
Renan Santos atacou Janja no debate na Bandeirantes porque a tática consagrada pela obtenção dos melhores resultados para a extrema direita é esta: cercar os afetos de Lula, como já vêm cercando o filho Fábio Luís há muito tempo.
Mas Santos tem a companhia de gente que se diz de esquerda e multiplicou nas redes uma conversa sobre inautenticidade, porque Janja não deveria ter cantado uma música gospel em São Bernardo. Continuam tratando do cântico no Estádio de Vila Euclides.
Disseminou-se na internet, principalmente a partir de premissas postas pelo humorista Gregório Duvivier, a convicção de certa esquerda de que Janja, como figura pública, está exposta a abordagens críticas também de parte das esquerdas.
É uma obviedade que ofende o discernimento das próprias esquerdas. Todas as figuras públicas estão expostas à avaliação, inclusive os sabiás. Mas por que atacar Janja por cantar uma música que enquadram como gospel? E numa hora dessas?
Porque, é o que dizem, não passa autenticidade para os evangélicos. A música é evangélica? Quem decidiu que é? Como se os católicos que vão à missa uma vez por ano na Páscoa, que frequentam igrejas apenas em batizados de afilhados e em casamentos de sobrinhos, e que nunca rezaram uma Ave-Maria depois de adultos, pudessem se considerar autênticos.
Como se os defensores do chamado Jesus Cristo histórico pudessem, por se considerar seus apóstolos nas suas famílias, atestar a autenticidade dos outros. Tentam ofender Janja com o carimbo de batuqueira e que por isso não poderia tentar fazer média com os evangélicos.
A esquerda crítica, que aciona sua capacidade de patrulhar a própria esquerda nos piores momentos, como é o atual, se acha no direito de oferecer abordagens estéticas, culturais e históricas sobre a performance de Janja em São Bernardo. A partir do que seria autêntico ou não.
Não é só a direita que está falando de autenticidade, é a esquerda crítica, a que não perde oportunidade de dizer que é autônoma e independente para falar o que pensa. Uma esquerda chata, destemida para dizer o que Janja deve ou não fazer, a menos de dois meses da eleição.
➡️ Renan Santos chama Flávio Bolsonaro de imbecil e idiota, diz que é melhor Lula estar bêbado do que ao lado da primeira-dama Janja
🤳 Imagens cedidas pela Band pic.twitter.com/m83vJ3rWhn
— Metrópoles (@Metropoles) August 24, 2026
Renan Santos ataca Janja. O fascismo tem Janja como pauta permanente. Quem ataca mulheres vê em Janja a representação do feminino que, por estar perto de Lula, reúne os ingredientes que atiçam o bolsonarismo: uma mulher atrevida, casada com Lula e ainda metida a opinar e, acreditem, até a cantar.
E não canta qualquer música, mas música gospel e ao lado do pastor Kleber Lucas. Os críticos da esquerda, que não gostaram do canto de Janja, tiveram acolhida de muita gente dessa mesma esquerda. Gente que reflete, no modo básico, que assim é o mundo crítico e independente. Janja se expôs e vai a julgamento público. Pode ser cancelada.
Não importa se é a mulher de Lula fazendo política, se teremos eleição logo ali, ou se estão fazendo o jogo de Renan Santos. Importa que errou ao tentar se aproximar dos evangélicos cantando. E cantando gospel. Bateram em Janja, bateram na música gospel, batem em quem ouve música gospel. Porque o gospel identificaria o mundo dos evangélicos.
E assim prosperam os críticos das esquerdas que atacam as esquerdas em meio a mais uma guerra. Por imposição do poder da crítica sem freios dos influencers e humoristas que não perdem a piada, pelo vício da lacração, por achar que uma ‘sacada’ se impõe aos alertas dos que pedem bom senso.
O fascismo ataca Janja, ataca Ana Estela, a mulher de Haddad, e continuará atacando Benedita da Silva, Duda Salabert, Erika Hilton, Gleisi Hoffmann e Sâmia Bomfim, destaques da 19ª edição do Prêmio Congresso em Foco.
Batem em Manuela D’Ávila, em Maria do Rosário e na memória de Marielle. Enquanto a esquerda branca e descolada dos garotos de Ipanema se dedica a fazer avaliações político-musicais da performance de Janja. Pelo vício do machismo recreativo e cultural.
Porque, dizem alguns, dona Marisa Letícia não faria nada parecido. E afundam na crueldade das comparações rasas, para provar apenas que parte das esquerdas pode ser terrivelmente cansativa e, em muitos casos, tão insuportável quanto a extrema direita.