Getúlio Vargas volta ao centro do debate político 72 anos após sua morte

Setenta e dois anos após a tragédia no Palácio do Catete, a figura do ex-presidente Getúlio Vargas voltou a ocupar o debate político nacional. No discurso que oficializou sua candidatura à reeleição, em 2 de agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva citou Vargas repetidas vezes, estabelecendo uma comparação direta entre os ciclos de desenvolvimento do país.

Segundo a avaliação de Lula, a história brasileira registra apenas dois grandes momentos de inclusão social: a era Vargas e os governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores. “Vocês vão perceber que tem dois momentos importantes de inclusão social nesse país: o primeiro, do Dr. Getúlio Vargas, que não era operário, era um fazendeiro. Com a criação do salário mínimo em 1936, tirou o povo da botina para o salário. Depois, em 1943, com a criação da CLT, que tirou o povo da semiescravidão, que deu direito, deu jornada de trabalho, deu férias, deu um monte de coisa para nós, que hoje muita gente acha ruim: ‘ah, a CLT é ruim, é tudo coisa velha’. Procura uma coisa mais nova. Procure”, afirmou Lula na convenção partidária, em São Paulo.

A manifestação não representa um fato isolado. Está inserida em um movimento mais amplo de reavaliação histórica da trajetória de Vargas. A data desta segunda-feira (24) marca mais um aniversário do suicídio do líder gaúcho e recoloca em pauta a figura que combinou a garantia de direitos trabalhistas, a consolidação da infraestrutura industrial e a afirmação da soberania nacional; pagando com a própria vida ao tentar aprofundar essas reformas.

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A releitura do PCdoB desde 2009

O registro formal dessa reinterpretação no âmbito do PCdoB está consolidado no Programa Socialista para o Brasil, aprovado durante o 12º Congresso da legenda, em novembro de 2009. O documento pontua que o movimento de 1930 derrubou a República Velha, dominada pelas oligarquias agrárias, e abriu uma nova etapa na vida nacional. O texto registra que aquela transformação introduziu o país no século XX ao instituir o voto feminino, criar o salário mínimo, a Consolidação das Leis do Trabalho e a seguridade social, tornando o período entre 1930 e 1980 a fase mais expansiva do desenvolvimento brasileiro.

A formulação política, contudo, reconhece os limites democráticos daquele período histórico e a manutenção da estrutura latifundiária, mas ressalta como conquistas estratégicas fundamentais a criação da siderurgia nacional, da Petrobras, do BNDE e do monopólio estatal sobre o petróleo.

A análise do partido diferencia a dimensão econômica, considerada altamente positiva e estruturante, das restrições no campo das liberdades democráticas. Quando o governo Vargas buscou articular o desenvolvimento com maior participação popular, entre 1953 e 1954, acabou acossado pelo golpe e levado ao gesto extremo.

Nos últimos anos, dirigentes e intelectuais ligados à Fundação Maurício Grabois aprofundaram esse debate. Em 2024, ao resgatar os 70 anos da morte do ex-presidente, análises veiculadas pela fundação repassaram as diferentes fases do relacionamento entre comunistas e varguistas – desde a oposição inicial nos anos 1930 até o apoio tático na Segunda Guerra Mundial e o posterior alinhamento em defesa das pautas nacionais. Em 2025, novas elaborações teóricas examinaram o papel do capitalismo de Estado no projeto nacional-desenvolvimentista, situando Getúlio como formulador de uma concepção que integrava soberania econômica, centralidade do mundo do trabalho e democratização do consumo.

A Carta-Testamento e a crise de 1954

Os acontecimentos que culminaram na crise de 1954 permanecem vivos na memória política. Cercado por forte pressão militar, campanhas ostensivas da oposição e denúncias veiculadas após o atentado da Rua Tonelero, Getúlio Vargas redigiu a Carta-Testamento. O documento, encontrado no Palácio do Catete no dia 24 de agosto de 1954, denunciou a aliança entre interesses estrangeiros e setores locais contra as garantias trabalhistas, a constituição da Petrobras e da Eletrobrás e a recomposição do salário mínimo:

“Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. […] Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. […] Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. […] Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”

Comparações que atravessam o tempo

Guardadas as diferenças de momento histórico, Vargas atuava em um Brasil essencialmente agrário, enquanto as disputas atuais ocorrem em uma economia urbanizada e inserida na geopolítica global, o debate sobre o legado varguista mantém forte correspondência com os desafios contemporâneos. A defesa da industrialização, o papel indutor do Estado e a preservação dos direitos sociais continuam no centro da disputa sobre os rumos do desenvolvimento brasileiro.

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