São Paulo confirma Febre do Nilo e surto de sarampo em meio ao desleixo de metas vacinais de Tarcísio

A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) confirmou, nesta segunda-feira (24), os dois primeiros casos humanos de Febre do Nilo Ocidental na história do Estado.

Os diagnósticos, realizados pelo Instituto Adolfo Lutz e notificados ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), atingiram uma mulher de 34 anos, em Ribeirão Preto, e uma adolescente de 18 anos, de São José do Rio Preto, que segue internada.

Os locais prováveis de infecção ainda estão sob investigação epidemiológica. A diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica “Prof. Alexandre Vranjac” (CVE-SP), Tatiana Lang D’Agostini, destacou que a confirmação exige vigilância permanente. Transmitida pelo mosquito do gênero Culex – o pernilongo comum, abundante em áreas urbanas e de proliferação rápida em águas poluídas -, a doença não possui vacina nem antiviral específico e pode evoluir para formas neurológicas graves em 1 a cada 150 infectados.

A emergência do novo vírus escancara a vulnerabilidade da saúde pública paulista, que já enfrenta o retorno fulminante do sarampo. Em 2026, o Estado registrou 23 casos confirmados da doença, a maioria na capital, sendo 16 em pacientes sem o histórico vacinal completo.

Dados da própria SES-SP indicam que a cobertura da tríplice viral despencou neste ano para 77,5% na primeira dose e alarmantes 65,5% na segunda dose, índices muito abaixo da meta de 95% necessária para a imunidade de rebanho e inferiores aos registrados em 2025 (94% e 84,4%).

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O desmonte orçamentário no planejamento de Tarcísio

​A derrocada vacinal é resultado direto de escolhas orçamentárias da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ao elaborar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2025, o governo estadual cortou do Plano Plurianual (PPA 2024-2027) 37 metas, sendo 32 na área da saúde.

​O corte atingiu duas frentes cruciais para o controle de epidemias:

  • Supervisão da Rede de Frio: Foi eliminada a meta de garantir 50% das salas de vacinação nos municípios com fiscalização adequada da cadeia de refrigeração. A rede de frio mantém as vacinas entre +2°C e +8°C; sem esse controle contínuo sobre geladeiras e geradores nas UBSs, os imunizantes perdem a eficácia.
  • Diagnóstico Rápido: Foi retirada a meta de liberar 79% dos exames de sarampo e rubéola em tempo oportuno, encurtando a capacidade de resposta e isolamento de surtos.

​A LDO 2026 manteve a omissão desses indicadores. Na prática, o governo retirou do orçamento o compromisso formal com a qualidade das doses e com a agilidade do diagnóstico. A essa flexibilização soma-se o subfinanciamento do Programa de Imunização (cerca de R$ 6 milhões) e a entrega de R$ 19 bilhões (52% do orçamento da pasta) para Organizações Sociais de Saúde (OSS), sob alertas de falta de transparência do Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP).

​Conivência política e omissão sanitária

​O cenário é agravado pelo alinhamento do governador com a pauta antivacina da extrema-direita. Em agosto, após o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) festejar a isenção vacinal da filha nos EUA e atacar a obrigatoriedade dos imunizantes, Tarcísio recusou-se a defender a exigência legal de vacinação para doenças epidemiológicas. Limitou-se a dizer timidamente que a vacina “é consagrada” e a recomendar o comparecimento aos postos.

​Em vez de acionar os instrumentos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e do Código Sanitário para proteger a infância, Tarcísio preferiu não contrariar sua base bolsonarista. Ao relativizar o dever coletivo da imunização por conveniência eleitoral, o governo paulista abre espaço para o reaparecimento de doenças graves e deixa a população desprotegida.

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