“Se sua mãe disser que te ama, desconfie”. O jornalismo de Seymour Hersh, por Márcio Sampaio de Castro

“Se sua mãe disser que te ama, desconfie”. O jornalismo de Seymour Hersh

Como um Dom Quixote moderno, o jornalista veterano Seymour Hersh investe contra os arbítrios. Investiga e denuncia. Uma vida inteira consagrada às melhores práticas e princípios do jornalismo é retratada com relativo sucesso pelo documentário Cover-up.

por Márcio Sampaio de Castro

“Se sua mãe disser que te ama, desconfie”. Esta era a frase clássica ensinada aos novatos nos bons cursos de jornalismo do passado. O lendário jornalista norte-americano Seymour Hersh se enquadra amplamente nesse perfil. Herdeiro de uma tradição liberal que coloca sobre os ombros desse tipo de profissional a responsabilidade de vigiar o poder, o filho de imigrantes da Europa oriental nascido em Chicago ainda na primeira metade do século passado encarna em sua trajetória esse símbolo.

O documentário Cover-Up (algo como Encobrir, em português), dirigido pelos documentaristas Laura Poitras e Mark Obenhaus e lançado em 2025, procura jogar luzes sobre a figura de Hersh e seu trabalho desenvolvido ao longo das últimas seis décadas. Os diretores anunciam já nos primeiros minutos que as negociações demoraram vinte anos, até que Sy, outro nome pelo qual o jornalista é conhecido, concordasse em liberar seus blocos de anotações e os dados de algumas fontes (a maior parte delas já falecida). Em sua primeira aparição, ao demonstrar um grau de contrariedade com a produção do filme, ele lança uma afirmação contundente para seus entrevistadores: “Eu confio muito pouco em vocês”.

Isso é compreensível se pensarmos que estamos lidando com uma figura que ao longo de sua trajetória teve que lidar com os bastidores do poder nos EUA, muitas vezes descobrindo fatos aterradores e por outras sendo enganado por suas fontes.

O nome de Hersh tornou-se mundialmente conhecido em 1969 quando veio à luz o envolvimento do tenente Willian Calley com um massacre perpetrado por soldados dos EUA em um obscuro vilarejo vietnamita chamado My Lai. Na ocasião, o pelotão comandado por Calley trucidou centenas de camponeses, incluídos aí idosos e crianças, com os militares chegando a recarregar os pentes de seus fuzis três ou quatro vezes para seguir atirando incessantemente. Em um primeiro momento, o governo e as lideranças do Pentágono chegaram a negar o crime de guerra e uma série de veículos de mídia fecharam suas portas para as denúncias presentes na matéria de Hersh. Apenas o Chicago Sun Times, o The Washington Post e o The Boston Globe concordaram em romper a bolha de silêncio e abriram suas páginas para o furo de reportagem do então desconhecido repórter. O escândalo chocou a opinião pública global e pela primeira vez na história os EUA apareciam para a grande maioria não mais como defensores da justiça e da liberdade e sim como capazes de perpetrar crimes contra a humanidade. Calley seria preso e processado.

Contratado na sequência como estrela pelo The New York Times, Sy teria seu nome atrelado a outro momento histórico da nação. Em 1972, os jornalistas do Post Bob Woodward e Carl Berstein haviam aberto as portas do escândalo Watergate, que envolvia uma invasão noturna da sede do Comitê Nacional do Partido Democrata perpetrado por homens ligados à campanha de reeleição do então presidente Richard Nixon. Ao entrar nas investigações pelo jornal nova-iorquino, Sy descobriria que agentes da CIA (a Agência Central de Inteligência, na sigla em inglês) estavam envolvidos na invasão e que recursos humanos e financeiros da Agência haviam sido direcionados por Nixon para tentar produzir escândalos contra seus adversários durante a corrida eleitoral daquele mesmo ano. Nixon renunciaria meses depois e o Congresso criaria a Comissão Rockfeller para investigar as ações da Agência contra cidadãos estadunidenses dentro de seu próprio território.

Como resgata o documentário, em mais de uma oportunidade, ao participar de programas de TV para falar de suas reportagens investigativas, Hersh foi confrontado pela audiência e acusado de ser “antiamericano”. Nem todos aprovavam sua vigilância do poder.

Mas o jornalista enfrentaria problemas pra valer quando resolveu voltar seus olhos para o mundo corporativo. Ao investigar, no final dos anos 1970, alegadas fraudes fiscais, abuso financeiro e evasão de divisas cometidas pelo conglomerado G&W (Gulf and Western), proprietário à época de companhias como a produtora de cinema Paramount Pictures e a editora Simon & Schuster, Hersh foi impedido pelo Times de dar sequência às investigações e teve seu único texto publicado a respeito editado pelo jornal. Um momento “estrada para Damasco” em seu idealismo quanto ao real papel do jornalismo em uma sociedade capitalista.

Sy pediu demissão e passaria os próximos anos dedicando-se aos seus livros-reportagem. Talvez os mais importantes sejam The Price of Power: Kissinger in the Nixon White House (O Preço do Poder: Kissinger na Casa Branca de Nixon, não publicado em português) e The Dark Side of Camelot (O Lado Sombrio de Camelot, publicado em português) sobre os bastidores de John F. Kennedy e sua família à frente do poder nos EUA.

Afiado e de alta octanagem, como ele mesmo se define, Hersh aparece no último terço do documentário se queixando de seus entrevistadores. Diz que vai romper o contrato e não quer falar mais nada. Rabugices de um veterano com mais de sessenta anos de estrada? Pode ser. Mas felizmente não cumpre a ameaça e podemos ouvir em primeira pessoa os relatos a respeito de mais uma história chocante revelada por ele.

Escrevendo como colaborador da revista The New Yorker, Sy foi procurado no início de 2004 por uma mãe de uma combatente veterana da invasão do Iraque ocorrida um ano antes. A informante era portadora de fotos e histórias que novamente chocariam o mundo quanto ao comportamento dos militares estadunidenses em território estrangeiro. Nas imagens produzidas no interior do complexo prisional de Abu Ghraib, homens iraquianos aparecem sendo humilhados e torturados por seus captores. É possível ver cenas de cães enormes latindo ameaçadoramente para prisioneiros aterrorizados, homens seminus com as cabeças cobertas com capas enquanto se equilibram sobre caixas de papelão, outros igualmente seminus e amarrados em grupos de três ou quatro deitados no chão e com seus algozes sentados tranquilamente sobre eles, soldados norte-americanos posando ao lado de cadáveres, enquanto sorriem para as câmeras fazendo sinal de positivo. Em resumo, visões dantescas.

Mais uma vez, Hersh seria acusado por uma parcela do público de não ser patriota por publicar essas informações.

Recentemente, na casa dos 80 anos e ainda muito ativo, o jornalista denunciou em extensa reportagem que a explosão do gasoduto Nordstream 2, construído por Rússia e Alemanha para abastecer a segunda com gás russo, foi explodido por comandos militares da marinha dos EUA com apoio norueguês. Diante da gravidade das denúncias, a principal repercussão foi uma negativa oficial do governo, nada muito além disso. O conjunto da imprensa não se interessou e o assunto desapareceu do noticiário. A conclusão possível é a de que a sociedade norte-americana mudou ainda mais em comparação àquela do final dos anos 1960 ou mesmo do início dos anos 2000. Não se choca mais com os desmandos  de seus militares mundo afora.

Caminhamos para o fim do documentário e um diálogo simples porém eloquente emerge:

_ “Nós somos um país de enorme violência, mas há um nível que não se alcança (de assuntos encobertos)”, diz Hersh;

_ “Então, por que continuar?“, pergunta a entrevistadora.

_ “Porque você não pode ter um país que faz essas coisas”, arremata o veterano.

A propósito, o tenente Willian Calley, condenado a prisão perpétua pelo massacre de My Lai no Vietnã, ficou preso apenas três dias e teve sua condenação comutada pelo presidente Nixon. Calley foi enviado para prisão domiciliar, que durou pouco mais de dois anos, e passou o resto dos seus dias em liberdade. Cai o pano.

Márcio Sampaio de Castro é mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É professor nos cursos de Relações Internacionais e Propaganda e Marketing das Faculdades de Campinas (FACAMP), onde coordena o Centro de Análise e Pesquisa sobre a China (CAP – China).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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