais envolvendo pessoas próximas ao presidente devam ser descartadas por causa dos abusos cometidos no passado. Significa que o precedente ajuda a explicar por que Lula reage de maneira tão incisiva quando percebe que suspeita, associação e culpa estão sendo aproximadas no discurso público.
Sua estratégia nesta quinta-feira foi impedir essa compressão.
“Investigue” foi, em essência, uma das mensagens do presidente.
Mas prove.
Lula não aceitou ser colocado apenas na defensiva
A importância eleitoral da sabatina está justamente aí.
Lula entrou na Globo diante de uma conjuntura em que seus adversários pretendem utilizar as investigações envolvendo seu filho e pessoas próximas como eixo de desgaste durante as próximas cinco semanas.
Se tivesse passado toda a entrevista apenas justificando-se, o efeito político poderia ser desastroso.
Em vez disso, ele procurou deslocar o terreno.
Respondeu sobre o filho, mas falou de independência da Polícia Federal. Respondeu sobre investigações, mas recuperou erros da Lava Jato. Respondeu à imprensa, mas questionou a própria imprensa. Respondeu sobre economia, mas contestou o enquadramento econômico apresentado. E quando considerou excessiva a sequência de perguntas investigativas, explicitou a tensão dizendo que parecia estar diante do Ministério Público.
É nesse sentido que a expressão popular de que Lula “jantou” os entrevistadores pode traduzir a percepção de seus apoiadores, mas não deve substituir a descrição jornalística do que ocorreu.
O que houve objetivamente foi uma sabatina marcada por confronto.
Em diversos momentos, os jornalistas tentaram conduzir Lula para respostas específicas sobre suspeitas e responsabilidades. Em vários desses momentos, Lula recusou limitar-se à moldura proposta e transformou a própria pergunta em objeto da discussão.
Isso é politicamente relevante porque Lula possui uma característica que poucos candidatos brasileiros têm: décadas de experiência diante de entrevistas hostis, debates presidenciais, interrogatórios, crises e confrontos televisionados.
Aos 80 anos e disputando mais uma eleição presidencial, ele não entra numa sabatina apenas para responder perguntas. Procura disputar o significado delas.
O confronto antecipa a campanha que começa na televisão
A entrevista aconteceu praticamente na véspera de outra etapa fundamental da eleição. Nesta sexta-feira (28), começa a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão.
Lula chegará ao horário eleitoral com o maior tempo entre os candidatos e pretende explorar justamente o confronto entre sua trajetória e a de Flávio Bolsonaro.
A sabatina desta quinta-feira funcionou, nesse sentido, quase como uma abertura não oficial dessa nova fase da campanha.
Amanhã será a vez de Flávio enfrentar Renata Vasconcellos e César Tralli. A entrevista está prevista para começar às 21h30, mais tarde justamente porque a grade da televisão já estará ocupada pelo primeiro dia do horário eleitoral.
A comparação será inevitável.
Se a Globo submeteu Lula a perguntas duras sobre seu filho, pessoas próximas, Banco Master, INSS e investigações, a expectativa de isonomia jornalística coloca sobre a entrevista de Flávio Bolsonaro a necessidade de questionamentos igualmente rigorosos sobre sua própria trajetória pública e sobre os episódios que marcaram sua carreira.
É precisamente aí que a sabatina de Lula poderá ganhar uma segunda dimensão política.
O presidente não apenas respondeu às perguntas que recebeu. Ao enfrentar o nível de cobrança imposto pela Globo, elevou também o parâmetro pelo qual será observada a entrevista de seu principal adversário.
Uma noite em que o entrevistado também entrevistou a imprensa
Ao final, a sabatina produziu algo maior do que uma sequência de respostas eleitorais.
Lula obrigou a Globo a discutir a própria Globo.
Quando o presidente recuperou a cobertura da Lava Jato, os jornalistas defenderam a atuação da emissora. Quando mencionou PowerPoints utilizados para associá-lo a acusações, Tralli precisou diferenciar episódios e lembrar a retratação recente da GloboNews. Quando as perguntas se concentraram nas investigações, Lula explicitou que percebia o enquadramento e o contestava.
Isso não torna Lula imune ao escrutínio jornalístico. Muito pelo contrário. Um presidente da República que busca novo mandato deve enfrentar perguntas duras sobre seu governo, seus aliados, economia, segurança, corrupção e qualquer investigação de interesse público.
Mas escrutínio não é condenação antecipada.
E foi exatamente essa fronteira que Lula tentou colocar no centro da entrevista.
A sabatina da Globo deveria ser uma prova para o candidato.
Em vários momentos, transformou-se também numa prova para os entrevistadores.
A partir desta sexta-feira, quando Flávio Bolsonaro ocupar a mesma cadeira, será possível avaliar uma questão que inevitavelmente ficou colocada depois da noite desta quinta-feira: o padrão de rigor utilizado para questionar Lula será aplicado com a mesma intensidade ao seu principal adversário?
Essa talvez seja uma das consequências mais importantes da entrevista.
Lula entrou nos Estúdios Globo para responder por seu governo e sua candidatura. Saiu deixando sobre a mesa uma discussão sobre algo que acompanhará toda a eleição de 2026: não apenas quais fatos serão apresentados ao eleitor brasileiro, mas quem seleciona esses fatos, como eles são enquadrados, quais suspeitas recebem destaque e se a mesma régua será utilizada para todos aqueles que disputam o poder.