Sakamoto: Mulheres de São Paulo clamam por segurança enquanto Tarcísio propõe uma Times Square

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) falando para a câmera
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) – Reprodução

Quando um mandatário dos Estados Unidos falha em apresentar resultados econômicos, costuma provocar um conflito em algum lugar. De forma semelhante, o governo paulista, confrontado com cifras alarmantes de feminicídios e estupros, propõe a instalação de telões de LED para criar uma versão da Times Square. Cada povo recebe a distração que merece.

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) assumiu a responsabilidade por um projeto da administração de Ricardo Nunes (MDB), já aprovado pela Câmara Municipal, que visa transformar um trecho da Avenida São João em uma cópia do conhecido cruzamento da Midtown de Manhattan, famoso por seus telões e pela sobrecarga de informações visuais. Existem aqueles que pedem apoio, enquanto outros simplesmente aproveitam as iniciativas de quem os apoia.

Ironicamente, enquanto festeja nas redes sociais que a proposta de telões gigantes pretende atrair “mais pessoas para as ruas, mais comércio e mais vida no centro”, ele afasta famílias e pequenos empreendimentos que já estão estabelecidos na área, com seu plano de transferir secretarias e a sede do governo estadual para a região dos Campos Elíseos.

Além disso, é importante notar que a remoção da Secretaria de Educação da Praça da República ou da Secretaria da Fazenda da Avenida Rangel Pestana, por exemplo, poderá gerar complicações para o comércio e a vida nessas localidades, que dependem do fluxo intenso proporcionado por esses órgãos estaduais. Descobre-se um santo para encobrir compromissos políticos.

Existem diversas maneiras de aprimorar a área central da cidade. A experiência global demonstra que fomentar a ocupação por trabalhadores e suas famílias é sempre a mais eficaz, pois assegura que o espaço permaneça ativo tanto durante o dia quanto à noite. Contudo, a nova estratégia do governo vai na direção oposta, promovendo a gentrificação e favorecendo a especulação imobiliária.

É importante destacar que simplesmente trazer shows e eventos para um local não equivale a revitalização, como o insucesso da concessão do Anhangabaú evidencia.

O governador tem plena liberdade para promover qualquer tipo de distração, especialmente considerando que está em campanha pela reeleição. O que impressiona é uma parte da sociedade aceitar isso sem questionamentos. A proposta de criar uma Times Square, além de servir como um ataque à Lei Cidade Limpa, uma conquista civilizatória, não representa uma demanda genuína, ao contrário da segurança pública.

Dados divulgados pelo próprio governo estadual no final do mês passado indicam que São Paulo registrou 56 feminicídios nos dois primeiros meses do ano, um aumento de 33% em comparação ao mesmo período de 2025. Esse é o maior número desde 2018, quando se iniciou a série histórica.

Um dos casos envolveu a soldado Gisele Alves Santana, encontrada morta em seu apartamento no Brás, em fevereiro. O tenente-coronel da Polícia Militar, Geraldo Leite Rosa Neto, está detido, acusado do crime, e se tornou réu por feminicídio e fraude processual.

Os casos de estupro também aumentaram, passando de 243 em fevereiro de 2025 para 256 no mesmo mês deste ano.

Em um estado onde as mulheres continuam a ser alvos de violência em números crescentes, direcionar energia política e recursos simbólicos para projetos de caráter visual parece um desvio de atenção.

A cidade não necessita de uma cópia de outra para ser dinâmica; precisa ser segura, habitável e inclusiva para todos os que já estão lá. Caso contrário, o espetáculo dos telões pode apenas iluminar, com ainda mais intensidade, aquilo que se insiste em ignorar.

Publicado originalmente no UOL

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