
Cartas pessoais de Natalie Harp, uma das assessoras mais próximas de Donald Trump, foram divulgadas integralmente pela primeira vez e revelam o grau de devoção da funcionária ao presidente dos Estados Unidos. Em uma das mensagens, Harp afirma que Trump é “tudo o que importa” para ela e diz considerar-se “indigna” dele.
“Você é tudo o que importa para mim. Não quero jamais decepcioná-lo”, escreveu Harp em uma das cartas, segundo o The Daily Beast.
A divulgação ocorre em meio a questionamentos sobre o papel de Harp, de 35 anos, como uma das principais pessoas que controlam o acesso a Trump, de 80 anos. Ela teria se tornado uma espécie de “gatekeeper”, filtrando quem consegue chegar ao presidente e, segundo relatos, até mesmo servindo como canal de comunicação entre Trump e líderes estrangeiros.
David Axelrod, ex-assessor sênior de Barack Obama, classificou a situação como uma questão de extrema gravidade.
“Quero esse emprego!”
As cartas foram escritas em 2023, durante ou logo depois de uma viagem de Trump à Escócia e à Irlanda. Na época, Harp tinha 31 anos e Trump, 76.
Os textos revelam uma relação de intensa admiração e dependência emocional por parte da assessora. Em determinado trecho, Harp afirma sentir inveja de mulheres que, segundo ela, aparentemente tinham como única função “conversar com você e ficar bonitas”.
“Eu quero esse emprego!”, escreveu.
Ela também diz sentir falta da época em que Trump telefonava para conversar sobre assuntos pessoais.
“Não deveríamos ter que falar de trabalho o tempo todo!”, escreveu Harp.
A assessora se refere a si mesma pelo apelido atribuído a ela por integrantes da equipe de Trump: “Human Printer” (“Impressora Humana”). O apelido teria surgido porque ela imprimia notícias e relatórios favoráveis ao presidente e os levava até ele.

Cartas surgiram em meio a preocupação de integrantes da campanha
As duas cartas foram entregues ao escritor Michael Wolff enquanto ele produzia o livro All or Nothing, sobre a campanha presidencial de Trump em 2024. Trechos já haviam sido publicados anteriormente, mas o Daily Beast agora divulgou o conteúdo de forma mais extensa.
Wolff afirmou que recebeu os documentos de fontes ligadas à campanha de Trump que estavam preocupadas com a crescente proximidade entre Harp e o presidente.
“A relação aqui não é uma relação que deveria existir em um ambiente profissional”, disse o escritor.
Segundo Wolff, as cartas teriam sido encontradas por integrantes da equipe entre os inúmeros documentos impressos que Harp entregava a Trump. Os funcionários teriam fotografado os textos, que posteriormente circularam entre membros da campanha.
Wolff afirmou ainda que havia uma espécie de “revolta” entre assessores na época.
Segundo ele, integrantes da equipe acreditavam que Trump estava passando tempo demais com Harp e que a influência dela sobre o presidente estava crescendo apesar de sua pouca experiência política.
A Casa Branca, por meio do porta-voz Davis Ingle, defendeu Harp e atacou o Daily Beast, classificando a publicação como parte de ataques da imprensa contra Trump.
Harp acompanhou Trump em fuga durante viagem à Turquia
As revelações ganharam peso adicional porque Harp aparece entre as pessoas que estavam próximas de Trump durante um episódio extraordinário ocorrido na Turquia.
Segundo o relato, quando Trump deixou o Air Force One em meio a uma operação de segurança relacionada a uma suposta ameaça iraniana, ele teria embarcado em um caminhão de catering enquanto funcionários, jornalistas e até o secretário de Estado Marco Rubio permaneceram no avião como possíveis “iscas”.
Trump teria então viajado em uma aeronave secreta para evitar uma possível tentativa de ataque contra o avião presidencial.
Harp estava entre o pequeno grupo que acompanhou o presidente.
A newly resurfaced video shows Trump sitting next to his aide Natalie Harp as she types his Truth Social posts while he dictates them.
Serious question: Who’s typing Trump’s 1 a.m. posts? Is he doing it himself, or is Natalie there too? pic.twitter.com/MMuQxWhaPN
— Republicans against Trump (@RpsAgainstTrump) August 20, 2026
Assessora teria acesso ao Truth Social
Harp recebe cerca de US$ 150 mil por ano como assessora especial e assistente executiva do presidente. Ela trabalha nas proximidades do Salão Oval e, segundo o Daily Beast, passou a ser conhecida internamente como uma das principais responsáveis por controlar o acesso a Trump.
Também surgiu a informação de que ela teria acesso à conta de Trump no Truth Social.
Os textos produzidos por Harp apresentariam, inclusive, características semelhantes às publicações de Trump nas redes sociais, incluindo uso irregular de letras maiúsculas e construções gramaticais pouco convencionais.
Outro ponto levantado é que Harp teria passado cerca de um ano sem realizar uma verificação de antecedentes, apesar da posição privilegiada que ocupa na Casa Branca.
“Meu Guardião e Protetor”
Uma das cartas foi escrita como um pedido de desculpas. Harp relata que entrou em pânico durante a viagem depois de perceber que estava sozinha em uma van, sem o passaporte, e afirma que deveria ter procurado o Serviço Secreto em vez de ligar para Trump.
Ela também se desculpa por ter caminhado pelo campo de golfe em vez de permanecer em um carrinho e pede perdão caso tenha causado qualquer problema.
“Quero que tudo esteja sempre bem entre nós”, escreveu.
Harp afirma ainda que estava dormindo pouco, esquecendo-se de comer e começando a sofrer com o desgaste do trabalho.
Ela diz que comentários de outras pessoas a afetavam porque tinha medo de “ser diminuída” aos olhos de Trump.
“Eu nunca quero trazer a você nada além de alegria”, escreveu.
Em seguida, agradece ao presidente por ser seu “Guardião e Protetor nesta vida”.
“Eu sou a indigna”
Na segunda carta, Harp agradece a Trump por tê-la obrigado a se desconectar do trabalho durante a viagem.
Ela conta que gostou de passar tempo no campo de golfe com o presidente e de poder conversar com ele sem a pressão constante dos equipamentos e das tarefas.
Harp diz que, naquele momento, pôde deixar de ser a “Human Printer” e aproveitar conversas e caminhadas.
Ela também admite estar começando a invejar pessoas que pareciam ter como única função conversar com Trump e estar ao lado dele.
“Eu quero esse emprego!”, repete.
Em outro trecho, afirma que seu objetivo era fazer Trump sentir orgulho dela.
“E, por favor, quando eu falhar, você me contará?”, escreveu. “Você tem todo o direito de me repreender, se necessário, quando eu merecer.”
Ao agradecer pelo relacionamento entre os dois, Harp escreve que Trump foi uma figura fundamental em sua vida.
Em uma das passagens mais pessoais, afirma:
“Eu não poderia ter me separado de você em favor de alguém menos digno — e acrescentarei: sou eu quem é indigna.”
Uma das cartas termina com a assinatura: “Com todo o meu coração, Natalie.”
A outra termina simplesmente com: “Sempre, Natalie.”
Como Harp se aproximou de Trump
Harp cresceu na Califórnia e chamou a atenção de Trump depois de participar do Fox News em 2019. Na ocasião, ela atribuiu a uma legislação assinada pelo então presidente em2018 parte de sua recuperação de um câncer ósseo.
Especialistas posteriormente questionaram se a legislação poderia realmente ter produzido o efeito descrito por Harp, considerando a cronologia pública de sua doença.
Ela discursou na Convenção Nacional Republicana de 2020 e participou da campanha de Trump naquele ano. Depois, trabalhou na One America News Network (OAN) até 2022, quando entrou para a equipe de Trump como assessora.
Foi durante a viagem de maio de 2023 à Escócia e à Irlanda que Harp escreveu as cartas agora divulgadas. Ela acompanhou Trump durante sua passagem pelos três campos de golfe do empresário.
Em um dos textos, ela também menciona cicatrizes nas mãos e diz que o frio teria deixado marcas antigas arroxeadas.
Família e relação com o presidente
O irmão de Harp, Preston, que está afastado dela, afirmou à CNN acreditar que a irmã desenvolveu uma “obsessão doentia” por Trump.
O pai de Harp, Robert, morreu em 2020. Nas cartas, ela conta que Trump fez uma promessa a ela após a morte do pai e afirma que ele estaria feliz por ela ter conseguido viajar para a Escócia e a Irlanda, um desejo que ela atribuía ao pai.
A história de Harp agora ganha uma dimensão política e institucional maior. Além do conteúdo das cartas, as revelações colocam sob escrutínio o acesso privilegiado que ela teria ao presidente, sua influência sobre a rotina de Trump e seu suposto papel como intermediária entre o presidente e pessoas que tentam chegar até ele.