“Erro Crasso” de Trump no Irã:  entre a ilusão militar e a derrota política

Cinquenta e quatro dias após a ofensiva militar contra o Irã, lançada em 28 de fevereiro de 2026, o governo de Donald Trump encontra-se em um labirinto geopolítico. Embora a superioridade bélica dos Estados Unidos e de Israel tenha resultado na destruição de ativos navais e de parte das capacidades balísticas iranianas, o objetivo político de uma “rendição incondicional” permanece distante. O cenário, descrito por analistas como um “empate instável”, coloca em xeque a eficácia da estratégia da Casa Branca às vésperas de uma nova rodada de negociações no Paquistão.

A comparação com o histórico “erro crasso” — em alusão à desastrosa campanha de Marco Crasso contra os Partos em 53 a.C. — tornou-se recorrente. Assim como o general romano subestimou a resistência no Oriente e conduziu suas legiões ao desastre, Trump é visto como o arquiteto de uma combinação de arrogância militar e miopia política. 

O abismo entre mísseis e resultados

Desde o início das hostilidades, Trump estabeleceu metas ambiciosas: neutralizar o programa nuclear, destruir o arsenal de mísseis/drones e garantir a livre navegação em Ormuz. Relatórios de guerra reproduzidos no The New York Times e no Los Angeles Times confirmam danos reais à infraestrutura iraniana. Contudo, a “submissão estratégica” não ocorreu.

Antes do primeiro ataque, em 16 de janeiro de 2026,  a Dra. Sanam Vakil, diretora do Programa de Oriente Médio e Norte da África do Chatham House – instituto britânico de relações internacionais, considerado uma das principais referências globais em análise de política externa e segurança – advertia que o objetivo central de Trump era forçar o Irã a uma “submissão estratégica”, impondo limites permanentes ao programa nuclear, às capacidades de mísseis e ao raio de influência regional por meio da combinação de sanções econômicas, bombardeios e pressão diplomática contínua. Em análises posteriores,  Vakil destacou que a escalada de ataques, o custo humano e o bloqueio do Estreito de Ormuz transformaram o conflito em uma guerra “que ninguém está claramente vencendo”, na qual os custos estão crescendo mais rapidamente do que qualquer ganho alcançável.

Para David Remnick, editor da revista The New Yorker, e o analista Karim Sadjadpour, especialista em Irã, a condução do conflito configura uma espécie de “malpractice” estratégica, expressão que pode ser aproximada, em português, da ideia de “erro crasso” na gestão da guerra. No mesmo veículo, Danny Citrinowicz, ex-oficial de inteligência israelense, classifica a campanha como um “desastre colossal” pelo erro de cálculo sobre a resiliência iraniana, que segue operando drones mesmo sob bombardeio.

Desmascaramento e desgaste internacional

O jornalista José Reinaldo Carvalho, presidente do Cebrapaz e editor internacional, avalia que a imagem global de Trump foi severamente comprometida pela natureza intempestiva de como começou a guerra, iniciada sem declaração formal e durante negociações em andamento.  “Trump se desmascarou, pois se dizia mediador de conflitos e que isso o credenciava para o Nobel da Paz. Passados 54 dias de guerra, Trump trouxe grande desgaste; não conseguiu dobrar o Irã nos objetivos declarados, não conseguiu trocar o regime. Fez danos, mas não destruiu a capacidade militar, a infraestrutura petroquímica, nem acabou com o programa nuclear iraniano”, afirma José Reinaldo.

Ele pontua que o desgaste é também interno, com a avaliação negativa do governo em crescimento e o movimento de apoio a Trump dividido. “A imagem também está comprometida pelas acusações de crimes de guerra. Ele diz que vai estender o cessar-fogo até o Irã negociar, mas o Irã não aceita negociar enquanto os EUA mantiverem o bloqueio em Ormuz”, pontua. 

Por outro lado, as pressões para a normalização da navegação no estreito só aumentam. A China exerce influência discreta e Xi Jinping já se manifestou pela liberação da navegação”, avalia.

Para José Reinaldo, o cenário aprofunda o declínio da influência dos EUA. “Não enxergo perspectiva de Trump enviar tropas para uma guerra prolongada. A situação é de desgaste maior para os EUA e fortalecimento do multilateralismo”, completa o jornalista.

Resistência regional e multilateralismo 

O conflito transborda para o Líbano e a Palestina, onde a ofensiva israelense continua. Ricardo Abreu “Alemão”, diretor da Fundação Maurício Grabois, observa que Trump está “momentaneamente derrotado” no campo político. “Não acho que esteja definitivamente derrotado, mas há agora uma ofensiva de Israel no sul do Líbano. O que é necessário é articular uma nova onda de campanhas pela paz, de sentido anti-imperialista, como está acontecendo nos EUA, onde milhões vão às ruas para conscientizar os povos”, analisa Abreu.

Nesse vácuo de liderança, o fortalecimento do multilateralismo é evidente. Enquanto Washington se isola, Pequim defende a estabilidade em Ormuz, consolidando o declínio da hegemonia norte-americana.

O impasse no Paquistão

O Washington Institute for Near East Policy, centro de pesquisa especializado em política e segurança no Oriente Médio, com forte relação com formuladores de política externa dos EUA – aponta que um acordo abrangente é improvável no curto prazo, dado que Teerã recusa o congelamento do programa nuclear por 20 anos e exige a suspensão imediata do bloqueio naval.  

O desfecho no Paquistão definirá se o mundo caminha para um armistício tático ou para uma escalada de custos globais. Por ora, a aventura de Trump assemelha-se à de Crasso: uma demonstração de força que, em vez de consolidar o império, expõe suas rachaduras estratégicas. 

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