
Por Leonardo Sakamoto, no Uol
A proposta que põe fim à escala de trabalho 6×1 deve ser colocada em votação no plenário do Senado nesta quarta (14), promessa do presidente Davi Alcolumbre. Nos bastidores, um grupo de senadores trabalha para que isso não aconteça, acusando o projeto de inócuo, oportunista, eleitoreiro e uma bomba que vai quebrar o país. À frente da tropa contra a mudança, Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República, e seu coordenador de campanha, Rogério Marinho.
É do jogo democrático e direito inalienável deles pensarem assim, representando uma parcela dos empresários. Da mesma forma, é direito de outros senadores defenderem que o fim da 6×1 não é o apocalipse econômico, mas uma medida civilizatória que irá melhorar a vida de uma parcela significativa de brasileiros, devolvendo-lhes o direito básico de ter tempo para si mesmos e suas famílias, e que o país conseguirá se adaptar.
A questão central, contudo, não é o embate de ideias. Muitos dos que se colocam de forma contrária estão operando freneticamente para que o fim da 6×1 sequer seja colocado em votação. Em um segundo turno de respiração suspensa e disputa apertadíssima contra Lula, morrem de medo da reação dos eleitores.
A campanha do PT vem afirmando que Flávio vai retirar proteções sociais históricas caso seja eleito. A pressão foi tamanha que o senador se viu forçado a produzir peças para a TV jurando de pés juntos que não fará isso. Aqui reside a armadilha desta quarta: se ele votar contra o fim da 6×1, não importa o malabarismo retórico ou a justificativa econômica que apresente, o gesto será usado exaustivamente contra ele.
Servirá como prova de que, caso eleito, ele não hesitará em fazer o mesmo com o Bolsa Família, a Farmácia Popular, o Minha Casa, Minha Vida, a política de reajuste do salário mínimo e, portanto, o valor das aposentadorias, hoje atreladas a ele. A mensagem nas entrelinhas será: quem nega descanso ao trabalhador, negará também o básico.

Quem deseja governar o país não pode se esconder atrás do regimento para evitar o julgamento popular. Se Flávio e seus aliados consideram o fim da 6×1 uma ameaça real ao Brasil, que tenham a grandeza de levar à votação e, de peito aberto, dizer que são contra, explicando isso diretamente aos eleitores e arcando com o ônus de suas escolhas.
A democracia também serve para separar convicção de covardia. Quem quer presidir a República precisa dizer com clareza se o trabalhador merece dois dias para viver ou apenas seis para trabalhar.
O mesmo vale se ele se abstiver de votar, sob qualquer justificativa, ficando em cima do muro — coisa que o eleitorado detesta. Até porque, como lembra o livro do Apocalipse, capítulo 3, versículo 16: “Assim, porque é morno, nem frio nem quente, estou prestes a vomitar você da minha boca”.
Caso o senador e seus aliados votem a favor, não por concordância, mas por redução de danos, pelo menos esta campanha eleitoral terá produzido algo de bom, com os grupos em disputa pagando uma dívida histórica com os trabalhadores.