Uma Década Depois: A Esquerda e a Dificuldade em Compreender o Golpe

O texto que aborda o décimo aniversário do golpe de 2016, E assim se passaram 10 anos, escrito por Denise Assis e divulgado no Brasil 247 neste sábado (18), consegue não mencionar os principais protagonistas do golpe: os Estados Unidos e o Supremo Tribunal Federal, mesmo com a famosa frase de Romero Jucá: “com Supremo, com tudo”.

A autora começa afirmando que “‘Impeachment sem crime é golpe’. A palavra de ordem criada durante o movimento de resistência à destituição da presidente Dilma Rousseff ainda permanece relevante.”, complementando que “despeito do que foi publicado pela Folha de São Paulo, no dia 16 de abril de 2026, ao relembrar a votação que iniciou o processo de sua destituição, que ocorreu em 17 de abril de 2016, efetivamente houve golpe”.

No mesmo parágrafo, Denise Assis refuta uma matéria de Julia Arrguy, publicada na Folha de S. Paulo, que afirma que no PT “predomina o argumento de que a ex-presidente foi alvo de um golpe em decorrência da conjuntura política”. Enquanto Assis afirma que o golpe “de acordo com a Lei, assim ficou registrado”. Contudo, quem precisa da avaliação da Folha, ou do respaldo da Lei, se tanto o Legislativo quanto o Judiciário estiveram envolvidos no golpe?

A jornalista menciona que elaborou uma dissertação de mestrado sobre a atuação da Folha e de O Globo, que desempenharam um papel na construção de uma narrativa que deslegitimou o governo. Ela recorda que, em 26 de março de 2022, “seis anos após sua destituição, a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) foi inocentada pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região”, mas o dano já havia sido causado. O vice golpista, Michel Temer, rapidamente implementou o teto de gastos e desmantelou a Previdência e os direitos trabalhistas, levando o Brasil de volta ao mapa da fome. A presidenta nunca retornou ao seu cargo.

Denise Assis critica a reportagem da Folha, que afirma de maneira cínica que “pouco se discute dentro do PT sobre economia quando o tema é o impeachment de Dilma Rousseff, cassada em 2016 pelas chamadas pedaladas fiscais”. É de conhecimento geral que não houve as referidas “pedaladas fiscais”. Entretanto, o golpe contra Dilma teve, de fato, motivações econômicas.

O governo Obama, através de seus representantes comerciais e diplomáticos, expressou descontentamento com a transição do modelo de Concessão (estabelecido durante o governo FHC) para o de Partilha de Produção (implementado sob Lula e Dilma).

Em 2012, o subsecretário de Comércio dos EUA, Francisco Sánchez, criticou abertamente as exigências de que as empresas adquirissem até 65% de equipamentos e serviços no Brasil. O governo americano considerava isso uma barreira técnica que dificultava a entrada de tecnologia e empresas dos EUA no pré-sal.

A legislação de 2010 estipulava que a Petrobras deveria ser a operadora obrigatória em todos os blocos do pré-sal, com participação mínima de 30%. Washington via isso como uma reserva de mercado que restringia a competitividade e o lucro de empresas petrolíferas estrangeiras, como ExxonMobil e Chevron.

Os EUA e investidores de Wall Street criticavam a utilização da Petrobras para manter os preços dos combustíveis internos (como forma de controlar a inflação), o que gerava prejuízos bilionários para a estatal e impactava seus acionistas internacionais.

Documentos vazados pelo WikiLeaks mostraram que diplomatas americanos e executivos da Chevron (como Patrícia Pradal) discutiram estratégias para tentar reverter a Lei da Partilha, aguardando um governo mais favorável à abertura de mercado.

O vice de Obama era Joe Biden, que posteriormente recebeu apoio da maioria da esquerda brasileira. Foram eles que orquestraram o golpe contra Dilma Rousseff.

Com Supremo…

Além de Joe Biden, o também golpista Supremo Tribunal Federal – STF, amplamente apoiado pela maioria da esquerda, foi crucial para a derrubada de Dilma Rousseff, pela prisão de Lula e pela subsequente eleição de Jair Bolsonaro.

O ministro Gilmar Mendes anulou a nomeação do ex-presidente Lula como ministro da Casa Civil, alegando “desvio de finalidade” para evitar uma possível prisão. O STF optou por uma postura de “autocontenção”, limitando-se a julgar o rito processual e evitando analisar se as “pedaladas fiscais” constituíam, de fato, um crime de responsabilidade.

A corte se calou diante do uso de prisões preventivas prolongadas como método para forçar acordos de delação premiada, um verdadeiro método de tortura. Levou meses para julgar o afastamento de Eduardo Cunha, permitindo que ele conduzisse o impeachment de 2016 antes de ser removido do cargo. Além da mudança no entendimento sobre a prisão em segunda instância em 2016.

Em vez de abordar esses pontos essenciais para compreender o que foi o Golpe de 2016, Denise Assis se concentra em aspectos sem relevância que a funcionária da Folha menciona sobre Dilma Rousseff. Ela afirma que é “lamentável que, 10 anos depois, uma mulher descreva novamente a presidente com esses traços, sem nenhuma ressalva”. Julgamentos morais não levam a lugar algum.

Assis menciona que em sua dissertação “o fator misoginia já era evidenciado, assim como a ferocidade dos ataques” contra Dilma. Isso não faz sentido, uma vez que a grande mídia sempre apoiou outras mulheres como Margareth Thatcher e Angela Merkel. O que realmente importa é a posição política que essas mulheres ocupam. Se a petista tivesse se comportado como FHC, teria recebido tratamento semelhante ao de Tony Blair.

Denise Assis poderia ter aproveitado seu texto para esclarecer que a Folha de S. Paulo, uma vez mais, esteve envolvida em um golpe de Estado. Contudo, desta vez, não participou da repressão, quando utilizava seus veículos de entrega para encobrir agentes da Operação Bandeirante e DOI-CODI na captura de militantes de esquerda, que posteriormente eram torturados, como relatou Adriano Diogo, ou mesmo mortos.

Policiais e delegados do DOPS foram contratados pela Folha para criar um clima de medo e perseguição na redação. Demitiu jornalistas perseguidos politicamente por “abandono de emprego” enquanto estavam ilegalmente encarcerados, entre outros.

Em vez de expor o histórico desse jornal, que defende o sionismo, ditaduras e diversas atrocidades, Denise Assis perdeu a chance de deixar claro com quem estava debatendo: apoiadores do fascismo que se disfarçam de democratas.

 

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