
Há um paralelo possível entre a vitória de Gabriel Boric nas eleições presidenciais do Chile, em 2021, e a campanha de Lula em 2026. Naquele ano, o candidato da esquerda chegou atrás do adversário à votação decisiva, mas conseguiu reverter o resultado. No Brasil, as grandes manifestações em apoio a Lula, realizadas neste domingo (11), colocaram a mobilização popular no centro da campanha pela reeleição do presidente.
A Avenida Paulista, em São Paulo, recebeu em torno de 1 milhão de pessoas na Marcha pela Democracia, que contou com a presença de Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), de parlamentares, governadores e representantes de movimentos sociais.
Curitiba, Belo Horizonte, Vitória, Recife, Goiânia e Campinas também arrastaram multidões. Na segunda-feira (12), milhares de pessoas também participaram de um ato em Copacabana, no Rio de Janeiro.
Em novembro de 2021, José Antonio Kast, candidato da extrema direita chilena (e atual presidente), terminou o primeiro turno com 27,91% dos votos, enquanto Boric recebeu 25,82%. A diferença de pouco mais de dois pontos percentuais colocou o ex-líder estudantil na segunda posição e abriu uma disputa decisiva pelo eleitorado dos candidatos eliminados.
Menos de um mês depois, em 19 de dezembro, o resultado foi outro. Boric conquistou 55,87% dos votos válidos, contra 44,13% de Kast. Aos 35 anos, tornou-se o presidente eleito mais jovem da história chilena, com 4.621.231 votos. O candidato que havia terminado o primeiro turno em segundo lugar venceu a eleição com uma vantagem superior a 970 mil votos.
Um dos fatores centrais daquela eleição foi o aumento da participação popular. Mais de 8,36 milhões de chilenos compareceram às urnas no segundo turno, aproximadamente 1,25 milhão a mais do que na primeira votação. A campanha de Boric conseguiu ampliar sua base eleitoral em meio à mobilização de jovens, movimentos sociais e setores preocupados com as posições conservadoras de Kast sobre direitos civis e questões sociais.
A disputa chilena recuperou elementos da memória política do país. Kast defendia o legado da ditadura de Augusto Pinochet, enquanto Boric representava uma coalizão formada pela Frente Ampla e pelo Partido Comunista. O resultado de 2021 foi comparado ao plebiscito de 1988, quando os chilenos rejeitaram a continuidade de Pinochet no poder. Naquela votação, o “não” recebeu 55,59% dos votos, percentual próximo ao obtido por Boric mais de três décadas depois.
No Brasil, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno de 2026 com 47% dos votos, diante dos 45% recebidos por Lula. A experiência chilena mostra que a liderança obtida no primeiro turno não determina necessariamente o resultado final. Seria inédito no Brasil, mas o que não é inédito na trajetória de Lula?