
Por Leonardo Sakamoto, no UOL.
“As meninas estão prontas.” Uma mulher identificada como Rayanna organizou um encontro e, dias depois, cobrou de Daniel Vorcaro o valor de R$ 10 mil. De forma bastante direta, afirmou: “Boa tarde, Dani. Tudo bem? A minha amiga lá aquele dia! Deu certo, né? Ela disse que ficou com Kassio! Ela tá me cobrando aqui.” Um Pix foi feito.
Pelo contexto da conversa, o alvo do encontro seria o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), e, hoje, presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Embora o magistrado tenha negado o encontro — e é importante que se registre isso —, o suposto pagamento por acompanhantes de luxo ilustra o que parece ser apenas uma fração de um esquema maior de facilidades. E a seletividade na produção de relatórios no STF.
Não é apenas um ministro, aliado do bolsonarismo e do centrão, citado em uma situação constrangedora. Mas o atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que prometeu conduzir a eleição com imparcialidade.
Já era conhecido que Vorcaro usava os serviços de modelos e profissionais do sexo para lubrificar suas relações políticas e econômicas. Das “suíças” que teriam deixado “louco” o presidente do Senado Davi Alcolumbre às festas na casa alugada pelo banqueiro em Trancoso, isso virou um braço do esquema.
Em outro trecho das mensagens, um agente de viagens questionou o ex-banqueiro se deveria cobrar dele uma viagem de cerca de dez dias para cinco pessoas, encomendada diretamente pelo próprio “Ministro Kassio”. O roteiro internacional luxuoso, focado em cidades como Viena, Bratislava, Budapeste, Graz e Salzburgo, teve o pronto aval de Vorcaro. Ao ser indagado se o serviço seria faturado em seu nome, o empresário foi categórico ao mandar o agente atender a todos os pedidos.
Há dois tipos de networking. O primeiro acontece à luz do dia: reuniões formais, agendas públicas, atas registradas, cafezinho queimado e doce. O segundo dispensa transparência, mas não champanhe, hotéis de luxo, viagens, jatinhos. E, no caso do Banco Master, até festas bunga-bunga com mulheres tratadas como parte do pacote.
Vorcaro não apenas comprava políticos usando mulheres; ele operava em um mercado onde nós, homens, já determinamos que elas são moeda de troca.
Reportagem de Alexa Salomão, Joana Cunha e Dani Braga, na Folha de S.Paulo já havia apontado que o ex-dono do Master estruturou eventos luxuosos com a presença de autoridades públicas, com passagens internacionais, hospedagens em hotéis cinco estrelas e deslocamentos em aeronaves privadas, bancando a logística de mulheres (inclusive estrangeiras) para serem oferecidas como parte da estratégia de negócios.

O próprio Vorcaro deixou isso claro à sua então noiva, que o questionou pelos contatos com profissionais do sexo. “Fazia parte do meu ‘business’. Nunca te escondi o que fiz, e por que fiz. Fiz festa com 300 desse tipo”, escreveu para ela, em mensagem registrada em um dos seus celulares. Os encontros ocorriam em dias úteis, para que os convidados voltassem às suas famílias nos finais de semana.
Nas várias tubaínas que tomou com o ex-presidente Jair Bolsonaro, o ministro chegou a falar para ele sobre esse tipo de festa?
O problema, portanto, não é o que teria acontecido entre o tal Kassio e a mulher citada nas mensagens; isso é questão de foro íntimo. Mas o que esse episódio revela sobre a régua moral aplicada dentro do próprio campo bolsonarista.
André Mendonça construiu sua imagem pública associando conservadorismo, religião e defesa de valores familiares a uma determinada ideia de justiça. Mas princípios só valem alguma coisa quando sobrevivem aos amigos. Quando a indignação aparece com força diante dos adversários e perde a voz diante dos aliados, deixa de ser princípio e vira conveniência.
Se as suspeitas envolvendo inimigos políticos merecem rigor, escrutínio e condenação pública, as que atingem nomes próximos ao bolsonarismo não podem receber indulgência automática. Kassio Nunes Marques nega o encontro, mas as mensagens existem, a cobrança existe e o Pix existe. É aí que a seletividade se revela.
Por que houve um relatório sobre Moraes e não houve um sobre Nunes Marques? Ou sobre Luiz Fux, cujo filho receberia recursos de Vorcaro? Do próprio Dias Toffoli, com relações promíscuas com o empresário? Ou mesmo de Mendonça, que se reuniu fora do tribunal com o banqueiro? Natalia Portinari informa que Nunes Marques e Fux foram removidos na última versão de uma das delações de Vorcaro em junho.
Afinal, justiça com dois pesos não é justiça. É apenas preferência política usando toga.