
O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, frequentemente culpa nações da América Latina pela crise das drogas que afeta seu país.
Um recente relatório do Departamento de Estado dos EUA descreveu o Primeiro Comando da Capital (PCC) como a “maior ameaça” à segurança nacional do Brasil, com a organização criminosa operando em pelo menos 22 estados brasileiros e 16 países ao redor do globo.
O documento também revela que o Brasil, com aproximadamente 215 milhões de habitantes, é o segundo maior consumidor de cocaína, perdendo apenas para os Estados Unidos.
Durante uma reunião com Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, autoridades americanas informaram que pretendem classificar o CV e o PCC como organizações terroristas, apesar da oposição do governo de Lula.
O Departamento de Estado argumenta que esses grupos movimentam grandes quantias de dinheiro através de lavagem e que essa nova classificação facilitará a intensificação da pressão financeira sobre eles.
Essa é uma justificativa fraca para uma intervenção. A demanda por narcóticos nos EUA é o principal motor dessa indústria. As autoridades brasileiras têm trabalhado para interceptar grandes cargas de cocaína destinadas aos Estados Unidos, África e Europa.
Somente em 2020, a Polícia Federal do Brasil apreendeu mais de 21 toneladas de cocaína, muitas das quais tinham como destino os mercados internacionais, incluindo o americano.
O mercado de drogas nos EUA é um dos mais significativos do mundo. A crise dos opioides, que resultou em mais de 72 mil mortes por overdose de opioides sintéticos, como o fentanil, em 2017, exemplifica como a demanda interna alimenta o tráfico internacional.
Segundo dados do Departamento de Saúde dos EUA, em 2020, mais de 100 mil pessoas faleceram por overdose de drogas no país, com o fentanil, principalmente proveniente de cartéis mexicanos, sendo o principal culpado. A produção de fentanil, um opioide sintético até 50 vezes mais potente do que a heroína, é barata e fácil de produzir, tornando o negócio extremamente rentável para os cartéis.
Esses grupos, adaptando-se rapidamente à demanda do mercado americano, distribuem milhões de doses anualmente, agravando a crise.
A abordagem do governo Trump para combater o tráfico de drogas tem se concentrado principalmente na oferta, com um aumento nas operações militares e ataques aéreos contra embarcações suspeitas no Caribe e no Pacífico. Embora essas ações possam parecer uma solução temporária, não abordam a verdadeira raiz do problema — o consumo dentro dos próprios Estados Unidos.
A ênfase do governo dos EUA desconsidera os fatores estruturais que contribuem para o consumo no país. A pobreza extrema, a falta de acesso a serviços de saúde mental adequados e a pressão social são algumas das principais causas que levam os americanos a se tornarem dependentes.
Em uma análise sobre o tráfico de drogas, o escritor e jornalista Zachary Siegel observou que “os EUA são incapazes de lidar com a crueldade econômica que mantém as pessoas presas ao uso perigoso de substâncias”, ressaltando que a solução não está em atacar a oferta, mas em abordar as vulnerabilidades internas do país.
A verdadeira solução para a crise das drogas envolve investir em tratamentos para dependência química, regulamentar de forma mais rigorosa a indústria farmacêutica e implementar políticas sociais que abordem as causas profundas do vício. É uma sociedade adoecida, com um líder que terceiriza a responsabilidade pela doença.
Enquanto os EUA não estiverem dispostos a reconhecer sua própria responsabilidade nesse ciclo de consumo e violência, suas críticas à América Latina servirão apenas como uma distração conveniente de uma verdade desconfortável.