Altivo, Lula enfrenta emboscada e se sai bem em sabatina da Globo

Como sabemos, as tradicionais sabatinas da TV Globo com presidenciáveis, realizadas desde 2002 – preferencialmente no Jornal Nacional (JN) –, são uma farsa. Os apresentadores escalados para a entrevista trocam o jornalismo pela inquisição. O interesse público é posto de lado em nome da estratégia de constranger o entrevistado, numa espécie de jornalismo de emboscada.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sabia dessa armadilha e se saiu bem, nesta quinta-feira (27), ao participar da sabatina com César Tralli e Renata Vasconcellos, apresentadores do JN. Lula não passou recibo. Tanto que, quando informaram que a sabatina sairia de escândalos (não comprovados) de corrupção para temas do governo, o presidente soltou uma ironia: “Parecia que eu estava no Ministério Público”.

Conforme esperado, Tralli começou a sabatina trazendo à tona acusações decorrentes de vazamentos ilegais contra Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, e a empresária Roberta Luchsinger. A grande mídia os chama, respectivamente, de “Lulinha” e “lobista”, termos que nem Fábio nem Roberta usam. “Não tem acusações. São ilações, ilações e ilações, tiradas de telefonema”, lembrou Lula.

“Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro”, disse o presidente. “Ele não será protegido por ser meu filho. Portanto, ele sabe o que fazer: ele tem que provar a inocência dele – e eu tenho certeza de que ele vai ser inocente.” Mesmo depois da resposta de Lula, a Globo insistiu por mais de 15 minutos numa sequência de acusações e suspeitas que buscavam estabelecer uma associação direta entre supostos escândalos e o presidente.

Quando Tralli tentou emplacar a tese da “fila do INSS”, estimada pela Globo em 1,3 milhão de pessoas – sem apontar a fonte –, Lula rebateu: “A espera de 45 dias vai estar apenas em 250 mil pessoas, o que é o normal. Eu te convido, Tralli, para o ato em que a gente vai comemorar com os aposentados”.

No papel de porta-voz do mercado, a Globo também procurou acossar Lula sobre a dívida pública, na faixa de 82% do PIB. Lula engatou três argumentos contundentes contra a emissora: “Fui o único presidente do Brasil que fez superávit primário durante oito anos”; “vocês defenderam a vida inteira o Banco Central independente”; “se tem aqui neste país que tem responsabilidade fiscal, sou eu”.

O presidente recordou que o governo Jair Bolsonaro (PL) deixou um rombo de R$ 94 bilhões, combatido com a chamada “PEC da Transição”. Além disso, ante a cobrança de um ajuste fiscal, Lula retrucou: “Meu estabelecimento é fazer este país crescer”. Ele disse que já acabou duas vezes com a fome no Brasil e enfrentou um país “destruído” após a gestão Bolsonaro.

Lula afirmou que os Correios não se adaptaram às mudanças de paradigma. “Surgiu muita empresa de entrega, e os Correios ficaram na mesmice”, declarou. Mas ele descartou a venda da estatal: “Não considero vender, (mas) considero recuperar os Correios para prestar serviços de qualidade ao povo brasileiro.”

Quando a sabatina entrou numa questão mais relevante e tratou de educação, Lula deitou e rolou. Ele disse que foi o presidente que “mais pôs aluno em escola em tempo integral”, além de ter criado o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) e o Pé-de-Meia. Segundo Lula, dos 800 institutos federais no Brasil, 80% foram criados sob os governos dele e de Dilma Rousseff. A população com diploma universitário saltou de 5 milhões em 2002 para 25 milhões hoje.

Ao término do interrogatório, ficou evidente o contraste entre a obsessão da grande mídia pela intriga e a determinação de um projeto popular focado na reconstrução do País. Durante boa parte do tempo, Tralli e Renata tentaram empurrar o presidente para o banco dos réus, como se a entrevista fosse a extensão de um inquérito. Mas Lula não aceitou o papel que lhe reservaram e transformou o interrogatório em vitrine de seu legado.

Lula provou que não se intimida com o jornalismo de tribunal e que tem legado, números e autoridade moral para apresentar ao povo brasileiro. A tentativa de emparedar o presidente naufragou. O que se viu na tela da Globo foi um líder altivo, pronto para defender as conquistas do seu governo e seguir avançando na transformação social do Brasil, respondendo às provocações e às acusações. Lula tinha o que defender, o que comparar e, sobretudo, um projeto para apresentar.

Artigo Anterior

No JN, Lula promete anunciar fila do INSS zerada na próxima semana

Próximo Artigo

Ciro aposta em ataques pessoais, mas Elmano sustenta confronto no debate do Cariri

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!