
Por Leonardo Sakamoto, via UOL
A interferência do governo dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro de 2026 já deixou de ser uma hipótese de bastidor para virar fato consumado. E isso deveria causar calafrios em qualquer pessoa que se diga democrata, independentemente de preferência partidária.
(O problema é que muita gente diz amar a democracia, mas quando entende o que ela significa de fato, e precisa valer na vitória ou na derrota, corre para lançar um “oi, sumida” para a ditadura.)
Como revelado hoje por Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) disparou o alarme vermelho ao classificar como de nível “crítico” a escalada de pressão de Washington sobre o Brasil. A administração de Donald Trump, segundo o documento, busca reassegurar sua hegemonia no continente a qualquer custo, barrando o avanço chinês sobre infraestruturas, terras raras e riquezas naturais.
Para a Casa Branca, isso passa obrigatoriamente por substituir governos com autonomia estratégica por parceiros dóceis e subservientes. E é exatamente aí que entra a candidatura de Flávio Bolsonaro.
O governo Donald Trump já tinha despido qualquer a fantasia e indicado que a eleição brasileira é o seu próximo grande desafio na região, colocando o país na mesma vala de adversários declarados como Cuba, Nicarágua e Venezuela. O Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, é quem puxa o coro ideológico ao culpar Lula por retaliações tarifárias e articular abertamente a ascensão de uma direita amigável aos interesses norte-americanos na América Latina – no caso, o filho do ex-presidente.
O plano não visa o bem-estar do povo brasileiro, mas a transformar o país em um quintal obediente e fornecedor de commodities.
Trump gosta de Lula pessoalmente, pois respeita pessoas com poder. Mas uma coisa são preferências pessoais, outra é o business as usual.
A verdadeira dúvida que paira sobre a nossa democracia não é mais se a Casa Branca vai interferir, mas qual será o tamanho e a ousadia dessa mão peluda.
Atuar nos subterrâneos das redes sociais, manobrando algoritmos de Big Techs e direcionando buscas para desgastar o governo, é algo perigosíssimo, alertado exaustivamente por especialistas. Os tarifaços impostos à economia brasileira às vésperas da eleição e as ameaças ao sistema bancário e financeiro nacionais geradas pela transformação de PCC e CV em terroristas são outros patamares de agressão à soberania nacional.

O cardápio de pressões já exibiu amostras indigestas com minutas de acordos absurdas exigindo que o Brasil garanta a participação de supostos “dissidentes políticos” nas urnas até o uso seletivo de sanções a atores públicos. Se Washington resolver esticar a corda e voltar a torpedear ministros do Supremo Tribunal Federal e membros do governo federal (atendendo aos pedidos do ex-deputado Eduardo Bolsonaro), a interferência sobe mais um degrau.
Contudo, a arrogância imperial costuma tropeçar nos próprios pés. Trump é notório por ser um péssimo cabo eleitoral quando intervém de forma descarada fora de suas fronteiras, acumulando derrotas de aliados em locais como o Canadá e a Hungria.
Se a mão peluda pesar publicamente sobre as instituições brasileiras, ela devolverá a Lula o discurso da defesa intransigente da soberania. O presidente poderá, com toda a legitimidade dos fatos, empunhar a bandeira verde e amarela para alertar que a soberania do país corre perigo real.
Restará a Flávio Bolsonaro o constrangimento de se explicar, enquanto seus apoiadores celebram o 7 de Setembro venerando bonecos de um presidente estrangeiro, prontos a bater continência para quem trata o Brasil como colônia.
Vale lembrar que a Polícia Federal investiga se parte dos R$ 130 milhões que ele pediu ao banqueiro Daniel Vorcaro financiaram a articulação da família Bolsonaro junto ao governo dos EUA para gerar tarifaço e pressionar pela liberdade de Jair. O que é traição.
Uma parcela significativa dos brasileiros ditos independentes, que não estão alinhados nem com o lulismo nem com o bolsonarismo, e são os fiéis da balança eleitoral, podem estar insatisfeito com a atual gestão. Mas creem que xingar e atacar o governo é um direito dos próprios brasileiros, não de yankees.