
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Muitos institutos, novamente, não captaram a intenção de voto de uma parte do bolsonarismo. A Palver foi uma das pesquisas que chegaram mais próximo do resultado do primeiro turno, apontando 47% para Flávio e 43% para Lula (com margem de 2,4 pontos). Ao fazer seu levantamento levando em conta o humor de grupos de WhatsApp a partir de amostragens demograficamente equilibradas, o instituto pode ter captado o pulso subterrâneo que metodologias tradicionais demoram a enxergar.
Com o ecossistema descentralizado das redes sociais, o jornalismo profissional deixou de ser o protagonista na mediação do debate público para se tornar, na melhor das hipóteses, um coadjuvante. A extrema direita compreendeu isso há anos. Sem intermediários, bombardeia o cidadão diariamente contra as instituições e o Estado e, o que é mais profundo, atua no sentido de reconstruir, à sua imagem e semelhança, o sentido e a identidade do país.
A eleição parlamentar de 4 de outubro cristalizou de vez uma transição iniciada em 2018, com a transferência do voto de massa do palanque físico para o feed algorítmico. Não estou falando de parlamentares tradicionais que usam o Instagram como vitrine acessória para prestar contas, mas de criadores de conteúdo em tempo integral que se tornaram deputados e senadores (ou vice-versa), cuja atividade primordial é alimentar uma esteira ininterrupta de mobilização e engajamento.
Pela internet, consome-se essa narrativa de forma contínua e passiva. O cidadão acorda com o escândalo exagerado no feed, almoça a versão distorcida do fato nos grupos de família e dorme com a indignação mastigada em vídeos curtos.
O desenho da bancada eleita para a Câmara a partir de fevereiro de 2027 mostra que esse grupo está se transformando no próprio centro de gravidade da política nacional.
Basta olhar os números. O topo da lista nacional de votação traz expoentes da extrema direita que ultrapassaram, com folga, a barreira histórica dos 3 milhões de votos: Nikolas Ferreira (PL-MG), com impressionantes 3.119.318 votos, e Lucas Pavanato (PL-SP), com 3.038.438. No mesmo pelotão da audiência permanente, nomes como André Fernandes (PL-CE, 684 mil), Julia Zanatta (PL-SC, 560 mil), Jeffrey Chiquini (Novo-PR, 425 mil) e Delegado Caveira (PL-PA, 414 mil) comprovam que a indignação é o cabo eleitoral mais eficiente do país.

O campo progressista também tem seus fenômenos de engajamento, como Erika Hilton (PSOL-SP), que atingiu a expressiva marca de 1.596.472 votos, e Sâmia Bomfim (PSOL-SP, 583 mil), mas elas operam como ilhas de resistência em um oceano dominado pela articulação adversária. A presença de nomes da esquerda ou da centro-esquerda, como Ana Elisa (PT-MG, 524 mil), Tabata Amaral (PSB-SP, 476 mil), Jones Manoel (PSOL-PE, 249 mil) ou Rick Azevedo (PSOL-RJ, 191.371) não disfarça a assimetria estrutural da disputa.
O campo democrático, e muito particularmente lideranças do governo federal, não podem alegar surpresa. Foram alertadas repetidas vezes por pesquisadores, militantes da comunicação digital e estrategistas que não existe presença em rede sem tecnologia de ponta, monitoramento de calor em tempo real, captação contínua de lides, esteiras de conversão e manutenção ativa de comunidades locais e temáticas.
Fazer comunicação política hoje é construir ecossistemas de relacionamento diário, não inaugurar perfis requentados a três meses do pleito para exibir fotos institucionais de corte de vídeo ou posts com dados sobre indicadores macroeconômicos.
O conteúdo da disputa importa, mas ele não é nada se a forma da mensagem e o canal pelo qual ela é transmitida não funcionarem.
Como vimos na mobilização puxada por Erika Hilton e Rick Azevedo para o fim da 6×1 de trabalho, a maneira como ela veio a público é fundamental. A redução da escala e da jornada de trabalho semanal está presente no debate social do Brasil deste a Constituinte de 1988, mas não tinha sido capaz de gerar tração como nos últimos anos graças a iniciativas dos dois. Que foi tão forte que levou deputados que são influenciadores da direita, contrários a um dia a mais de descanso, a votarem a favor da matéria na Câmara com medo da má repercussão eleitoral.
A recusa em construir essa infraestrutura em uma parte do campo democrático decorre de uma mistura letal de soberba e ignorância. A soberba dos que acreditam que a memória afetiva de governos passados basta para garantir hegemonia popular. E a ignorância de quem enxerga a internet como mera ferramenta técnica de transmissão de mensagens, ignorando sua natureza antropológica de mediação da vida.
Enquanto ele seguir tratando as plataformas como panfleto de luxo e desdenhando da arquitetura de dados, a extrema direita continuará reinando em céu de brigadeiro. O país, por sua vez, seguirá pagando a conta da inércia de quem teve tempo, recursos e alertas para disputar mentes e corações, e, principalmente, projeto de país, mas preferiu se encastelar na certeza de que a realidade se dobra a discursos de palanque.