O governo interino da Venezuela e a oposição iniciaram negociações para definir os rumos políticos do país sem incluir na pauta a libertação do ex-mandatário Nicolás Maduro, de acordo com informações jornal britânico Financial Times. A rodada de conversas é conduzida pela líder interina Delcy Rodríguez, que assumiu o comando do Executivo no início do ano.
Ao longo de duas semanas, representantes do governo e da oposição realizaram cinco encontros. O objetivo central foi estruturar as condições necessárias para a realização de uma nova eleição presidencial no país. Embora ainda não exista um acordo definitivo sobre a data do pleito, os dois lados concentraram esforços na captação de recursos para a recuperação nacional após os terremotos devastadores de junho, que deixaram mais de 6 mil mortos, e no início das discussões para uma reforma no sistema judiciário.
Prisão nos Estados Unidos e acusações
Nicolás Maduro e a esposa, Cilia Flores, seguem detidos em uma prisão federal em Nova York desde janeiro, quando foram capturados por Forças Especiais dos EUA durante uma operação noturna em Caracas. O ex-presidente responde a acusações de narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína e posse ilegal de metralhadoras. O casal nega as acusações e se declara inocente.
O governo norte-americano deixou de reconhecer a legitimidade da gestão de Maduro em 2019, sob a justificativa de fraudes nos pleitos de 2018 e 2024 e pela crise econômica enfrentada pelo país sul-americano.
Transição interna e mudança de tom
Paralelamente às negociações, o aparato estatal da Venezuela passou a modificar a forma como se refere a Delcy Rodríguez. Publicações do Ministério da Comunicação e Informação, assim como declarações da chancelaria e de aliados do regime, como o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, deixaram de utilizar o termo “presidenta interina” e adotaram apenas “presidenta”.
A mudança do discurso oficial reflete maior aceitação interna sobre a permanência de Rodríguez no cargo. As manifestações públicas que pediam o retorno e a soltura de Maduro, frequentes nos primeiros meses do ano, perderam força na agenda política do governo venezuelano.