Como a China barrou o projeto de espionagem de Zuckerberg com a IA da Manus. Por Sara Vivacqua

O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, durante evento da empresa na Califórnia (EUA). Foto:

A Meta, de Mark Zuckerberg, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, viu-se nesta segunda-feira (27) frustrada na sua tentativa de apropriação de tecnologia de inteligência artificial chinesa.

A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC), o órgão de planejamento estatal da China responsável por revisar a segurança de investimentos estrangeiros, ordenou hoje o cancelamento da aquisição da startup de inteligência artificial Manus e obrigou a Meta a desfazer a compra de US$ 2,5 bilhões por descumprimento das suas regulações.

A Manus não é um simples chatGPT que entrega respostas textuais. Trata-se de um agente de IA autônomo — um sistema que recebe uma tarefa relativamente ampla e é capaz de executar múltiplas ações sequenciais de forma autônoma: pesquisar, abrir páginas, extrair dados, organizar informações, redigir, criar arquivos, gerar código, testar, revisar e entregar resultados completos.

A Manus pode inclusive atuar no seu próprio navegador local, com seus logins, sessões e IP local. Isso permite executar tarefas em plataformas autenticadas — CRMs, serviços pagos ou sistemas empresariais que normalmente bloqueariam automações vindas de servidores externos.

A Manus foi lançada em 6 de março de 2025 pela Butterfly Effect Pte Ltd e se apresentou como capaz de superar o desempenho de ferramentas como o Deep Research da OpenAI.

A chamada “Democratização da Tecnologia”

Versões iniciais da Manus foram criadas por engenheiros da Beijing Butterfly Effect Technology, que o fundador Xiao Hong estabeleceu em 2022, e muitas das principais pessoas da empresa, incluindo Xiao, são cidadãos chineses. Em seus estágios de desenvolvimento, a Butterfly Effect recebeu apoio do governo chinês, como aluguel subsidiado para seus escritórios, e se beneficiou do grande grupo de engenheiros acessíveis de Wuhan.
Em julho de 2025, a startup demitiu a maioria de sua equipe em Pequim e mudou sua sede para Singapura em junho, no que qualificou de “expansão global’.

Não está claro se isso seria uma manobra para contornar a jurisdição chinesa. No entanto, o que está claro é que essa estratégia falhou. E de fato, onde uma empresa constrói seu produto importa mais do que onde sua holding está registrada. Em casos como o da Manus, desenvolver tecnologia na China antes de transferir ativos para uma entidade offshore através de reestruturação é uma bandeira vermelha.

A decisão contra a Meta é juridicamente relevante e define um marco legal preciso. Pequim deixou claro que uma startup que desenvolveu tecnologia em solo chinês, com engenheiros chineses, financiamento chinês inicial e subsídios estatais, não escapa da jurisdição chinesa apenas porque formalmente se reorganizou em Singapura.
Grande parte da imprensa americana e europeia reportou o bloqueio da operação como uma ação “arbitrária”, ou até mesmo “autoritária” do governo chinês. No entanto, a China tem uma política de Estado clara e consistente e uma arquitetura regulatória que trata tecnologia como questão de soberania digital, controle de dados, segurança nacional, cibersegurança, propriedade intelectual, controle de exportação e investimento estrangeiro.7

A base jurídica formal começa pela Lei de Investimento Estrangeiro chinesa, que adota o sistema de “tratamento nacional pré-estabelecimento + lista negativa”. A lista prevê que autoridades competentes devem recusar licenças, registros empresariais ou outras aprovações quando investidores estrangeiros tentarem investir em setores cobertos pela lista negativa sem cumprir suas condições.

O Brasil deveria ter políticas de soberania tecnológica, mas o debate ainda parece completamente insípido e superficial.

A China está exercendo o mesmo tipo de controle sobre tecnologias estratégicas que os Estados Unidos exercem através do Committee on Foreign Investment in the United States (CFIUS), que bloqueou dezenas de aquisições chinesas por motivos de “segurança nacional”.

Pessoa usando a IA Manus. Foto: Divulgação

A Meta e o colonialismo digital

A Meta não é apenas uma empresa de mídia social — nunca foi. Tem uma longa história documentada de interferência política em eleições em diversos países do mundo e sua ligação íntima como prestadora de serviços ao estado americano na área militar e de supervigilância em massa.

Em 22 de setembro de 2025, a GSA (General Services Administration), órgão central de compras e serviços do governo federal dos EUA, anunciou uma iniciativa OneGov com a Meta para facilitar o uso governamental dos seus modelos de IA Llama em todos os departamentos e agências federais.

A Llama tem sido usada para ajudar a desenvolver ferramentas avançadas de IA para as forças armadas e agências de segurança nacional dos EUA. Portando qual seria o teor de participação da Meta e outras empresas privadas na politica de limpeza racial do ICE e nas guerras americanas?

A Meta também assinou um contrato militar em parceria com a Anduril — uma empresa de tecnologia de defesa dos EUA de propriedade do fundador da Oculus, Palmer Luckey — para construir dispositivos de realidade estendida (XR) projetados para “fornecer aos combatentes percepção aprimorada”.

O que talvez seja o mais grave: desde o final do ano passado, a Meta também disponibilizou a Llama para casos de uso de segurança nacional para os parceiros de segurança Five Eyes da América — Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Reino Unido — e seus parceiros do setor privado.

O Five Eyes é a grande rede de espionagem e supervigilância destes 5 países, e extra-oficialmente com Israel. Dados são compartilhados entre os serviços secretos dos signatários.

A Meta inclusive anunciou que está expandindo esse acesso para diversos “aliados democráticos-chave dos EUA” na Europa e Ásia: França, Alemanha, Itália, Japão e Coreia do Sul, bem como instituições da OTAN e da União Europeia.

O escândalo da Cambridge Analytica

Não podemos esquecer do escândalo Cambridge Analytica/Steve Bannon. O Facebook compartilhou ilegalmente dados de até 87 milhões de usuários com a Cambridge Analytica. O app “This Is Your Digital Life” coletou dados de pelo menos 30 milhões de usuários, embora apenas 270.000 pessoas tenham baixado o app, através do acesso aos dados dos “amigos” do Facebook via plataforma Open Graph.

Esses dados foram utilizados não apenas para publicidade política comum, mas para extrair dados comportamentais em massa, inferir traços psicológicos e entregar mensagens políticas personalizadas a segmentos muito específicos do eleitorado, interferindo nas eleições de dezenas de países.

Após a divulgação da violação nos EUA, promotores brasileiros revelaram que estavam abrindo uma investigação sobre se a Cambridge Analytica também coletou indevidamente dados de milhões de usuários brasileiros da internet para serem usados nas eleições presidenciais de 2018.

Steve Bannon. Foto: Divulgação

O diretor-gerente de operações políticas da Cambridge Analytica disse num vídeo gravado pelo Channel 4 que “Fizemos isso no México, fizemos isso na Malásia, estamos agora nos mudando para o Brasil, Austrália, China”. A aliança entre Bannon e os Bolsonaros nunca foi segredo, e infere-se aqui a clara intenção de interferir nas eleições presidenciais que elegeram Bolsonaro.

Em 4 de janeiro de 2020, uma divulgação de mais de 100.000 documentos mostrou como a Cambridge Analytica trabalhou em 68 países, desenvolvendo uma infraestrutura global projetada para manipular eleitores em “escala industrial”. A divulgação dos documentos começou no Dia de Ano Novo de uma conta anônima do Twitter chamada @HindsightFiles, que publicou material sobre eleições na Malásia, Quênia e Brasil.
Interferência nas eleições

Em 2018, investigações ligaram a Cambridge Analytica à campanha presidencial de Trump de 2016, ao referendo do Brexit no Reino Unido e, de acordo com investigação do Channel 4 britânico e documentos divulgados posteriormente, à eleição de Bolsonaro no Brasil.

Uma investigação secreta do Channel 4 News revelou como a Cambridge Analytica fazia campanhas secretamente em eleições ao redor do mundo. O Parlamento britânico publicou relatório sobre desinformação e “fake news”, fortemente crítico ao papel do Facebook e à insuficiência do regime regulatório.

Em outras palavras, a Meta opera como braço de inteligência do Estado americano, fornecendo IA para uso militar, de segurança nacional e aliados da OTAN e Five Eyes. A empresa tem histórico comprovado de interferência eleitoral global

Por que então o estado Chinês deveria entregar a sua soberania a Zuckerberg e à Meta, tal como tem sido sugerido na grande midia?

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