Lula quer fim de ‘jornada escrava’, enquanto Flávio Bolsonaro manobra para manter escala 6×1

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou o seu compromisso de trabalhar pela aprovação do fim da escala 6×1 e classificou o atual modelo como uma “jornada escrava de trabalho”. A manifestação ocorre no momento em que a proposta volta a avançar no Senado e a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) mobiliza aliados para tentar empurrar a votação para depois das eleições.

Em vídeo divulgado nas redes sociais nesta terça-feira 25, Lula relembrou os anos vividos no chão de fábrica e à frente do movimento sindical para explicar por que considera urgente garantir dois dias de descanso aos trabalhadores. “Eu sei o que é uma jornada de trabalho em que as pessoas trabalham a semana inteira e só têm um dia para descansar”, afirmou.

A Câmara dos Deputados aprovou a proposta do fim da escala 6×1 há três meses. O texto reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, garante dois dias de repouso remunerado e proíbe qualquer redução salarial. A implantação será gradual: o teto cai para 42 horas dois meses após a promulgação e chega a 40 horas um ano depois.

“Eu tenho certeza que o presidente Alcolumbre também vai votar a escala 6×1. Nós vamos acabar com essa jornada escrava de trabalho”, declarou Lula.

O presidente destacou que a mudança permitirá que milhões de brasileiros tenham tempo para descansar, estudar, cuidar dos filhos e aproveitar a família. Lula também chamou a atenção para o peso ainda maior suportado pelas mulheres, que frequentemente enfrentam uma segunda jornada dentro de casa.

“Tenho certeza que vai ser bom para você descansar, cuidar dos filhos, estudar e ter lazer. E para sua mulher muito mais, porque ela vai ter também dois dias para descansar, para curtir a família e para fazer o que ela faz em casa junto com você”, disse.

Para Lula, os adversários que tentam barrar a mudança por acreditarem que sua aprovação representaria uma vitória política do governo colocam a disputa eleitoral acima da vida dos trabalhadores.

“Aqueles que são contra porque acham que, se aprovar, é um benefício para mim, estão tontos, estão muito equivocados. O fim da escala 6×1 é um benefício para milhões de homens e mulheres que estão cansados de ser escravos e querem descansar um pouco mais”, afirmou.

Bolsonarismo tenta ganhar tempo

Enquanto Lula pressiona pela votação, aliados de Flávio Bolsonaro articulam pedidos de vista, emendas e outras manobras para retardar a análise na Comissão de Constituição e Justiça. A estratégia é coordenada pelo senador Rogério Marinho (PL), coordenador da campanha de Flávio e líder da oposição no Senado, que já declarou que pretende deixar a discussão para depois das eleições. As manobras regimentais estudadas pelo grupo podem interromper temporariamente a tramitação.

A ofensiva começou a sair dos bastidores nesta terça-feira, 25. O senador Hermes Klann (PL-SC) apresentou duas emendas à proposta. Uma delas tenta estender para quatro anos a transição até a jornada de 40 horas. A outra permite a manutenção de regimes de até 44 horas semanais por meio de lei, convenção ou acordo coletivo. As emendas já foram encaminhadas ao relator, Omar Aziz (PSD-AM), segundo o registro oficial do Senado.

Qualquer mudança no mérito obrigaria a proposta a retornar à Câmara, abrindo caminho para novos adiamentos. Aziz, no entanto, sinalizou que pretende preservar o texto aprovado pelos deputados, entregar o parecer até quinta-feira, 27, e levá-lo à votação na CCJ em 2 de setembro.

Flávio Bolsonaro também passou a defender publicamente o modelo formulado por sua campanha. Em encontro com empresários na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, o candidato do PL afirmou que o trabalhador não deveria ficar “engessado” por uma escala fixa e defendeu até a possibilidade de trabalhar mais horas. “Se quiser trabalhar mais horas, vai trabalhar também e vai ganhar mais, declarou o senador à Folha de S.Paulo.

Projeto ficou parado no Governo Bolsonaro

A resistência da direita ao avanço da jornada digna não começou agora. Apresentada em dezembro de 2019 pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), a proposta chegou à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara ainda naquele ano, mas atravessou praticamente todo o Governo Jair Bolsonaro sem sequer receber um relator.

Quando o texto finalmente se aproximou de uma votação, em novembro de 2023, um requerimento do deputado Gilson Marques (Novo-SC) conseguiu retirá-lo da pauta por 30 votos a 25. Parlamentares do PL, como Julia Zanatta e Capitão Alberto Neto, também haviam apresentado pedidos para impedir a análise. O histórico completo consta na ficha de tramitação da Câmara.

A proposta só avançou definitivamente em 2026, após a mobilização do Governo Lula, das centrais sindicais e dos movimentos sociais. Na Câmara, recebeu 472 votos no primeiro turno e 461 no segundo, apoio muito superior aos 308 votos necessários.

A medida também conta com amplo respaldo popular. Pesquisa Nexus mostrou que 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1 sem redução salarial, enquanto 84% defendem que todos os trabalhadores tenham pelo menos dois dias de descanso por semana.

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