Sakamoto: Blindagem de Flávio e Toffoli reforça seletividade de Mendonça no Master

Dias Toffoli e André Mendonça, ministros do STF
Dias Toffoli e André Mendonça, ministros do Supremo Tribunal Federal. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

A deusa Têmis costuma ser representada com uma venda sobre os olhos para simbolizar a imparcialidade cega da Justiça, mas às vezes ela parece usar um monóculo de conveniência política. No gabinete do ministro André Mendonça, responsável pelas investigações do caso Master no Supremo Tribunal Federal, o rigor da lei depende de qual colega de toga aparece no visor.

Quando um robusto relatório da Polícia Federal com 196 páginas revelou a intimidade do banqueiro Daniel Vorcaro com Dias Toffoli (envolvendo R$ 35 milhões destinados a paraísos fiscais via fundo ligado ao resort da família do magistrado, reviravolta em votos de precatórios bilionários, caronas de helicóptero e até a ex-esposa do ministro atuando como advogada do investigado), Mendonça engoliu o apito. Detalhes do relatório foram divulgados por Breno Pires, Ana Clara Costa e João Batista Jr, da revista piauí.

Em uma reunião entre os pares para discutir a situação de Toffoli, preferiu endossar a tese de que a palavra dele gozava de “fé pública”. Dessa forma, sentou-se confortavelmente sobre o calhamaço durante sete meses e não mexeu uma palha para levantar o sigilo ou aprofundar as apurações. Prevaleceu o velho e corporativista “STF Futebol Clube”, onde a roupa suja da corte se lava a portas trancadas com sabão em pó institucional.

A calmaria do gabinete, contudo, converteu-se em proatividade total quando o alvo passou a ser Alexandre de Moraes. Com base no exato mesmo aparelho celular apreendido e sob a batuta dos mesmos delegados federais, Mendonça exigiu apuração em inacreditáveis 72 horas, decretou sigilo máximo e, quatro dias depois, escancarou o relatório para o mundo.

O detalhe do calendário não é mero capricho: a exposição pública do arqui-inimigo do bolsonarismo ocorreu a 33 dias das eleições presidenciais e poucas horas após revelações constrangedoras sobre mais uma mentira de Flávio Bolsonaro sobre os milhões que recebeu de Daniel Vorcaro.

Daniel Vorcaro. Foto: Reprodução

Não se trata de inocentar quem quer que seja da esbórnia promíscua regada a uísque de milhares de reais bancadas por banqueiro bandido em Londres. Trata-se de constatar o absurdo de dois pesos e duas medidas que manteve Toffoli na gaveta acolhedora e na preservação da liturgia e para o desafeto Moraes, o vazamento calculado e a crise institucional.

Se a imparcialidade de um juiz do STF escolhe a dedo para proteger e o que é escândalo nacional para incinerar, o tribunal deixa de distribuir Justiça e passa a operar como um diretório partidário com togas de veludo.

A situação de Moraes precisa e deve ser avaliada por seus pares na próxima semana, pois ele precisa dar explicações urgente. Não é aceitável que um ministro do STF favoreça um banqueiro investigado por roubar dinheiro público, ainda mais quando sua esposa tem um contrato milionário com a empresa do mesmo.

Mas André Mendonça precisa passar pelo escrutínio dos colegas e, eventualmente, a relatoria do caso Masters ser transferida para outro responsável. Porque tampouco é aceitável que um ministro do STF use o poder que tem para escolher em quem bater e quem proteger, interferindo nas eleições.

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