Nunca as informações foram tão amplamente disseminadas. Há informação para todos os gostos: a correta, a parcial, a mentirosa, a que visa influenciar, a que visa passar pano. O grande desafio é aprender a montar o xadrez.
Suponhamos que Sherlock Holmes descesse dos ares e passasse a investigar o comportamento do ministro André Mendonça.
Primeiro, mergulharia no vasto lamaçal divulgado pela imprensa e exercitaria sua arma predileta: o raciocínio, a capacidade de ligar peças aparentemente desconexas. E trabalharia em cima da brecha que foi criada para eventuais pagamentos a Mendonça: o ITER,
Peça 1 – a criação do ITER
O ITER foi criado em 2024 e, posteriormente, transformado em S.A. de capital fechado.
Segundo registros da Junta Comercial citados pela Folha, os principais acionistas eram André Mendonça e sua mulher, por intermédio de outra empresa pertencente ao casal. Também aparece como acionista Victor Godoy Veiga, ex-ministro da Educação no governo Bolsonaro, além de outros três sócios. Godoy tornou-se diretor-presidente do Iter.
Mendonça já estava no Supremo desde dezembro de 2021.
O caso ganhou uma dimensão maior em 2026 porque apareceram três questões simultâneas: a participação societária do ministro, contratos milionários (sobretudo com entes públicos) e um tratamento excepcionalmente rápido do MEC para autorizar uma pós-graduação.
Peça 2 – o crescimento rápido
Esse é provavelmente o melhor veio para uma investigação.
Um levantamento originalmente feito pelo Estadão, reproduzido posteriormente por outros veículos, identificou pelo menos R$ 4,8 milhões arrecadados pelo Iter entre maio de 2024 e outubro de 2025, sendo a maior parte proveniente de contratos com instituições públicas.
Esse número já ficou defasado.
Uma base que atualmente consolida dados da Receita e do PNCP registra, até 20 de agosto de 2026, 65 contratos públicos e aproximadamente R$ 11,1 milhões em valores contratados pelo Iter. Ou seja: em menos de três anos de existência, a empresa saiu do zero para uma carteira pública potencial superior a R$ 11 milhões.
Há pelo menos um contrato particularmente expressivo: o Cioeste — Consórcio Intermunicipal da Região Oeste Metropolitana de São Paulo — pagou R$ 1.228.665,78 ao Iter. Segundo o instituto, tratava-se de um programa de capacitação continuada com duração de um ano. Anote o nome.
Os preços privados também são altos. A Folha registrou, por exemplo, o curso de Mendonça “A Arte e a Ciência da Oratória”, cujo pacote de encontros chegou a ser vendido por R$ 22,5 mil. Outros cursos mencionados eram “Litigância Abusiva e Predatória”, por R$ 3.400, e “Construindo Precedentes: o domínio dos Recursos Especiais”, por R$ 2.800.
Peça 3 – o contrato com Cláudio Castro
Um dos contratos que chamam atenção foi com a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro, na gestão Cláudio Castro. O então governador do Rio de Janeiro estava sendo julgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do qual Mendonça participa.
Em 29/05/2025, o governo Castro autoriza a contratação da empresa fundada por André Mendonça.
Em 04/11/2025, começa no TSE o julgamento que poderia cassar Castro.
Nesse primeiro julgamento, Isabel Gallotti vota pela cassação; Antonio Carlos Ferreira pede vista.
Em 21/01/2026, aparece no Diário Oficial a autorização para a contratação do Iter, datada de maio de 2025.
Em março de 2026, o julgamento retorna e sofre novo pedido de vista, desta vez de Nunes Marques.
Em 24/03/2026, Mendonça participa do julgamento e entende que Castro não deveria receber a sanção de inelegibilidade, apesar de reconhecer abuso suficiente para cassação do mandato. Foi um dos dois votos favoráveis a Castro — o outro, de Kassio Nunes Marques.
Em 10/04/2026, apenas 17 dias depois desse julgamento, é finalmente assinado o contrato de R$ 518 mil com o Iter.
Por que uma autorização de contratação direta de R$ 518 mil, datada de maio de 2025, ficou sem publicação aparente por quase oito meses?
Quando Mendonça votou a favor de Castro em 24/03/2026, ele já era o relator do Master havia mais de um mês.