A China e a costura de um novo poder, por Iara Vidal

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A China e a costura de um novo poder: ela veio ao baile para vestir o velho terno da hegemonia?

por Iara Vidal

Há livros que nos entregam respostas. Outros nos entregam perguntas melhores. Foi exatamente isso que aconteceu comigo ao começar a ler EUA x China — A luta pelo poder global, de Pedro Donizete da Costa Jr.

O exemplar, devidamente autografado pelo autor, chegou até mim pelas mãos do meu filho Arthur, que passou um mês comigo aqui em Beijing na companhia da namorada dele, Gisele. Foi um julho intenso, daqueles que ficam guardados na memória: viajamos juntos por Xi’an, Wuhan e Shanghai, atravessando paisagens, histórias e diferentes faces da China contemporânea.

Neste sábado de folga, em meio à correria da campanha para reeleger Lula, resolvi parar tudo para mergulhar no livro do meu querido camarada Pedro. Ainda não terminei a leitura — e talvez esse seja um dos prazeres de um bom livro: ele nos obriga a desacelerar —, mas um capítulo específico me capturou imediatamente.

A obra de Pedro trata de uma das grandes disputas do nosso tempo: a transformação da relação de forças entre Estados Unidos e China. Aliás, já tive a oportunidade de entrevistá-lo para um artigo que escrevi em parceria com minha amiga Shi Xiaomiao, a Isabela, publicado pela CGTN em Português.

No primeiro capítulo, intitulado “Da Teoria do Poder Global: Teoria e Conjuntura”, Pedro apresenta a teoria do poder global de José Luís Fiori, que ele define como um marco brasileiro nos estudos da Economia Política Internacional e das Relações Internacionais.

Foi essa chave teórica que me chamou atenção. Não apenas pela capacidade de explicar a disputa entre grandes potências, mas porque ela abre uma pergunta fundamental:

Quando uma potência cresce, ela necessariamente precisa vestir a roupa da potência que veio antes?

Sim, caro leitor. Quem acompanha meu trabalho sabe que a roupa é uma das minhas formas de compreender e traduzir o mundo. Não apenas a roupa como tecido ou aparência, mas como linguagem, símbolo e narrativa.

A moda é uma espécie de pedra de Roseta para mim: uma ferramenta para decifrar códigos, revelar estruturas e transformar temas complexos em histórias que possam ser compreendidas por todos.

E talvez não exista metáfora melhor para falar de poder.

Porque, assim como na moda, algumas potências não apenas usam roupas: elas definem o corte, escolhem os tecidos e estabelecem aquilo que o mundo inteiro passa a reconhecer como modelo.

A pergunta que o livro de Pedro me provoca é justamente essa: a China está apenas tentando vestir uma nova versão do velho traje do poder global ou está costurando uma nova modelagem para o século XXI?

O poder como uma roupa que nunca fica parada

José Fiori nos lembra que poder não é uma peça pronta guardada no armário de um país. Poder é movimento. É uma construção permanente, uma roupa que nunca fica completamente acabada porque precisa ser ajustada, refeita e redesenhada diante das mudanças do mundo.

Na leitura de Fiori, o poder é assimétrico, porque os Estados nunca partem da mesma posição; é limitado, porque nenhuma potência consegue controlar todos os elementos do sistema; é relativo, porque a força de um país depende também da posição que ocupa em relação aos demais; e é heterostático, porque toda potência busca modificar o equilíbrio existente.

Mas o poder também é triangular, porque a disputa internacional nunca se resume a uma relação entre dois atores isolados; é fluxo, porque não é um estoque parado de riqueza ou força militar, mas uma capacidade em movimento de acumular, deslocar e transformar recursos; e é sistêmico, porque nenhum país existe fora da estrutura internacional na qual está inserido.

Além disso, o poder é expansível, porque as potências precisam ampliar continuamente suas capacidades; é indissolúvel, porque política e economia não podem ser separadas; e é dialético, porque cada movimento de um ator modifica o comportamento dos demais.

Em outras palavras: uma potência não escolhe sozinha a roupa que veste. Ela carrega os tecidos de sua própria história, mas também precisa lidar com os cortes, ajustes e reações produzidos pelos outros atores do sistema.

É justamente essa chave que torna a pergunta sobre a China tão fascinante: quando uma potência cresce, ela necessariamente precisa vestir a roupa da potência que veio antes?

Pensar o poder dessa forma muda a pergunta.

A questão não é apenas: a China quer ser poderosa?

Claro que quer.

Nenhum país que pretende garantir sua soberania, seu desenvolvimento e sua segurança pode abrir mão de construir poder.

A pergunta mais interessante é outra:

Que tipo de poder a China está construindo?

O velho figurino das potências

A história mostra que muitas potências ascenderam seguindo um roteiro conhecido.

Primeiro acumularam riqueza. Depois ampliaram sua capacidade militar. Em seguida criaram instituições, regras e narrativas que apresentavam seus próprios interesses como interesses universais.

Foi assim que diferentes impérios construíram suas posições no sistema internacional.

Como na moda, algumas grifes não apenas criam roupas. Elas definem o que será considerado elegante.

Durante muito tempo, a hegemonia também funcionou assim: alguns países definiram o tecido, o corte e o modelo que o restante do mundo deveria seguir.

A China quer trocar de roupa ou mudar a modelagem?

A China afirma que sua ascensão segue outro caminho.

O discurso oficial chinês rejeita a ideia de hegemonia e defende conceitos como desenvolvimento pacífico, multipolaridade e uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade.

Mas a análise do poder exige ir além das declarações.

A China está acumulando poder.

Construiu uma das maiores capacidades industriais do planeta, ampliou sua infraestrutura, avançou em tecnologias estratégicas e aumentou sua influência econômica em diversas regiões do mundo.

Pela lente de Fiori, isso não é uma contradição.

É exatamente como funciona a lógica do poder.

Um país que deseja modificar sua posição no sistema internacional precisa ampliar suas capacidades.

A diferença chinesa

O ponto mais instigante talvez seja este:

A China parece não querer apenas substituir os Estados Unidos como centro dominante do sistema.

Sua proposta declarada é alterar a própria lógica da distribuição do poder.

É como uma marca que não quer apenas apresentar uma nova coleção dentro da mesma semana de moda. Ela quer questionar quem define as tendências, quem controla os tecidos e quem decide o que é considerado alta-costura.

A disputa entre Estados Unidos e China, portanto, não é apenas uma disputa entre dois países.

É também uma disputa sobre as regras da passarela.

A pergunta de Maquiavel continua

Mas aqui está a parte mais difícil.

Maquiavel nos ensinou que a política não pode ser analisada apenas pelas intenções declaradas. É preciso observar capacidades, interesses e consequências.

Toda potência que acumula poder passa a exercer influência.

A pergunta que o século XXI precisa responder é:

É possível uma potência chegar ao centro do sistema internacional sem reproduzir os padrões das potências anteriores?

A China afirma que sim.

Seus críticos dizem que toda potência ascendente acaba buscando hegemonia.

Talvez essa seja a grande disputa intelectual do nosso tempo.

A roupa nova do poder?

Talvez a grande novidade chinesa não esteja em negar o poder, mas em propor outra maneira de organizá-lo.

A China não parece querer um mundo sem hierarquias. Nenhum sistema internacional funciona assim. O que ela afirma buscar é um mundo com mais centros de decisão, no qual diferentes países tenham maior capacidade de participar das escolhas que definem a ordem global.

E essa nova roupa do poder chinês já tem alguns tecidos visíveis.

Nova Rota da Seda, lançada em 2013, não é apenas um projeto de infraestrutura. Ela representa uma tentativa de ampliar conexões econômicas, comerciais e logísticas entre a China e diferentes regiões do mundo, criando novas redes de circulação de mercadorias, capitais e tecnologia.

yuan, ainda distante da posição ocupada pelo dólar, também faz parte dessa costura. A internacionalização gradual da moeda chinesa busca reduzir vulnerabilidades e ampliar a autonomia financeira de um país que durante décadas dependeu de um sistema monetário construído a partir da centralidade norte-americana.

Na área tecnológica, a China procura deixar de ser apenas a grande fábrica do mundo para disputar os setores que definem o futuro. A liderança em tecnologias verdes, como energia solar, baterias e veículos elétricos, assim como os investimentos em inteligência artificial, semicondutores e manufatura avançada, fazem parte dessa busca por maior autonomia e capacidade estratégica.

No campo diplomático, a ampliação do BRICS expressa outra dimensão dessa disputa: a tentativa de fortalecer espaços de articulação entre países emergentes e do Sul Global, defendendo uma ordem internacional com maior diversidade de vozes.

São movimentos diferentes, mas costurados pelo mesmo fio: a construção de capacidades próprias.

Se essa promessa representará uma alternativa real ao modelo de poder construído pelas potências anteriores, a história ainda vai responder.

Mas uma coisa já está clara:

Para compreender a China do século XXI, não basta perguntar se ela quer ser a próxima hegemonia.

É preciso perguntar se ela está tentando criar uma nova modelagem para o próprio conceito de poder.

E talvez seja justamente por isso que o livro de Pedro Donizete da Costa Jr. seja tão importante: porque ele nos ajuda a sair da pergunta mais simples — quem vai vencer? — e nos coloca diante da pergunta mais profunda:

que tipo de mundo está sendo costurado diante dos nossos olhos?

Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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