Cecília Pellegrini era bússola do encontro, como o Peabiru

Onde começam as lendas e os mitos? Certamente não nas páginas frias dos documentos. As lendas começam quando uma pessoa deixa de ser apenas um corpo, uma fala isolada, e se funde com o chão onde pisa, com a comunidade, com a música e a mata. Cecília Pellegrini era assim: grande, vasta, do tamanho do próprio Caminho do Peabiru, sempre abrindo veredas e promovendo encontros.

Quem a conhecia, sabia: Cecília nunca andava só. Carregava consigo uma multidão, uma energia inesgotável e convicções amadurecidas com a vida. Fosse para tocar nas manifestações de rua, para preparar uma comida para quem cruzasse a sua porta, pegar na enxada sob o sol de domingo ou marcar presença firme nas plenárias e fóruns populares do Butantã e da cidade. Para Cecília, militância e afeto exigiam corpo presente. Participar era estar lá, olho no olho; uma mensagem na tela do celular era pouco.

Com uma trajetória marcada pela transgressão sutil, cursou Engenharia Eletrônica e se aposentou como analista de sistemas na Prodesp. Mas a sua verdadeira matemática se traduziu na ciência da cultura e do território. Essa história ganhou ritmo ainda nos anos 1970, quando conheceu Mestre Dinho Nascimento. Ele, recém-chegado da Bahia, imerso no samba, na capoeira e nas artes com o grupo musical Arembepe. Se encontraram na Barra Funda, no espaço de Capoeira Capitães de Areia, dirigido pelo mestre Almir (Anande) Areias. Era uma das poucas mulheres a fazer capoeira nos anos 70 em São Paulo. Ali foi selado um encontro de vida, afeto e resistência.

Quando nasceu o primeiro filho, Aluá, o apartamento no Caxingui, Butantã, onde moravam, ficou pequeno para tanta musicalidade, amigos e celebração. Foi no Morro do Querosene, nos anos 80, que encontraram o melhor quintal para seus afetos, espaço de respiro brincante e vocação comunitária. Lá, no meio do tecido urbano, a casa deles virou extensão do bairro.

A partir desse chão, Cecília e Mestre Dinho dedicaram a vida a desvendar os segredos da área verde do território, a Chácara da Fonte, na Vila Pirajussara, o Morro do Querosene. Hoje Parque da Fonte do Peabiru, ela também enxergou aquele espaço como uma missão da sua caminhada. Percebeu que era muito mais do que um olho d’água. Viu ali a coexistência do cerrado, do mangue e da Mata Atlântica; percebeu a presença de uma trilha ancestral milenar que conectava Guaranis aos Incas, a rota do sol entre Machu Picchu e São Vicente.

Essa ancestralidade viva do caminho do Peabiru, chama atenção de Cecília, sempre ativa nas ações da Associação Cultural Morro do Querosene. Cecília mantinha um profundo respeito pelos saberes originários — a ponto de adotar a denominação Abya Yala para o nosso continente, recusando a geografia imposta pelos colonizadores. Trouxe intelectuais, realizou seminários, somou forças com movimentos de toda a São Paulo e articulou o saber acadêmico com a cultura e a sabedoria popular.

Constituir essa área como parque foi uma luta de décadas. Complexa, jurídica, comunitária e muito suada. Em 2011, veio a desapropriação da área. No ano seguinte, o tombamento pelo Conpresp*. Em 2014, mais uma vitória: a classificação como ZEPAM (Zona Especial de Proteção Ambiental) pelo Plano Diretor. Hoje, o parque está classificado como em “processo de implantação”. Mas não qualquer parque.

Para Cecília, não se trata de um projeto que sai das pranchetas de arquitetos de quem nunca pôs o pé em seu barro, mas sim de um espaço vivo e gestado pela própria comunidade. Um parque em permanente diálogo com os desejos e cuidados de quem o frequenta, onde as crianças definem livremente onde brincar, e os moradores, onde compostar, plantar e regenerar. Um projeto que se faz caminhando e respeitando sua história.

Nos mutirões de saneamento promovidos aos domingos, lá estava Cecília, aprendendo, fazendo e ensinando nas lições de saneamento no solo, com a implantação de um projeto de evapotranspiração. Assim como cuidado com água, com as quatro nascentes da pequena floresta. De muita importância não só para o Morro, mas para a cidade e o planeta.

Outra luta que encampou com todas as forças foi contra a especulação imobiliária, com movimento “Arranha céu no morro, Não”, contra a construção de prédios em uma área de nascentes. A obra se encontra embargada. Cecília e Mestre Dinho não se limitavam ao Butantã, estiveram presentes em todas as principais lutas da cidade pela preservação do verde.

Para ela, a arte e a cultura nunca foram adereços, mas a própria cola que une as pessoas. Sua força não se apagará; permanece semeada no Morro do Querosene, no Parque da Fonte e na vida de todos que aprenderam com ela que o território é um corpo vivo que exige cuidado, presença e celebração.

Cecília Pellegrini deixa o companheiro Mestre Dinho Nascimento e os filhos Aluá Pellegrini do Nascimento, Gabriel Pellegrini do Nascimento Nascimento, João Pellegrini do Nascimento e Ana Tainá Pellegrini do Nascimento.

Fabíola Lago é jornalista e membro da coordenação da Rede Ambiental Butantã (RAB)

• Conpresp – Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo
• Abya Yala, originalmente, é uma expressão do povo indígena Okuna, etnia indígena da região entre a Colômbia e o Panamá e significa terra madura, terra viva.

 

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