O fim da médica negacionista que o bolsonarismo tratou como “futura ministra da saúde”

Maria Emília Gadelha Serra

No universo do bolsonarismo, uma regra bem conhecida é que, quando a crise se intensifica, os aliados se tornam um estorvo e são descartados sem piedade.

No setor da saúde, esse roteiro se repete no caso de Maria Emília Gadelha Serra, até pouco tempo considerada uma figura chave nas discussões sobre saúde dentro da extrema-direita. Bolsonarista radical, com o registro médico cassado e cercada por processos judiciais, Gadelha, assim como a ex-deputada Carla Zambelli, se viu descartada pela campanha de Flávio Bolsonaro.

A dentista Fernanda Antunes Bolsonaro, esposa de Flávio, tem grande influência nas decisões do marido, especialmente no campo da saúde. Foi ela quem convenceu Flávio a se afastar de negacionistas e médicos anti-vacina que tiveram um papel crucial nas desastrosas ações de Jair Bolsonaro durante a pandemia da Covid-19.

Entre as figuras “tóxicas” apontadas por Fernanda estão o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, o empresário Carlos Wizard, o empresário Júnior Durski (do Madero) e a própria Maria Emília Gadelha Serra.

Durante a pandemia, a ex-médica ganhou notoriedade no bolsonarismo mais radical ao defender práticas controversas e sem respaldo científico, tornando-se uma presença constante em círculos antivacina.

Gadelha atacou autoridades sanitárias e passou a defender tratamentos considerados charlatanismo, como o uso do ozônio por via retal para tratar uma série de doenças. Ela se aproximou rapidamente do núcleo mais ideológico do bolsonarismo, o “Gabinete Paralelo da Covid”, em que atuou contra a vacinação, medidas sanitárias e órgãos reguladores como a Anvisa.

Porém, a radicalização de Gadelha começou a gerar constrangimento até mesmo dentro do bolsonarismo, prejudicando a imagem do movimento e afastando votos da direita.

Além da notoriedade adquirida, Gadelha esteve envolvida em episódios que a tornaram conhecida pela prática de “medicina macabra”, como no caso dos adolescentes no Acre, cujos sintomas pós-vacinação contra o HPV foram usados por ela como “prova” de danos causados pela vacina. Esse episódio gerou grande desinformação, afetando diretamente a cobertura vacinal no estado, que registrou em 2025 a pior taxa de imunização contra o HPV do país.

Maria Emília Gadelha Serra em ato golpista na Paulista

A instrumentalização de Gadelha de um caso de saúde pública para sustentar uma agenda ideológica levou o Ministério Público a abrir uma investigação criminal por disseminação de informações falsas sobre vacinação. No entanto, foi durante a pandemia de Covid-19 que a reputação de Gadelha junto aos círculos mais próximos do bolsonarismo começou a ruir.

Segundo depoimentos na CPI da Covid e relatos de médicos ligados à Prevent Senior, Gadelha teria participado de tratamentos com ozonioterapia, incluindo a aplicação de ozônio retal em pacientes graves — práticas sem respaldo científico e que levaram a desfechos trágicos, como a morte da mãe do empresário Luciano Hang e do médico Anthony Wong.

Com o aumento da pressão interna e externa, Gadelha se tornou uma figura incômoda, cuja radicalização passou a ser vista como prejudicial para a narrativa de Flávio Bolsonaro “moderado”, afastando até seus antigos aliados. Além disso, ela se envolveu em uma série de processos ético-disciplinares que resultaram na cassação de seu registro profissional. Gadelha também enfrenta um inquérito no Ministério Público de São Paulo, que investiga sua responsabilidade em colocar em risco a saúde de terceiros.

A ex-médica agora reside em Portugal, país no qual afirma ter cidadania. Nas redes sociais, chegou a se gabar de seu passaporte português, sugerindo estar imune à justiça brasileira.

Gadelha segue tentando reverter a cassação e busca apoio para evitar uma condenação decorrente da ação criminal movida contra ela pela Promotoria de Justiça da Infância e da Juventude de São Paulo.

No entanto, como aconteceu com Carla Zambelli, seu destino pode estar nas mãos das instituições europeias, que têm a responsabilidade de fazer justiça e impedir que mais vidas sejam prejudicadas por sua atuação. A ex-médica, que foi descartada do bolsonarismo, agora se vê isolada, com um futuro incerto e uma carreira marcada por radicalismo, controvérsias e um desgaste político irreversível.

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