Uma área de mais de 700 mil quilômetros quadrados no centro-norte da Amazônia, equivalente a quase o território do Chile, registrou aumento de pelo menos 3,2 °C nas temperaturas extremas durante a estação seca desde 1981. No período, a elevação foi de no mínimo 0,75 °C por década, segundo estudo publicado na quinta-feira (10) na revista Communications Earth & Environment.
A pesquisa foi realizada por um grupo de 53 cientistas internacionais, entre eles pesquisadores brasileiros. Os resultados mostram que o clima da Amazônia não está mudando de maneira uniforme. Enquanto o sul do bioma apresenta um aquecimento médio acelerado, a região centro-norte, mais distante do chamado arco do desmatamento, registra avanço mais rápido das temperaturas extremas e do déficit hídrico.
O ritmo de aumento observado nos extremos é superior ao crescimento de 0,2 °C por década registrado na temperatura média anual da floresta tropical. Para os pesquisadores, os dados indicam que o fenômeno não pode ser explicado apenas pela perda de cobertura florestal, considerada um dos principais vetores de emissão de gases de efeito estufa no Brasil, mas também pela influência das mudanças climáticas globais.
A preocupação aumenta diante da expectativa de que o El Niño deste ano seja o mais intenso já registrado. Segundo os cientistas, o fenômeno pode contribuir para que a Amazônia volte a enfrentar temperaturas elevadas e períodos de seca extrema apenas dois anos depois da grande estiagem de 2024.
Para Liana Anderson, pesquisadora da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e uma das autoras do estudo, os extremos climáticos cada vez mais intensos podem provocar impactos profundos sobre a sociedade e o meio ambiente. Ela destaca que as mudanças na biodiversidade e nos ecossistemas estão diretamente relacionadas à produção de alimentos, à saúde e ao cotidiano da população.
O também pesquisador do Inpe Luiz Aragão chama atenção para o fato de que o aumento dos eventos extremos ocorre em uma área considerada relativamente resistente e resiliente às mudanças climáticas. A região central e norte da Amazônia apresenta menos distúrbios provocados pela atividade humana, como desmatamento e queimadas, em comparação com as porções leste e sul do bioma. Para Aragão, os resultados reforçam a necessidade de estratégias de adaptação e mitigação e de redução das emissões de gases de efeito estufa.
A área estudada corresponde a aproximadamente 10% de toda a Amazônia e abriga extensas regiões de floresta preservada, savanas naturais, unidades de conservação e territórios indígenas, como Coatá-Laranjal, Waimiri-Atroari, Yanomami e Trombetas-Mapuera, localizados nos estados do Amazonas e de Roraima. A região é considerada estratégica para a conservação da biodiversidade e da riqueza cultural amazônica.
Segundo Nathália Carvalho, pesquisadora de pós-doutorado do Centro Ambiental da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e uma das autoras correspondentes do estudo, as mudanças observadas nos extremos climáticos ocorrem em velocidade muito superior às alterações verificadas no clima médio da Amazônia. Ela ressalta que as áreas mais afetadas também variam conforme o indicador utilizado, reforçando que o aquecimento não ocorre de maneira homogênea em todo o bioma.
Análise considerou dados de mais de quatro décadas
Para realizar a pesquisa, os cientistas dividiram a Amazônia em áreas de 11 quilômetros e utilizaram informações de alta resolução sobre temperatura e precipitação obtidas por satélites e estações meteorológicas. Com esses dados, foi possível identificar os períodos secos específicos de cada região.
O estudo também adotou uma nova medida de déficit hídrico, que considera a influência da temperatura na perda de água. Dessa forma, os pesquisadores avaliaram os efeitos da seca em todo o bioma entre 1981 e 2023.
A velocidade das mudanças foi analisada a partir de duas perspectivas. A chamada “tendência central” considera as taxas médias de alteração da temperatura e do déficit hídrico ao longo dos anos. Já a “tendência dos extremos” dá maior peso aos anos excepcionais, permitindo identificar mudanças nos períodos de calor ou seca mais intensos.
O principal autor do estudo, Jos Barlow, da Universidade de Lancaster, explica que a análise dos extremos é especialmente importante porque é nesses momentos de calor e seca mais intensos que podem ocorrer os maiores danos aos ecossistemas.
Secas extremas provocam impactos ambientais
Pesquisas anteriores já associaram os extremos climáticos a impactos como aumento da mortalidade, perda de espécies, degradação de ecossistemas e prejuízos econômicos. Na Amazônia, episódios recentes de seca severa também contribuíram para incêndios florestais de grandes proporções, com perda de vegetação e animais e piora da qualidade do ar.
Um estudo publicado no ano passado, por exemplo, registrou a morte de mamíferos na Amazônia em 2023. Naquele período, os efeitos de uma seca prolongada associada ao El Niño, combinados a uma onda de calor, provocaram recordes de temperatura, baixos índices de chuva e intensa poluição do ar causada pela fumaça no Amazonas. Ao todo, foram encontrados 19 animais mortos, entre eles preguiças e outros mamíferos. Outra pesquisa, realizada em 2020, havia apontado redução no tamanho das populações de aves.
Estudos divulgados neste ano com participação de Anderson e Aragão também indicaram que a estação seca da Amazônia está se prolongando, passando de quatro para até seis meses. Nesse período, o déficit hídrico pode superar 150 milímetros negativos, enquanto aumenta a degradação da floresta associada ao fogo.
Durante a seca de 2023 e 2024, ainda sob influência do El Niño, houve aumento médio de 9% nas áreas queimadas e de 19% nos alertas de degradação florestal. Até 4,2 milhões de hectares foram afetados pelo fogo.
Para Aragão, os resultados demonstram que as alterações climáticas estão ocorrendo em ritmo elevado e afetando não apenas o clima, mas também processos naturais da superfície terrestre. O pesquisador defende a redução urgente das emissões de gases de efeito estufa e a implementação efetiva de políticas de combate ao desmatamento e de transição para fontes de energia limpa.
Mudanças climáticas exigem cooperação
O estudo também destaca a importância da cooperação internacional para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. Aragão afirma que a pesquisa reúne uma rede formada ao longo de vários anos por cientistas brasileiros, europeus e norte-americanos, além de jovens pesquisadores formados em instituições brasileiras.
Segundo ele, a colaboração permite reunir diferentes bases de dados e modelos climáticos globais para produzir análises mais abrangentes e buscar soluções para os impactos previstos.
Entre os próximos trabalhos do grupo estão pesquisas sobre a resposta de florestas modificadas pela ação humana às mudanças climáticas, a contribuição das chuvas amazônicas para áreas agrícolas do país e os efeitos do manejo do fogo.
O estudo recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) por meio de projetos relacionados ao AmazonFACE e ao programa “Vozes da Recuperação”. O artigo, intitulado Rapid increase of climate extremes reveals new areas of concern in Amazonia, foi publicado na revista Communications Earth & Environment.
*Com informações da Agência Fapesp.
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