Sakamoto: Ataque à Nossa Senhora de 2026 não é a “Mamadeira de Piroca” de 2018

A imagem de Nossa Senhora Aparecida e Flávio Bolsonaro. Foto: reprodução

Por Leonardo Sakamoto no Uol

Na máquina de moer carne que se tornou o debate público brasileiro, nem toda polêmica nasce do esgoto. Para entender o abismo que separa o caos que assola a campanha presidencial de 2026 daquele que sequestrou as eleições de 2018, é preciso olhar não apenas para o conteúdo, mas para o lastro de realidade ou a completa falta dele que o sustenta.

O caso da vez é o rumor de que o senador Flávio Bolsonaro (PL), caso eleito presidente da República, agiria para destituir Nossa Senhora Aparecida do posto de Padroeira do Brasil. O objetivo? Atender a uma demanda de grupos de lideranças fundamentalistas que formam o núcleo duro do bolsonarismo.

Um projeto de lei arquivado há quase 20 anos pretendia rebaixar Nossa Senhora Aparecida e foi proposto pelo pastor Victório Galli (PP-MT), então deputado, que depois se tornou assessor especial da Presidência na gestão de Jair Bolsonaro. Não há prova de que Flávio tenha repetido essa promessa aos seus aliados religiosos (o mais provável é que tenha prometido uma teocracia através de indicações ao STF), mas a história de Nossa Senhora ganhou fôlego porque encontrou o temor sobre o comportamento do candidato e de seu círculo próximo diante de temas importantes para a Igreja Católica.

Setores do catolicismo criticam o desprezo dele pelos direitos fundamentais dos mais pobres (combate à fome, meio ambiente, infância, trabalho digno…) e pela soberania nacional (há bispos e padres torturados pela ditadura que consideram um absurdo a subserviência a uma potência estrangeira) e temem pela própria religião e seus símbolos diante de um projeto de poder ligado a fundamentalistas.

Em agosto, ele prometeu “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, como um dos seus primeiros atos. Isoladamente, pode não parecer muito, mas lido à luz dos ataques feitos ao fato de Nossa Senhora Aparecida ser Padroeira do Brasil por líderes religiosos que o apoiam, a história ganha outras cores.

Setores evangélicos por aqui importaram a Teologia do Domínio dos Estados Unidos que defende que fiéis devem conquistar o controle de esferas da sociedade, como a política, a economia, a educação, a mídia e a cultura, para submetê-las à interpretação conservadora dos textos bíblicos. A postura do bolsonarismo nesse contexto assusta muitos católicos. Não à toa, lideranças vêm defendendo um voto responsável e consciente nestas eleições.

Essa tensão ultrapassa as fronteiras brasileiras. Como apontou Vinicius Vieira, professor de Relações Internacionais da Faap e da FGV-SP, o cenário se conecta diretamente aos ataques que o papa Leão 14 vem sofrendo por parte da extrema direita global. Para ele, um domínio trumpista sobre a América Latina, região de maioria católica, vai piorar esse quadro. O bolsonarismo, vale lembrar, defende uma relação de suserania e vassalagem com Washington.

Publicação de bolsonarista antes das eleições de 2018. Foto: reprodução

Diante da polêmica instalada, Flávio tomou medida extrema, pedindo ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) censurar até postagens que não o acusavam de chutar a santa. Dois casos gritantes foram o do humorista Antonio Tabet, cuja publicação falava de “família miliciana”, sem citar de quem se tratava (o senador, vendo a carapuça passar, vestiu como se fosse sua). E a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), que pediu “cautela e atenção” para movimentos que sugiram a remoção de Nossa Senhora como padroeira. Ambas as postagens sofreram ordem de remoção pelo ministro André Mendonça, bem como várias outras, que apenas saudavam a Padroeira.

A repercussão foi muito ruim. E, sentindo a perda de tração entre os católicos, Flávio partiu para o ataque, acusando, sem apresentar provas, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de fazer parte de uma campanha contra ele. Como escrevi aqui ontem, dessa forma, ele atacou a Igreja Católica para provar que não atacou a Igreja Católica.

Ao bater na CNBB, contudo, o candidato despeja o seu profundo descontentamento com a resistência de parte dos bispos brasileiros à sua candidatura pelas razões citadas acima.

Desinformação em campanhas eleitorais são sempre um atentado à democracia, mas é preciso honestidade intelectual para separar os fenômenos.

Há oito anos, a campanha de Fernando Haddad (PT) à Presidência da República foi alvejada pela famigerada “Mamadeira de Piroca”. Um vídeo falso, usando um objeto artesanal importado com o formado de um pênis, viralizou nos esgotos do WhatsApp para gerar pânico moral. Vendia a ideia que, graças a Haddad, as crianças estariam sofrendo “sexualização infantil” recebendo o produto em creches públicas.

A mentira, peça central do delírio sobre um suposto “kit gay”, foi desenhada sob medida para mobilizar eleitores conservadores. Detalhe fundamental: não havia um milímetro de verdade ali, nenhum grupo de esquerda ou movimento de defesa dos direitos da população LGBT+ jamais propôs distribuir mamadeiras com formato fálico para “transformar bebês em gays”. Era puro chorume destilado para manipular pelo medo.

A mamadeira de 2018 foi uma invenção grotesca baseada no preconceito e no ódio contra minorias, sem qualquer ancoragem na realidade. Já a crise de 2026, embora a promessa de Flávio não tenha sido provada e seja considerada falsa, ganhou tração como sintoma de um medo real, de que princípios caros aos católicos sejam ignorados e que o Estado brasileiro seja engolido por um extremismo religioso que já mostrou não ter limites para impor sua visão de mundo.

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